outubro 27, 2025
O Halloween corporativo
Em épocas de planejamento estratégico e orçamentário, alguns comportamentos podem representar um verdadeiro terror para as organizações. Proponho um olhar da economia comportamental e da inteligência emocional aplicada à governança: como os vieses, inseguranças e emoções mal geridas de líderes podem corroer valor organizacional.
Inspirado no clima do Halloween, gostaria de trazer uma reflexão sobre esses comportamentos. Neste artigo, exploro alguns dos principais fenômenos comportamentais e estruturais ligados aos custos da má governança corporativa. Será que você consegue identificar algum deles ao redor da mesa de tomada de decisão?
Conde Drácula e o entrincheiramento da liderança
Surge quando diretores ou executivos criam barreiras que os tornam difíceis de substituir, mesmo em caso de baixo desempenho. Utilizam-se de mecanismos como concentração de poder decisório e controle sobre informações.
Como vampiros do poder, se alimentam da energia e vitalidade dos outros e jamais abandonam o castelo. Mantêm todos sob seu controle hipnótico, drenando inovação e coragem de quem se aproxima. Promovem perda de confiança, imobilismo estratégico e clima de medo ou subserviência.
Barão Frankenstein e os gastos esbanjadores
Trata-se do uso indevido de recursos corporativos para benefícios pessoais. Cria monstros com pedaços de recursos da empresa, costurando benefícios, projetos e viagens que servem mais ao seu ego do que ao propósito organizacional.
Assim como o Conde Drácula se alimenta do poder que retém, o Barão Frankenstein se embriaga do poder de criar. Um teme perder o trono, o outro teme perder o aplauso. Seu modus operandi envolve ausência de accountability, cultura de privilégio, confusão entre pessoa jurídica e física, tendo como consequência a destruição de valor econômico e reputacional e a erosão do senso de justiça interna.
O Coringa e a captura do conselho
Se o Barão age nos bastidores, o Coringa transforma o caos em espetáculo. Ele é o vilão carismático que manipula todos à sua volta com charme e caos. Finge agir pelo bem comum, mas seu prazer é ver o sistema sob seu controle.
Atua fazendo com que o conselho de administração perca independência, sendo influenciado ou dominado pela diretoria executiva. O resultado é a perda da função fiscalizatória do conselho, decisões enviesadas e ineficácia de governança.
Os zumbis corporativos e o conformismo coletivo
E quando o riso do Coringa ecoa por tempo demais, surgem os zumbis corporativos: executivos que já não pensam, apenas reagem. Movem-se em uníssono, sem questionar. Um líder morde, e em minutos a sala toda repete a mesma ideia. Atuam por meio da pressão social, autoridade dominante, homogeneidade de pensamento, e se multiplicam com mais velocidade em ambientes de baixa segurança psicológica e ausência de cultura de escuta. Os resultados incluem decisões ruins, exposição elevada a riscos e falta de inovação.
Dorian Gray e o narcisismo corporativo
Nos ambientes onde a reflexão morre, a imagem reina. É aí que Dorian Gray entra em cena como símbolo da estética sem ética. Quando todos obedecem, basta parecer virtuoso para manter o jogo.
O narciso é encantado com o reflexo no espelho institucional, busca prêmios e holofotes enquanto a alma da empresa apodrece nos bastidores. A comunicação é centrada na figura do líder, que toma decisões simbólicas e busca a teatralização de resultados. Como nem tudo dura para sempre, a dissonância entre imagem e realidade e as decisões de autopromoção levam ao desgaste reputacional: a beleza da fachada envelhece, e o retrato real começa a rachar.
Monstro do pântano e o excesso de confiança
Mas sob a superfície da imagem perfeita, o terreno é movediço. O excesso de confiança nasce justamente desse espelho: quem se vê belo demais acredita que não pode errar. É o passo que separa a vaidade da imprudência.
O monstro do pântano surge quando a liderança é dominada pela tendência de superestimar a própria capacidade de prever resultados e controlar riscos. O monstro cresce sem controle, acreditando ser a força da natureza, até que afunda no próprio terreno. Os sinais de sua presença são: o excesso de autoconfiança que vira autossabotagem, supervalorização de sucessos passados, ausência de feedback real, decisões precipitadas, riscos mal calculados e desconsideração de dados contrários.
A Bruxa das Metas e a miopia temporal
Quando o otimismo cego encontra a pressão por resultados, surge a Bruxa das Metas. Ela se manifesta na priorização de ganhos imediatos (lucros trimestrais, bônus de curto prazo) em detrimento da sustentabilidade e da inovação.
A bruxa usa seu caldeirão para misturar fórmulas mágicas para fazer os números subirem, sem se importar com os efeitos colaterais. A poção do curto prazo cobra um preço alto no longo prazo, gerando perda de talentos, desengajamento e fragilidade estrutural.
Dr. Jekyll, Mr. Hyde e os conflitos de agência
A poção da Bruxa e o soro de Dr. Jekyll têm algo em comum: ambos prometem poder instantâneo, mas cobram caro. No início, parecem soluções mágicas; depois, revelam a sombra moral que habita as decisões.
Jekyll e Hyde atuam no palco do duplo moral corporativo. Durante o dia, surge o executivo exemplar; à noite, o agente de seus próprios interesses. Esse tomador de decisão oscila entre ética e ambição, nutrindo-se do desalinhamento entre os interesses dos executivos e dos acionistas. Práticas como remuneração distorcida, falta de transparência e manipulação de informações levam à perda da confiança e à duplicidade moral que contaminam o time.
O Espantalho das decisões simbólicas
Quando o duplo moral se instala, nasce o Espantalho, a figura que precisa parecer íntegra, mesmo que o vazio ético já tenha tomado conta.
É o executivo bonito na vitrine, mas vazio por dentro. Faz pose para as câmeras, mas não espanta os corvos da incoerência. Suas ações visam aparência de mudança sem alterar práticas reais. A dissociação entre discurso e emoção autêntica leva à perda de coerência, cinismo interno e perda de credibilidade reputacional.
O Mágico de Oz e o efeito halo da liderança carismática
E quando a encenação é bem-produzida, o Espantalho ganha companhia: o Mágico de Oz, que cultiva uma imagem positiva de um líder “visionário” e leva à aceitação acrítica de suas decisões.
Todos acreditam no grande líder por trás da cortina, até que percebem que a voz poderosa é apenas fumaça e amplificador. A cegueira emocional coletiva e a falta de pensamento crítico podem levar a organização ao colapso.
Para onde correr?
Depois de passear por esse baile de horrores corporativo, resta uma pergunta: como escapar dessas criaturas? A boa notícia é que há antídotos, e todos começam pela escuta. Governar com inteligência emocional é reconhecer que não há estratégia sem diálogo, nem futuro sem confiança.
Em tempos de planejamento e orçamento, talvez o maior ato de coragem seja acender a luz sobre as sombras da tomada de decisão.
O convite é simples: substitua o medo da exposição pela coragem de conversar. Porque o que realmente assombra as organizações não são os monstros de fantasia, são as verdades que ninguém ousa dizer.
Este artigo foi originalmente publicado no LinkedIn por Marcelo do Carmo Rodrigues, MSc e MA, cofundador da Conexão IE, com uma analogia temática ao Halloween.
Leia o artigo original: https://www.linkedin.com/pulse/o-halloween-corporativo-marcelo-do-carmo-rodrigues-msc-e-ma-hcknf/ Continue a jornada: conheça o Dialógika, metodologia de escuta e diagnóstico organizacional da Conexão IE.
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