janeiro 6, 2026
A era da alienação autoinduzida
Costumo dizer em meus cursos de Inteligência Emocional que uma das maiores provas de alto quociente emocional (QE) é conseguir conviver, ainda que à distância, com pessoas das quais discordamos profundamente. Seja no círculo pessoal, profissional ou nas redes sociais, a homogeneidade absoluta de opiniões costuma ser um sinal claro de estar vivendo dentro de uma bolha informacional e cognitiva. Em geral, seguimos, curtimos e validamos apenas quem reforça aquilo que acreditamos. Em tempos de ampla polarização de versões, a discordância passa a ser vista como ameaça, não como parte natural da vida em sociedade.
Nos últimos anos, as palavras deixaram de ser apenas ferramentas de comunicação e passaram a funcionar como marcadores de pertencimento ideológico. Elas segregam. Classificam. Definem lados antes mesmo de qualquer argumento ser escutado. Basta observar debates internacionais envolvendo crises políticas contestadas. Termos como “soberania” ou “direito internacional” imediatamente situam quem fala em um espectro específico. Do outro lado, palavras como “ditador”, “libertação do povo” ou “transição democrática com apoio externo” abrem caminho para o espectro oposto. Caindo num desses conjuntos de palavras, a conversa termina antes de começar.
Falo isso também a partir da minha própria experiência acadêmica. Pesquisando sobre transições de carreira de mulheres, precisei evitar deliberadamente o uso da palavra “gênero” em toda a minha tese de doutorado. Não porque o conceito fosse irrelevante, mas porque ele, por si só, já me colocaria em um campo ideológico específico. A partir dali, pouco importaria a qualidade dos dados, o rigor metodológico ou os achados dos estudos. O rótulo falaria mais alto que o conteúdo.
Historicamente, o que nos trouxe até aqui como sociedade foi justamente a capacidade de suportar a tensão entre visões amplamente antagônicas, posicionando-nos sem desumanizar o outro. Sempre que a intolerância vence o diálogo, o que ocorre não é apenas um conflito de ideias, é a ruptura de grupos sociais, e em larga escala, da própria sociedade. A intolerância quebra pontes. O diálogo, ainda que difícil, as constrói.
Líderes estão ainda mais cansados
Quando trazemos esse cenário para dentro das organizações, o desgaste se torna ainda mais evidente. Em períodos de intensificação do debate político, o cansaço emocional cresce rapidamente. Pesquisas mostram que o brasileiro tem demonstrado fadiga crescente em relação ao debate político, percebido como raso, polarizado e pouco construtivo. Palavras viraram combustível para conflitos latentes. As pessoas se sentem obrigadas a “pisar em ovos”, com medo constante de serem mal interpretadas. O resultado? Hipocrisia relacional, trocas artificiais e silêncio estratégico. Não se fala para não se expor. Não se compartilha para não ser rotulado. Não se associa para não ser excluído.
O ambiente de polarização cultural ou política é tóxico para qualquer organização que dependa de confiança, engajamento, colaboração e responsabilidade compartilhada. Não há competência socioemocional que sobreviva a relações baseadas no medo e na dissimulação.
Ao mesmo tempo, a ausência total de posicionamento também cobra seu preço. Não se posicionar pode gerar ainda mais desconfiança, algo que vemos claramente em cenários políticos diversos, onde líderes são criticados simultaneamente por aliados e opositores justamente por evitarem uma posição clara. O silêncio, muitas vezes, é interpretado como conveniência, omissão ou falta de coragem.
Talvez o caminho esteja em aprender a se posicionar sem agredir. Em falar a partir do que se acredita, sem reduzir o outro a um inimigo moral. Em reconhecer que fatos precisam preceder discursos, ainda que hoje esteja cada vez mais difícil distinguir fatos de interpretações, opiniões e narrativas interessadas.
Literacia midiática como diferencial civilizatório
Aqui vale trazer um ponto importante para além da polarização: a educação para a literacia midiática e informacional. Em um mundo de conteúdos ultrarrápidos e algoritmos que amplificam emoções, saber identificar notícias falsas, opinar com base em dados e questionar fontes é um diferencial civilizatório. Um exemplo interessante vem de uma escola nos Estados Unidos, onde uma professora ensina jovens do ensino médio a diferenciar notícias de posts de entretenimento digital, ao estilo TikTok e Instagram (Edutopia). Nunca pensei que uma aula assim, dirigida a adolescentes, fosse tão necessária a adultos, inclusive líderes organizacionais.
Esse desafio se torna ainda mais complexo com o avanço acelerado de tecnologias capazes de forjar falas, imagens e vídeos com alto grau de realismo. Os chamados deepfakes já vêm sendo utilizados tanto para golpes quanto para manipulação política e ampliação de bolhas ideológicas, tornando cada vez mais difícil distinguir o que é evidência, encenação ou fabricação deliberada da realidade (Siwei Lyu, The Conversation).
“À medida que esses recursos (deepfake) amadurecem, a diferença perceptiva entre mídia sintética e autêntica continuará a diminuir. A linha de defesa significativa se afastará do julgamento humano.” — Siwei Lyu
Podemos transformar a reflexão sobre a veracidade e aplicabilidade das informações em um hábito cotidiano. Sempre que consumimos um conteúdo, vale perguntar: isso que estou lendo foi produzido a partir de qual lente de percepção da realidade? Trata-se de uma interpretação de um fato? É puramente uma opinião? Está alinhado a algum posicionamento político ou ideológico específico? O que eu penso a respeito? Quem concordaria comigo, e quem discordaria?
O que se perdeu no ensino sobre informação
Aqui faço questão de me posicionar como professora de comportamento organizacional e orientadora de trabalhos de conclusão acadêmica que um dia fui. Lembro que jovens universitários aprendiam em minhas aulas algo essencial para a base de seus trabalhos de pesquisa acadêmica: a diferença entre notícia, opinião, artigo jornalístico, interpretação autoral e pesquisa científica. Hoje, tudo isso se misturou em uma grande salada de frutas informacional, potencializada por algoritmos, engajamento emocional e validação instantânea.
Talvez inteligência emocional, em tempos de polarização, seja exatamente isso: sustentar complexidade, tolerar ambiguidade, diferenciar fato de narrativa e, sobretudo, preservar a humanidade do outro, mesmo quando discordamos radicalmente de suas ideias.
Não é pouco. Mas é o mínimo para continuarmos convivendo: nas redes, nas organizações e na sociedade.
Este artigo foi originalmente publicado no LinkedIn por Alessandra Gonzaga, Ph.D., cofundadora da Conexão IE.
Leia o artigo original: [A era da alienação autoinduzida (LinkedIn)]https://www.linkedin.com/pulse/era-da-aliena%C3%A7%C3%A3o-autoinduzida-alessandra-gonzaga-ph-d–xxzlf/ Continue a jornada: conheça a Academia IE e o livro Conectados: Competências Socioemocionais na Era do Caos.
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