maio 29, 2026

Empatia, meio ambiente e gestão de crise: as lições de Alexandre Saltz à frente do Ministério Público gaúcho

De uma escolha por eliminação a uma carreira de décadas

Saltz conta que ingressou no direito quase por exclusão: sem certeza sobre a carreira que queria seguir, prestou vestibular tanto para medicina quanto para direito. Ainda na faculdade percebeu que não tinha vocação para a advocacia privada, principalmente pela dificuldade de cobrar por seus serviços, e migrou o foco para concursos públicos. Aprovado simultaneamente em concursos para juiz, promotor, procurador de estado e delegado de polícia, tomou posse como promotor de Justiça em dezembro de 1990.

O nascimento de uma vocação ambiental

Sua atuação em direito ambiental começou de forma acidental, ao investigar um caso de aplicação irregular de agrotóxico proibido durante uma infestação de gafanhotos em Santiago (RS), no início dos anos 1990. Diante da escassez de material sobre o tema na época, tornou-se autodidata e, mais tarde, professor de direito ambiental por 15 anos. Saltz reconstrói a evolução histórica da proteção ambiental no Brasil, desde a Conferência de Estocolmo em 1972 até a Constituição de 1988, destacando como o Ministério Público passou de mero órgão acusador para vetor ativo de políticas ambientais.

Resíduo sólido como metáfora de responsabilidade coletiva

Um dos momentos mais didáticos da conversa usa um exemplo simples: o destino de um copo descartável após o uso. Saltz argumenta que a natureza coletiva do meio ambiente (“é de todos”) frequentemente resulta em ninguém assumir responsabilidade individual por ele. Para ele, o papel do Ministério Público é justamente atribuir essa responsabilidade a cada ator (poder público, empresas, cidadãos) de forma concreta, seja por via preventiva, educativa ou corretiva.

As enchentes de 2024: liderança em meio ao colapso

A parte central da conversa aborda a atuação do MP-RS durante as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024. Saltz relata que sinais de alerta já haviam surgido antes, com um ciclone em Caraá e duas enchentes anteriores no Vale do Taquari, o que levou à criação do primeiro gabinete de estudos climáticos de um Ministério Público brasileiro, o GabClima, criado para mapear desafios internos (como a própria pegada de carbono da instituição) e externos (como a desorganização das defesas civis municipais).

Ele descreve decisões extremas tomadas sob pressão, como a necessidade de desligar os sistemas do prédio principal do MP para evitar perda total de dados durante a inundação, e ações inéditas para a instituição, como resgatar pessoas de barco e coordenar a criação de abrigos específicos para mulheres, população LGBT, idosos e até animais.

Empatia como prática, não conceito abstrato

Saltz atribui sua capacidade de lidar com o sofrimento alheio a uma criação familiar marcada pelo acolhimento, sendo neto de imigrantes que fugiram do nazismo e do comunismo na Europa. Ele descreve práticas concretas de regulação emocional pessoal, como cozinhar, ouvir música e manter contato constante com colegas de outras regiões atingidas por desastres, como forma de sustentar a própria saúde emocional em meio à responsabilidade institucional constante.

O poder de ouvir antes de agir

Um episódio simbólico da conversa envolve um morador local em situação de extrema angústia durante a enchente, que inicialmente reagiu com raiva à presença do MP, mas se transformou em aliado da instituição após ser genuinamente ouvido. Para Saltz, essa é uma lição central de gestão de crise: dar espaço para o desabafo antes de buscar soluções técnicas costuma abrir caminho para colaboração real.

Um alerta para o presente

Ao final, Saltz destaca que, apesar da magnitude do aprendizado coletivo gerado pelas enchentes, parte da sociedade já parece ter esquecido a gravidade do episódio, mesmo diante de sinais crescentes de mudanças climáticas em curso. Ele reforça que eventos climáticos extremos deixaram de ser exceção e passaram a integrar o presente, exigindo preparo contínuo, e não apenas resposta emergencial.

Perguntas frequentes

Quem é Alexandre Saltz? É procurador-geral de Justiça do Rio Grande do Sul, com carreira iniciada no Ministério Público em 1990, referência em direito ambiental e liderança institucional durante as enchentes de 2024 no estado.

Qual foi o papel do Ministério Público durante as enchentes de 2024 no RS? O MP-RS atuou na coordenação de resgates, organização de abrigos, orientação às defesas civis municipais e fiscalização de crimes cometidos durante a crise, além de registrar a experiência para memória institucional.

Como a formação em direito ambiental ajudou na gestão da crise das enchentes? A atuação prévia em direitos difusos exigiu de Saltz uma abordagem mais dialógica e empática, em contraste com a lógica adversarial típica de áreas criminais, o que se mostrou central durante a resposta emergencial.

Onde assistir ao episódio completo? No canal da Conexão IE no YouTube, na série de podcast Carreiras IE.

Este artigo foi produzido a partir do episódio Carreiras IE, apresentado por Alessandra Gonzaga.

Assista ao episódio completo: ▶ Assista ao episódio completo no YouTube Continue a jornada: conheça a Academia IE e o livro Conectados: Competências Socioemocionais na Era do Caos.

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