abril 1, 2026
A verdade emocionalmente inteligente
Este é um artigo para falar de mentira e, sem querer, acabou se tornando uma busca por entender a verdade: como ela é parte de nós e de nossos relacionamentos. Como estamos famintos por trocar percepções e sermos verdadeiros, fiéis à própria essência, ainda que não tenhamos clareza da “verdade” sobre o que nos cerca, essa verdade assim única, singular. Vamos falar sobre isso. Mas tudo começa com o 1º de abril.
Fiquei impressionada com a origem desse dia. O Dia da Mentira surgiu na França, no século XVI, após o rei Carlos IX adotar o calendário gregoriano, mudando o Ano Novo de abril para 1º de janeiro. Quem resistiu ou esqueceu a mudança e continuou celebrando em abril virou alvo de deboche, recebendo apelidos como “bobos de abril”. E em pouco tempo começaram a receber convites falsos para festas, participando de “pegadinhas” por serem assim tão insolentes.
Se entendi bem, foi assim: o rei trocou o ano que iniciava em março para os romanos, em homenagem ao deus da Guerra Marte, permitindo campanhas militares após o inverno europeu. E fazia sentido setembro ser o sétimo mês, outubro o oitavo e daí por diante. Do outro lado do planeta, em pleno hemisfério sul, dizemos por aqui que o ano começa depois das férias de verão e do carnaval. Não é raro ouvir de clientes que novos projetos só se iniciam depois desse período. Então, feliz ano novo, sempre que ele decidir começar de fato!
Mas voltemos à corte francesa. Trocando em miúdos a provocação do rei para sua corte: bobos eram os que continuavam acreditando nas “mentiras” de séculos, em que os anos começavam quando as estações permitiam o trabalho. Bobos eram aqueles imprudentes o suficiente para não se curvar às regras impostas pelos governantes, ou para acreditar que podiam não se curvar.
No entanto, já havia na época um bobo a quem era permitido dizer a verdade, quem sabe brincadeiras e pequenas maldades, geralmente de forma jocosa, engraçada, no mínimo divertida: o bobo da corte. E esse personagem mexe comigo, por vários motivos. Por horas, acho ele um arquétipo fenomenal, daquele que “vê o teatro de fora” e diz tudo que ninguém mais ousa dizer. Um louco, um corajoso, um visionário! Por outra, me parece um pobre infeliz que precisa divertir os nobres, sabendo que se alguém deixasse de achá-lo engraçado, as consequências seriam duras e imediatas.
Quem é o bobo agora?
E agora, quem ousa dizer a verdade? Qual verdade merece e precisa ser dita? Qual verdade é bondade e qual mentira é crueldade? Será que existem verdades que são julgamentos? E mentiras, será que algumas são atos de compaixão, como não dizer o óbvio a alguém que nada pode fazer a respeito de sua condição, ou que simplesmente não pediu nossa opinião? Nada fácil separar isso. E assim andamos, assustados demais para ousarmos nos posicionar, confusos em torno das regras da corte. Confusos em torno do nosso papel, no teatro da vida, das corporações, da sociedade.
Acompanhamos com apreensão discussões sobre leis que podem tolher a liberdade de expressão e trazer punições extremadas sobre aqueles que manifestam posições contrárias ou que possam ser percebidas como ofensa. Muita coisa é rotulada como discurso de ódio. Algumas coisas de fato são. Outras tantas são apenas desculpa para posicionamento em um espectro político. E sobre verdade ou mentira, muito pouco há para se dialogar. Porque ninguém quer ouvir nada mesmo.
Então, quando a verdade não encontra lugar, ela se desloca para as bordas da fala: na ironia, no deboche, no comentário atravessado. Torna-se o riso cheio de raiva, a frustração que revira os olhos, o desejo de influência que vira comentário maldoso… e nessa arena das vaidades não existem ataques “de frente”. Costumo dizer em aula que a ironia e o deboche são formas socialmente aceitas de agressão. Protegem quem fala porque não sustentam a responsabilidade pela própria construção de palavras.
Então fiquemos quietos, para que se incomodar, não é mesmo?
Pois é, a tentação é grande. Mas evitar o posicionamento também traz incômodo. Porque se não há troca, não há construção, não há o lugar do outro em mim ou parte de mim no outro. Nesse mundo (in)seguro em que nada manifesto, só me cerco daqueles que concordam com todas as minhas “verdades”, que podem ser tão somente percepções da realidade. Se não corro o risco de me expor, como vou ter uma ampla visão do que me cerca? Como vou me oxigenar com o novo, o diferente, o inusitado? Como vou ser surpreendida com alguém que me convence a mudar de ideia?
A verdade que conhecemos não desaparece quando é silenciada. Ela se desloca. Vai para o corpo, para o cansaço, para a sensação de isolamento. Não por acaso, a pesquisa Stress in America: A Crisis of Connection, da American Psychological Association, aponta para um aumento significativo da desconexão emocional, mesmo em ambientes onde há convivência constante. Quando deixamos de sustentar o que é verdadeiro para nós, rompemos um vínculo essencial: o da conexão autêntica com o outro.
Esse estudo mostra que pessoas com altos níveis de solidão apresentam mais doenças crônicas, como depressão, ansiedade e dor persistente. Além disso, a maior parte dos indivíduos afetados por divisões sociais relatou sintomas físicos de estresse, como fadiga, dores de cabeça e sensação constante de ansiedade. Ou seja: a desconexão não é apenas emocional. Ela também é física.
Nos ambientes corporativos, existem formas criativas de manipular ou navegar por verdades. Entre um erro e outro de processo aparecem as “verdades necessárias”, que sustentam o trabalho e surgem com mais facilidade quando ligadas a aspectos técnicos ou operacionais. Na negociação por recursos e na vaidade dos gestores aparecem as “verdades convenientes”, que mantêm a aparência, protegem aliados e evitam atritos, alimentando um funcionamento protocolar nas trocas e comunicados. Submersas a tudo isso ficam as “verdades confidenciais”, aquelas que não são ditas, muitas vezes nem plenamente elaboradas, mas são profundamente sentidas e compartilhadas entre as pessoas. Aparecem nas trocas de olhares cúmplices diante de um deslize visto, porém impossível de ser comunicado: porque veio do chefe, porque é sexta final do dia, porque não há nada a fazer a respeito.
O teatro corporativo
E sim, entre as verdades confidenciais se formam enormes estruturas teatralizadas. Você finge que fala, eu finjo que escuto. Você finge que se importa, eu finjo que preciso. E assim as pessoas seguem, quando não encontram saída.
Às vezes isso vira meio comédia, especialmente quando há lastro em outras relações verdadeiras e virtuosas. Vale aqui uma ampliação de perspectiva: essa é a base da série Na Mira do Júri – O Retiro Corporativo, um reality em que um único participante real é inserido em um ambiente completamente encenado, cercado por atores que sustentam uma realidade fictícia.
A série é uma espécie de “Show de Truman” das organizações. O mais interessante não é a atuação em si dos atores, mas o quanto aquela realidade, por mais louca que seja, se mantém de pé. Enquanto isso, o participante real é o bobo que todos nós podíamos ser.
E tem também o sincericídio
Talvez já tenha passado pela sua timeline um post em que um funcionário, durante um treinamento promovido pela empresa, aproveita para botar a boca no trombone e dizer que, apesar de ser grato pela oportunidade de aprendizado, não se conforma mais com a falta de respeito do chefe no planejamento das folgas e nas escalas de plantão. Na esteira dele vieram diversas outras queixas, constrangendo toda a corte, ou melhor, a equipe envolvida (inclusive o pobre instrutor). As queixas se enfileiraram: limpeza dos banheiros, qualidade da água oferecida nos bebedouros, insetos passeando no refeitório e uma série de outras barbaridades. As verdades que estavam empilhadas por meses, quem sabe anos, para serem ditas. Já vi isso acontecer em treinamentos meus. A saída teria sido usar a catarse coletiva como material para o desenvolvimento do grupo.
Mas quem pode julgar essa pessoa? Quem nunca teve vontade de apontar a incongruência entre discurso e prática, em sua equipe ou organização? Mesmo nos ambientes mais humanizados, ainda há inúmeros exemplos de reuniões que poderiam ser um e-mail, processos que ninguém acredita e finge seguir, no limite da conformidade, e conversas que evitam o essencial. Por todo lugar, líderes narcisistas esquecem que as pessoas têm agenda. Colegas trazem mentiras para justificar atrasos. E nós também, num dia em que estamos cansados, mentimos ter a casa para limpar ou a tia para visitar, quando bem sabemos que só vamos dormir.
Quando não encontram espaço direto, as verdades necessárias podem escorrer para o sincericídio. É então que as mentiras convenientes mantêm a cena em funcionamento.
Desconexão social e adoecimento
Mas as mentiras cobram seu preço. Porque promovem desconexão, desalinhamento e isolamento. Relatórios como Social Connection and Loneliness in OECD Countries, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, mostram que a desconexão social tem crescido mesmo em ambientes de alta interação.
Segundo o estudo, a quantidade e a qualidade das conexões sociais são determinantes para o bem-estar individual e coletivo, uma vez que a solidão está associada a maior risco de doenças físicas e mentais, pior desempenho no trabalho e até mortalidade prematura.
Por outro lado, relações de apoio estão diretamente ligadas à saúde, à criatividade e à satisfação no trabalho. Não por acaso, o isolamento social já é tratado como prioridade de saúde pública em diversos países. As iniciativas mais eficazes não focam apenas no indivíduo, mas na criação de ambientes, físicos e sociais, que favoreçam conexões reais: espaços de encontro, trocas significativas e relações de confiança.
Muitas vezes, é mais conveniente não se expor do que interromper a cena. Mas lá no fundo sabemos: quando a forma se distancia demais da realidade vivida, o custo aparece: frustração, desmotivação, desengajamento. Porque mesmo quando a mente justifica, o corpo sente.
Porque a conexão não se estabelece pela proximidade física ou pelas conversas convenientes, ainda que com mentirinhas inocentes. Só nos conectamos quando podemos existir com verdade na presença do outro. Por isso, quando a verdade não circula, a conexão se rompe, ainda que tudo, aparentemente, continue funcionando.
A verdade emocionalmente inteligente
Existe, sim, um caminho do meio. Um lugar em que podemos existir de forma verdadeira e conseguir navegar nas ilusões ou conveniências do teatro corporativo. Por ser mais humano, esse lugar também exige bastante de nós. Em primeiro lugar, exige que sejamos verdadeiros com nós mesmos, porque mentir para si mesmo é sempre a pior mentira.
Diferentes competências de inteligência emocional nos convidam a sustentar a verdade sem disfarces, sem agressão. Algumas delas abordamos no livro Conectados, e podem servir como recursos quando fica difícil desempatar o que é meu e o que é do outro, o que preciso resguardar (em mim) e o que preciso expressar (pelo outro, por nós). Nesse lugar de equilíbrio de trocas pode surgir a sociabilidade, para que possamos reconhecer o momento do outro, o contexto da troca. Também a compaixão, que considera a necessidade e o lugar do outro, assim como nosso papel em contribuir com seu desenvolvimento ou bem-estar. E a integridade, que alinha valores pessoais ao sentir, pensar e agir. E desse encontro de sociabilidade, compaixão e integridade pode ser exercida a assertividade: essa capacidade de dizer o que precisa ser dito, com clareza, respeito e responsabilidade pelo impacto de nossas palavras.
A grande mentira não está no que podemos dizer no dia 1º de abril, mas na ideia de que somos seres que preferem não dizer a verdade. Mais do que necessária ou conveniente, a verdade é aquilo que sustenta a conexão entre as pessoas. E, no fim, é isso que buscamos nas organizações e na vida.
Este artigo foi originalmente publicado no LinkedIn por Alessandra Gonzaga, Ph.D., cofundadora da Conexão IE.
Leia o artigo original: https://www.linkedin.com/pulse/grande-mentira-alessandra-gonzaga-ph-d–g6uxf/?trackingId=NG48WLa0SaitQZaEd5ZDkg%3D%3D Continue a jornada: conheça a Academia IE e o livro Conectados: Competências Socioemocionais na Era do Caos.
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