fevereiro 24, 2026

Qual é a cor de tua carteira?

O que acontece em nossa realidade interior quando começamos a medir nosso valor pessoal apenas pelo que produzimos ou possuímos?

Escrevi uma história sobre isso. Ela integra meu livro O que cabe na sua bolsa? Mulheres e seus símbolos.

A bolsa de que falo não é apenas um acessório. Ela é imagem da vida interior. É nela que guardamos documentos e remédios, mas também expectativas, medos e pequenas garantias contra o imprevisto. E, sem perceber, acumulamos o que já não serve mais.

No livro, cada objeto da bolsa ganha uma cor, que fala sobre uma aspiração feminina. Entre um símbolo e outro são desvendadas as transições da vida interior, o que acontece enquanto o mundo muda ao nosso redor. Assim, as cores da jornada do livro revelam movimentos emocionais femininos na busca por valor pessoal, aceitação, pertencimento, vitalidade, leveza, verdade, autenticidade e a integração que promove sentido.

A primeira cena de aeroporto e o primeiro objeto revelado pertence à Rúbia, personagem que carrega o peso emocional do medo da escassez e luta pela sobrevivência, que reproduzo a seguir.

Carteira vermelha

Desembarque no Portão 32. Já não chega o atraso do voo pela turbulência, ainda vai ter que caminhar um monte. Que tempo louco para viajar de avião.

Rúbia olha o celular de novo. Saldo da conta. Fecha o aplicativo. Abre de novo. Não mudou. Ela faz uma conta mental rápida. Aluguel já foi. Cartão vence dia 18. O voo é a trabalho, mas o reembolso sempre demora. E se atrasar? E se esse mês vier corte? Estão falando de demissão desde segunda-feira.

Esperando a bagagem. Ela cruza e descruza as pernas. Finalmente, depois de trinta e cinco minutos do pouso, consegue retirar sua mala da esteira. A barriga ronca. Não dá para pegar o Uber sem comer. O voo foi longo. Ela vai chegar direto para reunião. Não pode desmaiar na frente do cliente. Mas olha os preços: quarenta e oito reais um sanduíche e doze reais uma água.

É um assalto. Mas o que eu faço? Fico com fome? Economizo quarenta reais e chego na reunião tremendo e com dor de cabeça?

Ela tenta racionalizar. Alimentação é investimento. Energia é produtividade. Produtividade mantém emprego. Emprego paga contas. Contas mantêm casa. Casa mantém dignidade. Enquanto espera o pedido, olha ao redor. Pessoas pedindo vinho às dez da manhã. Crianças com combos gigantes. Executivos pagando no crédito sem olhar a maquininha. Como conseguem não olhar?

O sanduíche chega. Ela morde. Mastiga. Não sente gosto. Só faz contas. Quarenta e oito reais. Quarenta e oito reais são quase uma parcela. Ela fecha os olhos um segundo. Só um segundo. Para de pensar.

Quando vai pagar, abre a bolsa e encontra a carteira. Vermelha. Vermelha demais. Ela lembra do dia em que comprou. A vendedora disse que vermelho atrai prosperidade. Cor da abundância. Cor do poder. Pingente dourado com “cara da riqueza” acima do fecho. Ela tinha acabado de receber o bônus anual. Sentiu que merecia. Sentiu que precisava de um símbolo novo. Algo que dissesse: agora vai.

Parcelou em dez vezes. Dez vezes. A ironia é quase elegante. A carteira que traria dinheiro virou prestação fixa. Uma das parcelas vale mais que o sanduíche que ela está pagando agora. Ela passa o cartão. Enquanto a maquininha processa, ela pensa: eu comprei confiança, não comprei couro. Ela achou que a cor vermelha resolveria a insegurança. Que uma coisa bonita organizaria a sensação de descontrole. Que segurar algo luxuoso faria ela se sentir menos vulnerável.

Mas o medo continua ali. Na boca do estômago. Mais caro que o sanduíche. Você já tem vinte e nove anos, Rúbia, precisa criar juízo! O cartão aprova. Ela guarda a carteira vermelha de volta na bolsa. Talvez o problema nunca tenha sido dinheiro. Talvez seja essa sensação de que tudo pode acabar a qualquer momento. O emprego. O bônus. A estabilidade. A narrativa de que ela “está dando certo”. Ela respira fundo. Eu preciso aprender a me sustentar sem símbolos.

Lá fora a chuva aperta. Ela pega a bolsa, ajusta o blazer e aguarda o Uber chegar. Mais cinco minutos. A carteira vermelha pesa mais do que deveria. Mas, pela primeira vez, ela percebe que o peso não está no couro. Está na expectativa de que alguma coisa externa garanta o que só ela pode construir por dentro. E isso, infelizmente, não se parcela.

Como medimos nosso valor pessoal?

A história da carteira vermelha não é sobre dinheiro ou a cor desse objeto, mas sobre a tentativa de comprar segurança interna com garantias externas. A pergunta mais difícil não é quanto produzimos ou possuímos, e sim como medimos nossa relevância a partir disso.

Quantas decisões tomamos com medo da escassez? Quantas expressões de nós mesmos são, na verdade, tentativas de comprar confiança? Quantas vezes confundimos estabilidade com identidade? Rúbia precisa separar dinheiro e status de valor pessoal.

O que cabe na sua bolsa? é um livro sobre esses pesos invisíveis que carregamos enquanto construímos carreira, identidade e propósito.

Se essa história te atravessou, talvez ela já esteja falando de algo que você também carrega.

Este artigo foi originalmente publicado no LinkedIn por Alessandra Gonzaga, Ph.D., cofundadora da Conexão IE.

Leia o artigo original: https://www.linkedin.com/pulse/qual-%25C3%25A9-cor-de-tua-carteira-alessandra-gonzaga-ph-d–ju63f/?trackingId=NG48WLa0SaitQZaEd5ZDkg%3D%3D Continue a jornada: conheça a Academia IE e o livro O que cabe na sua bolsa? Mulheres e seus símbolos, disponível na Amazon.

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