junho 30, 2026
Quando o preconceito se fantasia de estatística
Um influenciador político disse recentemente que mulheres “votam estatisticamente muito mal”, especialmente as solteiras, acrescentando que mulheres casadas tenderiam a acompanhar o voto dos maridos.
A declaração terminou com uma expressão vulgar dirigida às mulheres que discordassem dele. Opto por não a reproduzir, porque ela não acrescenta qualquer argumento à discussão. Sua função parece ser apenas a de constranger, humilhar e desqualificar.
A fala merece atenção não apenas por seu conteúdo misógino, mas também porque exemplifica um fenômeno bastante comum no debate público: o uso de palavras associadas à ciência, como “estatisticamente”, para dar aparência de objetividade a uma opinião preconcebida.
Dizer que alguma coisa ocorre “estatisticamente” não transforma automaticamente uma afirmação em evidência científica. Na academia, estamos acostumados a perceber o uso inadequado de dados para tentar validar ideias e argumentos. Existe até uma expressão bastante utilizada para manipulação estatística: “torturar os dados até que eles confessem o que você deseja”. Mas nesse caso, a manipulação extrapola qualquer limite dentro do que poderíamos considerar plausível ou razoável.
“Votar mal” não é uma variável estatística
O primeiro problema da afirmação está na expressão “votar mal”. Mas o que significa, objetivamente, votar mal?
Seria votar em um candidato que posteriormente não cumpre suas promessas? Seria escolher alguém que produz resultados econômicos negativos? Seria pertencer a um determinado espectro político? Seria votar de maneira contrária aos próprios interesses? Seria demonstrar pouco conhecimento sobre as propostas apresentadas?
Cada uma dessas hipóteses exigiria critérios, indicadores e metodologias diferentes. Sem uma definição objetiva, “votar mal” não é uma categoria estatística ou variável dependente válida. É apenas um julgamento político. Na prática, a expressão frequentemente significa: votar em alguém de quem o autor da frase discorda.
Há, portanto, uma confusão entre preferência política e qualidade da decisão. Uma pessoa pode discordar profundamente do voto de outra, mas essa divergência não autoriza concluir que o outro grupo possui menor capacidade intelectual, menos discernimento ou menor autonomia.
Não existe demografia de votos se os votos são secretos
Existe uma premissa que todo mundo parece esquecer ao postular afirmações sobre preferências de mulheres e homens em relação ao voto: não é possível saber o percentual de votações femininas ou masculinas a candidatos específicos. O resultado oficial de uma eleição informa quantos votos cada candidatura recebeu, e ponto. É possível apenas estratificar a informação do número de votos por zona eleitoral e até mesmo por urna, mas paramos por aí.
O voto é secreto, e esse sigilo impede a produção de uma demografia oficial do voto. As análises dependem principalmente de pesquisas de intenção ou de voto declarado. Por isso, não existe uma base oficial que permita vincular cada voto ao gênero, ao estado civil, à renda, à escolaridade ou a qualquer outra característica pessoal do eleitor.
É possível estudar tendências por meio de pesquisas de intenção de voto, pesquisas pós-eleitorais e levantamentos de boca de urna. Essas pesquisas são instrumentos legítimos e importantes. Entretanto, trabalham com estimativas, amostras, margens de erro e níveis de confiança. Elas não revelam com absoluta precisão como cada indivíduo votou.
Também não autorizam generalizações sobre grupos inteiros, especialmente quando as amostras são divididas em subgrupos menores, como mulheres casadas, solteiras, divorciadas, viúvas, jovens, idosas, urbanas ou rurais. Quanto menor o subgrupo analisado, maior tende a ser a incerteza estatística.
Para sustentar uma afirmação tão categórica, seria necessário apresentar, no mínimo, a fonte dos dados, o tamanho da amostra, o período pesquisado, a margem de erro, o intervalo de confiança, os critérios de classificação e o indicador utilizado para determinar o que seria um voto bom ou ruim. Nada disso costuma aparecer em declarações desse tipo. A palavra “estatisticamente” funciona, nesses casos, como um verniz de autoridade.
A confusão entre correlação e causalidade
Por último, trago um incômodo final: a confusão entre correlação, causalidade e configuração de relacionamento marital. A afirmação de que “mulheres casadas tendem a acompanhar o voto dos maridos” tem tantos problemas de nexo causal quanto de estatura moral.
Imagine um casal hipotético que foi votar. Por autodeclaração, fica possível saber em quem votou a esposa e em quem votou o marido, e são o mesmo candidato. Como dizer quem seguiu quem? Ou o oposto: cada um vota em um candidato diferente. Quem deixou de convencer quem? E o que isso diz sobre preferência política ou sobre a maturidade dessa relação?
Mesmo que uma pesquisa identificasse maior semelhança eleitoral entre pessoas casadas, isso não demonstraria que a mulher segue o homem. Analisando-se populações, pode-se dizer que casais frequentemente compartilham valores, condições socioeconômicas, ambientes religiosos, círculos sociais, experiências familiares, faixas de renda e fontes de informação.
Assim, de fato existe um processo conhecido como seleção por afinidade: pessoas com valores e visões de mundo semelhantes têm maior probabilidade de formar relacionamentos.
Isso dito, a influência dentro de um casal pode ser recíproca ou, a depender das dinâmicas de cada relação, ser exatamente o oposto: do homem seguir a mulher. Mulheres constituem uma parcela central, frequentemente majoritária, dos processos de pesquisa, financiamento, compra e influência na aquisição de bens de alto valor, incluindo decisões imobiliárias, segundo levantamentos do setor.
No voto, a questão torna-se ainda mais complexa que em decisões econômicas. Tanto o marido pode influenciar a esposa quanto a esposa pode influenciar o marido, e ambos podem ser influenciados pelas mesmas redes sociais, familiares, culturais e profissionais.
Transformar uma possível correlação em uma causalidade unilateral não é uma conclusão estatística válida, mas uma interpretação baseada em um estereótipo. Trata-se de uma falácia, uma inferência causal indevida. Existem outros vieses nessa declaração, e trago alguns aqui de maneira resumida:
Variáveis omitidas: a combinação de sexo e estado civil (mulher solteira) está associada à idade, renda, religiosidade, presença de filhos, região, grau de urbanização e tantas outras variáveis omitidas. Não é possível atribuir um comportamento a uma única variável e desconsiderar tantas outras associadas.
Falácia ecológica: erro lógico e estatístico que ocorre quando tiramos conclusões sobre indivíduos com base em dados de um grupo ou população inteira. Mesmo que uma pesquisa identificasse determinada tendência média em um grupo de mulheres, não seria correto concluir que todas as mulheres daquele grupo agem da mesma maneira.
Viés de confirmação: leva uma pessoa a selecionar exemplos que reforçam suas crenças e a ignorar evidências contrárias. A análise é conduzida não pela busca de uma conclusão, mas pela defesa de uma posição já escolhida.
Também se percebe o excesso de confiança. A segurança da linguagem utilizada é muito superior à qualidade da evidência apresentada. Quanto mais categórica a afirmação, maior deveria ser a robustez metodológica que a sustenta. O que ocorre, porém, é o contrário: uma conclusão absoluta é apresentada sem fonte, critérios ou demonstração.
A contradição entre liberdade e autonomia feminina
Há uma contradição importante em discursos que afirmam defender a liberdade individual, mas questionam a legitimidade das escolhas feitas por mulheres quando essas escolhas não coincidem com as expectativas de determinados grupos.
A liberdade não pode ser defendida apenas quando as pessoas escolhem aquilo que consideramos correto. Respeitar a liberdade política significa reconhecer a autonomia do outro, inclusive quando ele decide de maneira diferente de nós.
Quando uma mulher vota conforme a preferência de determinado comentarista, sua escolha pode ser considerada legítima. Quando vota de outra maneira, sua capacidade passa a ser questionada. É uma tentativa de condicionar a legitimidade da mulher à sua concordância com uma determinada visão política.
Liderança, inteligência emocional e qualidade das decisões
O problema da declaração do influenciador, portanto, não está apenas em sua vulgaridade ou em sua evidente generalização. Está na tentativa de utilizar a linguagem da ciência para legitimar um preconceito.
Estatística exige definição, dados, método, transparência e reconhecimento da incerteza. Não basta acrescentar a palavra “estatisticamente” a uma opinião para que ela se transforme em conhecimento.
Da mesma forma, defender a liberdade exige reconhecer a autonomia das pessoas, inclusive quando elas fazem escolhas diferentes das nossas. Uma liberdade condicionada à concordância não é liberdade. É apenas tolerância seletiva.
Na Conexão IE, acreditamos que desenvolver mulheres e lideranças significa ampliar autonomia, consciência, capacidade de expressão e legitimidade para participar das decisões. Na MACRO Engenharia de Decisão, defendemos que boas decisões dependem de evidências, diálogo, pluralidade e disposição para confrontar os próprios vieses.
Esses dois compromissos se encontram aqui. Não há inteligência emocional quando a discordância é respondida com humilhação. Não há pensamento crítico quando o preconceito é apresentado como evidência. E não há inteligência coletiva quando parte da sociedade precisa ter sua autonomia negada para que uma narrativa permaneça de pé.
Mulheres não precisam votar como seus maridos, como influenciadores ou como qualquer outro grupo espera. Precisam apenas ter reconhecido aquilo que nunca deveria ser colocado em dúvida: o direito e a capacidade de pensar, decidir e responder por suas próprias escolhas.
Este artigo foi originalmente publicado no LinkedIn por Marcelo do Carmo Rodrigues, MSc e MA, cofundador da Conexão IE.
Leia o artigo original: https://www.linkedin.com/pulse/quando-o-preconceito-se-fantasia-de-estat%C3%ADstica-marcelo-vmfif/?trackingId=tz3jUtcKSeCs%2BAp6LjNzUQ%3D%3D Continue a jornada: conheça a MACRO Engenharia de Decisão e a Academia IE.
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