maio 25, 2026

Não somos máquinas

Ao contrário do que possa parecer, não é falta de ideias que atrasa um artigo como este. É o excesso delas. Ou talvez alguns filtros morais e éticos que me obrigo a ter. Então já adianto que este texto, isento de IA, traz quatro movimentos mentais da produção. Mas cada camada revela uma parte que, ao final, deve trazer algum sentido.

O primeiro movimento: títulos que este artigo chegou a ter

A banalização da mentira

O TikTok chegou no LinkedIn

Os narcisos agora usam IA

Esse movimento é curto mesmo. Quase como um suspiro. Um cansaço desse excesso de performance controlada, de perceber que minha rede social preferida agora é um caça-cliques como qualquer outra. Que estamos vivendo o fim da era em que pessoas liam textos longos em benefício de uma reflexão pessoal; agora o mais importante é achar a “fórmula” para engajamento e alavancagem digital. Para quê mesmo, ninguém sabe. E com a chegada das IAs nas produções de texto, tudo está parecendo exatamente igual. Como aqueles pratos de comida que têm como base o mesmo molho de mercado. Dessa vez com muitos emojis, muita estrutura do que não é para o que é. Muita construção de raciocínio travada por uma pretensa erudição. Socorro.

O segundo movimento: a estrada de tijolos dourados

Uma música de Elton John ficou martelando em minha cabeça em um desses dias. Minha filha está aprendendo piano e me pediu indicações; essa veio a partir de um livro de coletâneas de Elton, eternizada na versão de Sara Bareilles. Confio demais nessas alucinações musicais espontâneas, elas trazem mensagens belíssimas. O trecho que mais repete em minha mente:

“When are you gonna come down? When are you going to land? I should have stayed on the farm, I should have listened to my old man. You know you can’t hold me forever, I didn’t sign up with you. I’m not a present for your friends to open. This boy’s too young to be singing the blues. So goodbye yellow brick road, where the dogs of society howl… Oh, I’ve finally decided my future lies beyond the yellow brick road.”

Essa é uma das músicas de Elton mais difíceis de traduzir. Os críticos dizem que tem a ver com o momento que o músico vivia quando atingiu fama mundial. Ele era apenas um garoto diferentão e muito talentoso que estava em todas as paradas de sucesso. E estava cansado disso, enjoado da “estrada de tijolos dourados”, na qual latiam os cachorrões da sociedade, demandando o que precisava ser feito ou dito.

Numa leitura mais profunda, com base analítica, gosto particularmente do começo da música: “quando você vai descer? Quando você vai aterrissar?”. Isso me leva ao terceiro movimento.

Presença digital e a mania coletiva

Tenho todo o espectro humano como cliente de análise executiva. Gosto particularmente desse trabalho porque revela verdades ocultas, traz percepções da realidade totalmente descoladas do teatro corporativo. Ali analisamos as situações que trazem insegurança e ansiedade, os dilemas que perturbam o sono, os relacionamentos estratégicos para promover mudança cultural, os passos no caminho de carreira que contribuíram e ainda contribuem para o profissional ser quem é.

Faço essa ressalva porque parece que nas redes sociais ninguém tem problema. Ninguém está com o coração na boca por causa da política nacional. Ninguém se preocupa até perder o fôlego com uma recessão em algum setor da economia. Ninguém precisa bater meta. Ninguém está endividado até o pescoço. Sim, dá vontade de dizer: “Desce daí! Aterriza, olha para teus números e resultados. Olha para as pessoas adoecendo ao teu redor!”

Nas redes sociais são todos estrelas, todos vivem a vida dos sonhos. Todos têm tempo de ver “a galinha atravessando a rua”, como costumo dizer. Ninguém sofre ou sofreu algum dia de burnout. Saúde mental pode caber todinha em uma planilha de riscos e ações de mitigação, junto com a cadeira que precisa de mais estofamento para ficar ok. Porque nas redes, agora também no TikTok, todos vivem em estado de mania: tudo é possível, basta acreditar. Tudo é solucionável, basta explicar em bullets. Tudo é lindo, basta clicar. Tudo é perfeito, basta passar o texto pela IA e limpar as incongruências.

Rotinas caóticas se transformam em frameworks lindos, prontos a serem usados. Relações tóxicas precisam só de sete passos para serem curadas. Crises de negócio estão resolvidas com a nova linha de crédito, acessível a todos. Sim, estou irritantemente irônica. E isso me leva ao último movimento.

Soberania cognitiva

Esse tema surgiu por encomenda de um cliente, numa jornada de Liderança para o Futuro. No portfólio de cursos, trazemos temas que cercam a inteligência emocional na era da IA, ou seja, como vamos interagir com as ofertas de simplificação digital de nossas vidas. Tem sido um mergulho e tanto.

No mar de possibilidades está o entendimento de que nossa comunicação precisa trazer verdade. Precisamos ser honestos, primeiro conosco mesmos, para extrairmos alguma autenticidade e confiança em nossas trocas. Isso já foi tema de outros artigos meus, como O peso de cada curtida, Minha amiga GPT e O cinismo emocionalmente inteligente. Então não, não adianta deixar a mensagem fofinha no e-mail ou no WhatsApp. Não adianta publicar textão no feed totalmente editado pelo chat mostrando o quão engajado se é em alguma causa. Não adianta perguntar para a IA tudo que vai dizer, como vai dizer. Porque isso, no curto prazo, evita sim algum conflito. Até que, no final das contas, isso evita e polui toda a espontaneidade. Toda a beleza da troca humana. Tudo que nos faz estranhos e complementares.

E pronto, era isso. Não vou fechar com chave de ouro nem trazer um novo produto convidando para a estrada de tijolos dourados. Este artigo é só esse grande desabafo em quatro tempos, em defesa do afeto sincero e da coragem de ser imperfeito. Escrito longe da internet. É um apelo para que voltemos a ter trocas genuínas. Porque tanta automatização está acabando com o melhor de nossa inteligência humana.

Este artigo foi originalmente publicado no LinkedIn por Alessandra Gonzaga, Ph.D., cofundadora da Conexão IE.

Leia o artigo original: https://www.linkedin.com/pulse/n%C3%A3o-somos-m%C3%A1quinas-alessandra-gonzaga-ph-d–omlcf/ Continue a jornada: conheça a Academia IE e o livro Conectados: Competências Socioemocionais na Era do Caos.

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