março 20, 2026

A sua estratégia sobreviveria a um meteoro?

Nas idas e vindas por catálogos de streaming, me detive num documentário sobre dinossauros, produzido por Steven Spielberg. Uma das ideias mais interessantes da série é que, diferente do que muita gente acredita, não houve apenas um único evento responsável pela extinção dos dinossauros.

O que houve foi algo mais complexo e mais relevante para nós hoje: uma sequência de transformações ambientais profundas, ao longo de milhões de anos.

A extinção do Permiano, há cerca de 252 milhões de anos, eliminou mais de 90% das espécies e abriu espaço para novos grupos, incluindo os ancestrais dos dinossauros. No Triássico, variações climáticas extremas, fragmentação da Pangeia e intensa atividade vulcânica pressionaram ecossistemas inteiros. Na transição Triássico-Jurássico, novos eventos de extinção reorganizaram a vida na Terra. Ao longo do Jurássico e do Cretáceo, mudanças no clima, no nível do mar e na configuração dos continentes continuaram redesenhando o ambiente. Até que, 66 milhões de anos atrás, o impacto de um asteroide marcou o fim dos dinossauros não avianos.

Mais do que sobrevivência, estratégia

A série deixa claro um ponto que muitas vezes passa despercebido: os maiores desafios não vinham apenas das cadeias alimentares, mas do próprio ambiente, em função das transformações do planeta. Diante disso, os dinossauros adotaram estratégias distintas.

De um lado, os grandes herbívoros. Sua resposta foi o crescimento extremo. Alguns ultrapassavam 30 metros de comprimento. Sua defesa era baseada em escala, tamanho, massa e vida em grupo. Seus cérebros eram proporcionalmente pequenos, porque sua estratégia exigia menos decisões complexas. A lógica era simples: tornar-se grande o suficiente para não ser atacado.

De outro lado, os carnívoros. Menores, mais ágeis, com maior capacidade sensorial e coordenação. Dependiam de decisões rápidas, precisão e adaptação. A lógica aqui era outra: tornar-se eficiente o suficiente para capturar e sobreviver.

Durante muito tempo, ambas as estratégias funcionaram. Mas há um detalhe importante: estratégias baseadas em escala funcionam bem em ambientes relativamente estáveis; estratégias baseadas em adaptação ganham relevância quando o ambiente se torna instável.

Se o ambiente muda, a estratégia precisa mudar. E esse é exatamente o ponto em que estamos hoje.

Estamos vivendo uma sobreposição de mudanças

Passei um período recente revisando estratégias comerciais, buscando diferenciação e geração de valor. Mas assistir à série trouxe uma constatação incômoda: a de que estamos vivendo um momento em que múltiplas pressões estão acontecendo ao mesmo tempo.

Se você trabalha em uma grande empresa, provavelmente já está sentindo: a atualização de sistemas ERP sendo implementada sob pressão; reformas tributárias redesenhando margens; a inteligência artificial sendo incorporada sem clareza plena de impacto; mudanças nas regras do mercado externo; e aumento da rotatividade em todos os níveis.

Se você atua na cadeia de consumo, a pressão é ainda maior. O consumo está comprimido, com uma parcela muito significativa das famílias brasileiras endividadas, e somam-se a isso a volatilidade dos combustíveis, o risco inflacionário, a pressão fiscal do governo e o ruído institucional em períodos de instabilidade política.

O risco mais relevante é cognitivo

Diante de cenários complexos, a tendência é fazer mais do mesmo, em nossa zona de conforto. Como dinossauros, recorremos a respostas conhecidas. Mas quando o ambiente muda de forma estrutural, respostas antigas deixam de funcionar.

E isso exige um tipo diferente de liderança, baseada em clareza, em habilidade de questionar padrões e coragem para fazer perguntas melhores:

Onde estamos expostos e não queremos ver?

Quais são nossos pontos cegos?

Quais decisões estamos tomando por hábito?

O que parece eficiência hoje, mas pode se tornar fragilidade?

Onde estamos reagindo, em vez de decidir?

Trabalho com desenvolvimento e vejo que organizações e empreendedores ainda tentam preparar suas lideranças como se o ambiente fosse previsível.

Vejo serem exaltadas a participação em longos programas genéricos, que irão fornecer às futuras lideranças um enxoval de ferramentas de gestão como se fazia décadas atrás. Isso não desenvolve líderes. Pode criar uma sensação de preparo, mas na prática só aumenta a ansiedade de quem participa.

Você acha que, se existisse um “Programa de Liderança Jurássica Avançada”, com doze módulos, quatro frameworks e um e-book complementar, os dinossauros estariam mais preparados? Só que não, porque no fim, o problema nunca foi falta de conteúdo, e sim capacidade de decidir sob pressão.

O meteoro está chegando

Se olharmos para a história, o meteoro foi apenas o momento em que a adaptação deixou de ser suficiente. Precisamos voltar a praticar habilidades de redefinir critérios de decisão, leitura de contexto, capacidade de priorização e maturidade para lidar com trade-offs.

O que quebra organizações é a incapacidade de decidir bem quando o ambiente muda e continua mudando. O meteoro está chegando, e ele não vai perguntar sobre os cursos que você fez: vai testar como você decide.

Este artigo foi originalmente publicado no LinkedIn por Marcelo do Carmo Rodrigues, MSc e MA, cofundador da Conexão IE.

Leia o artigo original: https://www.linkedin.com/pulse/sua-estrat%C3%A9gia-sobreviveria-um-meteoro-do-carmo-rodrigues-msc-e-ma-wg4wf/ Continue a jornada: conheça a MACRO e as soluções de arquitetura de decisão da Conexão IE.

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