abril 6, 2025

O antídoto da presencialidade

Vivemos tempos em que estar presente fisicamente já não basta, é preciso estar “de coração”. Em meio à avalanche de conteúdos digitais, à aceleração da inteligência artificial e ao cansaço emocional gerado pelas telas, reencontrar o outro ao vivo tem se tornado um verdadeiro antídoto. Um remédio simples, mas potente: o reencontro com o olhar, com o gesto espontâneo, com a palavra dita com verdade e intenção. Foi isso que vivi intensamente nos três dias do ESARH, Encontro Sul-Americano de Recursos Humanos, e é sobre isso que quero escrever.

Em uma palestra intitulada “O Caminho do Coração”, explorei a importância dos líderes falarem a partir da “voz do coração” na interação com as pessoas. Isso porque a liderança acontece muito além das palavras, ela funciona como música, ressoando de maneira subliminar no pensamento das pessoas. Por isso é que conectar afetos permite criar confiança, colaborar, estreitar laços, expandir consciência. E isso ocorre especialmente pela forma como estabelecemos conexões afetivas genuínas. É a afetividade da liderança que deixa marcas duradouras.

Comecei a palestra com o famoso início do Canto Alegretense: “não me perguntes onde fica o Alegrete, segue o rumo do teu próprio coração”, porque foi exatamente isso que fiz ao sair da minha cidade natal aos 16 anos em busca de estudo e carreira. Reencontrar esse “rumo do coração” em um palco, falando sobre autenticidade, foi um momento profundamente simbólico, emocionante. Falei sobre minhas diferentes “carreiras”: professora de inteligência emocional, facilitadora e mentora de líderes, jornalista e apresentadora de podcast, entre outras que sigo descobrindo por aí. E de como é preciso conectar com o outro a partir de nossa própria história, a partir de um pensar-sentir-agir que dialogue com o que experienciamos na vida. Que seja real, genuíno, humano.

Otimismo

Saí do evento com um misto de esperança, otimismo e gratidão, a sensação de que afinal não estamos tão mal assim como humanidade. Por vezes vinha sentindo um certo desalento com o rumo de algumas coisas: a cultura da exposição constante nas redes sociais, essa pressão para “gerenciarmos a impressão” que deixamos nos outros e que considero imensamente cansativa. Com a chegada da inteligência artificial, qualquer um pode escrever “bonito”, amplificando ainda mais essa ansiedade de parecer bem na foto. Mas o ESARH me lembrou algo essencial: quando estamos presencialmente, o que conta é a verdade da nossa fala, aquilo que emerge do cuore, como dizem os italianos, na sua forma mais pura e autêntica.

Adoro estudar a etimologia das palavras, e essa palavra, cuore, vem do latim cor / cordis, que não significa apenas o órgão que pulsa, mas também o centro da vida, da alma e das emoções. Desse mesmo radical derivam palavras como “coragem” (agir com o coração), “cordial” (gentil, afetuoso), “concordar” (corações em sintonia), e até “recordar” (re-cordis: passar novamente pelo coração). Tudo isso nos lembra que, no centro da nossa humanidade, está o sentir, e não o parecer.

Como nosso estande estava posicionado bem no centro da exposição, pude observar, ao longo de dois dias e meio, uma profusão de encontros, abraços e sorrisos. Pessoas que pareciam sedentas, e felizes, com a oportunidade de contato real. Reunir tantas pessoas de empresas que passaram por tempos difíceis funcionou como um bálsamo e um verdadeiro contraponto ao clima artificial, imediatista e alarmista das redes sociais.

Somos seres sociais. Nossa necessidade de conexão não pode ser saciada na frugalidade (e por vezes falsidade?) de posts. O encontro ao vivo é algo difícil de mensurar e explicar, mas causa um efeito real, uma troca que vai além do que foi dito. Como percebi nos olhos, na expressão, no tom da voz, nos abraços e na espontaneidade dos gestos de cada pessoa que conversei. A presencialidade oferece algo que nenhuma inteligência artificial ou texto programado para mais um “conteúdo digital” pode substituir: o calor humano da verdade compartilhada. Entendi ela como um remédio, um antídoto quem sabe, contra a ansiedade digital, contra o medo da IA e, principalmente, contra o risco de esquecermos o que realmente importa. Na presença do outro, o que prevalece é aquilo que verdadeiramente somos.

Podcast ao vivo

Durante o evento, eu e meu sócio, e parceiro de vida, Marcelo do Carmo Rodrigues, MSc, gravamos ao vivo 22 episódios do podcast Arena IE especial ESARH, conversando com palestrantes, facilitadores, empresários locais e gestores de empresas expositoras, direto do nosso estande da Conexão IE, com o apoio fundamental de nossa equipe e de voluntários do evento. Marcelo também conduziu uma oficina profunda sobre Felicidade no Trabalho, baseada em sua pesquisa de mestrado. Foi uma verdadeira maratona de encontros significativos!

Parabéns aos organizadores, voluntários, colegas das empresas expositoras, e a todos que puderam deixar suas rotinas de lado e trazer seus corações para o evento. Como diz o título do livro que lançamos no ESARH, que possamos seguir conectados com cada pessoa que passou por ali.

Se você não pôde estar presente, deixamos um presente: a edição especial do podcast Arena IE gravada ao vivo no evento está disponível em nosso canal do YouTube. São vozes, olhares e corações da Serra Gaúcha, países vizinhos e outras regiões do país que registramos com muito carinho, e que agora compartilho com você.

Este artigo foi originalmente publicado no LinkedIn por Alessandra Gonzaga, Ph.D., cofundadora da Conexão IE.

Leia o artigo original: https://www.linkedin.com/pulse/o-ant%C3%ADdoto-da-presencialidade-alessandra-gonzaga-ph-d–3r5gf/ Continue a jornada: conheça a Academia IE, o podcast Arena IE e o livro Conectados: Competências Socioemocionais na Era do Caos, disponível na Amazon.

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