agosto 14, 2025
A era dos tiranos: lições da Grécia Antiga
“A história não se repete, mas rima.” — Mark Twain
Imagine viver numa época em que líderes carismáticos derrubam elites econômicas, prometem proteger os mais pobres e, por um tempo, cumprem a promessa, até que o poder começa a corroer sua imagem e tudo se corrompe. Essa cena, que povoa os jornais de hoje, também fez parte da Grécia Antiga.
Neste artigo, vou explorar o papel dos tiranos na história, e desde já adianto: compreender esse fenômeno requer uma abordagem dialógica. Não existe bom ou mau tirano. Tudo depende do ponto de vista do grupo de interesses ao qual uma pessoa pertence.
Conhecendo a história
Estou me deliciando com a leitura do livro Os Gregos, de Isaac Asimov. Não se trata de uma obra de ficção científica, mas sim de um relato muito detalhado sobre a história e influência da cultura grega no mundo ocidental.
O capítulo que mais me capturou até agora foi o que descreve a chamada “Era dos Tiranos”, ocorrida aproximadamente entre 650 e 500 a.C. Antes desse período, as cidades-estado gregas eram autônomas, e o comércio era conduzido por meio do escambo. Aos poucos, os metais preciosos começaram a ser utilizados como forma de troca, mas havia incerteza quanto ao peso e à pureza do ouro e da prata empregados nessas transações.
Em algum momento no século VII a.C., na Ásia Menor, moedas começaram a ser produzidas com respaldo dos governos, que estampavam em cada pepita seu peso ou valor. Os gregos copiaram esse modelo, e isso fez surgir um comércio em larga escala. A prosperidade cresceu, mas também trouxe tensões.
Com a entrada de riqueza em algumas cidades, emergiu uma nova classe de poderosos: os ricos comerciantes. As antigas elites de proprietários de terras não aceitavam facilmente partilhar o poder, e os artesãos viam seus produtos perderem valor diante das mercadorias importadas. O aumento da produção para exportação elevou a demanda por escravos. Agricultores e artesãos ficaram endividados e, incapazes de pagar suas dívidas, também acabavam escravizados. Paralelamente, a chegada do dinheiro fez os preços subirem, provocando inflação e reduzindo o poder de compra dos cidadãos.
O surgimento dos bons tiranos
Essa insatisfação na sociedade grega abriu espaço para a ascensão de tiranos ao poder. A palavra grega týrannos, na época, não tinha a conotação negativa de hoje. Eram chamados de tiranos por serem “outsiders”, ou seja, não pertenciam à estrutura de poder vigente.
Tratava-se de líderes que se apresentavam como defensores das classes prejudicadas, organizando-as e retomando o poder que havia migrado para a nova elite emergente. Para aqueles cujos interesses eram defendidos, eram vistos como governantes carismáticos, justos e até amáveis.
Estimulavam obras públicas, reformas econômicas e religiosas, e usavam alianças políticas para garantir a autoridade. Muitos trouxeram prosperidade e paz, melhorando as condições de vida das camadas populares, embelezando cidades, investindo em entretenimento e fomentando centros e escolas de conhecimento. Foi nesse período, sob a proteção de tiranos, que viveram Tales, Pitágoras, Anaximandro, Heráclito e tantos outros.
Revivendo a história
Essa dinâmica de outsiders que ascendem ao poder desafiando elites estabelecidas ajuda a compreender fenômenos políticos contemporâneos em diferentes partes do mundo, em que líderes se apresentam como defensores de grupos que se sentem prejudicados pela globalização e pelo comércio internacional, reagindo contra a concorrência de produtos importados com mão de obra mais barata.
Há argumentos econômicos consistentes sobre as vantagens do comércio internacional. Mas o desemprego gerado por esse comércio em setores da economia local que não apresentam vantagens comparativas em relação ao resto do mundo é um fato relevante, que traz consequências político-sociais reais.
Líderes desse perfil costumam ser aclamados por parte da sociedade e considerados tiranos, no pior sentido da palavra, pelo establishment que desafiam, justamente por irem contra os interesses da ordem ideológica, econômica, política e legal previamente estabelecida.
Todos os tiranos são bem-intencionados?
Isso depende do ponto de vista. Tiranos podem ser amados por aqueles que defendem e detestados por aqueles cujos interesses contrariam. Mas se falham em entregar desenvolvimento e bem-estar, podem perder apoio popular e passam a ser odiados por todos.
Sem a base social que os sustenta, alguns tiranos endureceram seus regimes de governo na Grécia Antiga, recorrendo à repressão, ao mau uso das instituições e ao uso da força e coerção contra cidadãos livres. Foi assim que tirania passou a significar abuso, arbitrariedade e instabilidade.
Esse padrão histórico segue relevante para se pensar contextos políticos contemporâneos em diferentes países, incluindo o Brasil.
O que não fazer: a lição de Esparta
A expressão “vida espartana”, usada para designar um viver simples e com poucos recursos, tem raízes históricas. Na época dos tiranos, Esparta evitou as convulsões ligadas à expansão comercial. Lá, o uso de moedas era proibido, assim como a importação de artigos de luxo. A cidade manteve-se fiel à agricultura de subsistência e aos costumes antigos. O baixo padrão de vida era considerado uma virtude.
Mas não necessariamente o bem comum era objetivo de Esparta. De forma semelhante a governos centralmente controlados, o poder era exercido pela Gerúsia, um conselho de 28 cidadãos com mais de 60 anos, acrescido de dois reis com poderes limitados. Apenas os esparciatas, cidadãos plenos e proprietários de terras, podiam ser eleitos, o que excluía grande parte da população. O sistema impedia mobilidade social: só nascia esparciata quem fosse filho de esparciatas.
Ao longo do tempo, as guerras, a desigualdade na herança e a concentração fundiária reduziram o número desses cidadãos plenos, que no século IV a.C. já eram apenas algumas centenas. A concentração de terras nas mãos de poucos gerou um abismo econômico entre a elite e o restante dos cidadãos, que levou à derrocada do regime.
Reflexão final
Conhecer a história nos ajuda a identificar padrões. Os contextos mudam, mas certas dinâmicas sociais, econômicas e políticas se repetem.
Se a história tende a “rimar”, que escolhas podemos fazer hoje para que ela não se repita nos seus piores versos?
Este artigo foi originalmente publicado no LinkedIn por Marcelo do Carmo Rodrigues, MSc e MA, cofundador da Conexão IE, como reflexão histórica sobre dinâmicas de poder na Grécia Antiga e seus paralelos com a política contemporânea.
Leia o artigo original: https://www.linkedin.com/pulse/era-dos-tiranos-li%C3%A7%C3%B5es-da-gr%C3%A9cia-antiga-do-carmo-rodrigues-msc-e-ma-ajh4f/ Continue a jornada: conheça a Academia IE.
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