maio 8, 2024

Qual é o teu barco?

“Parece o fim do mundo.”

O comentário veio de uma adolescente, dirigindo-se à amiga que estava a seu lado, em um supermercado da zona norte de Porto Alegre, durante as enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul. Pensei por um instante que ela tinha acabado de verbalizar meu exato pensamento. Sei que se referia às prateleiras vazias e ao desabastecimento de produtos básicos como massas, detergente, velas, pilhas, produtos de higiene pessoal e, especialmente, água. Porém entendi que seu desabafo podia também descrever o que nós gaúchos presenciamos nas ruas e na rotina diária, a partir das inundações que chegaram para modificar a vida de todos nós.

São imagens que nunca mais esqueceremos. Famílias em telhados, pedidos de socorro, animais arrastados pelas águas, lama por toda parte. Dor, sofrimento, perda. A água que desceu do céu e atingiu os vales virou rio, que virou morte. Morte que levou gente, bichos, casas, sonhos, histórias. Vilas e cidades deixaram de existir ou ficaram sem qualquer acesso por terra. Morros caíram e levaram estradas. A extensão da catástrofe não teve qualquer precedente na história do Brasil, com centenas de municípios em estado de emergência ou calamidade pública.

Nos próximos parágrafos, exploro um pouco as emoções que todos vivemos em momentos assim, afinal esse é ainda um artigo da Conexão IE, e o acolhimento de nossos sentimentos é parte da cura emocional que queremos disseminar. Adianto que as emoções chegam como as enxurradas: em correntes caóticas e confusas, arrasando nossas estruturas internas e provocando destruição do senso de propósito ou pertencimento no mundo.

Medo, gratidão e tristeza — Nós que ficamos secos, por morarmos em lugares mais altos, passamos aqueles dias a contar o tempo em horas, nível pluviométrico, carga de bateria do celular e reserva de água para beber. Economizamos no que comer e beber, agradecendo toda noite por ter uma cama para dormir. Acordávamos muitas vezes sobressaltados durante a noite, pensando nas famílias presas, aguardando resgate. Os que ainda tinham sinal de celular ou luz para olhar a televisão aberta tiveram acesso a mensagens e imagens perturbadoras, que assombram por muitas noites do porvir, especialmente as de chuva. As madrugadas trouxeram muito medo. De perder a vida, perder o juízo, não ter mais forças, de não acreditar mais em Deus. Medo de não ter mais acesso a dias felizes, de que não exista sol para secar tanta lágrima. E choramos. Até cansar e dormir novamente.

Compaixão e esperança — Quem teve luz ou como carregar o celular teve acesso a um movimento absurdo (e incrível!) de voluntariado da sociedade civil, estudantes, professores, profissionais liberais, empresários e coordenadores de organizações não governamentais e também servidores da brigada militar e defesa civil, entre tantos outros segmentos sociais, das redondezas e de todo o Brasil. Presenciei o movimento da compaixão vir de muitas frentes, e isso certamente trouxe muito conforto e esperança, inclusive quando a luz acabou por vários dias. Pedidos de resgate, listas de pessoas com barcos, lugares que aceitavam donativos, pessoas que se ofereciam para levar doações, pessoas que preparavam refeições. Foi para essas pessoas que dirigi minhas preces quando estávamos no escuro, sem notícias e com muita chuva caindo do lado de fora de casa. E, assim que pude, foi para ajudar elas que usei recursos financeiros e de comunicação, na tentativa de ser mais um elo na corrente de solidariedade que dominou a muitos de nós nesse momento.

Raiva, narcisismo e mix de tudo — Também percebi que a atmosfera belicosa se ampliou nas redes sociais, que de forma geral reproduziam uma realidade caótica, com informações e conteúdo de todos os tipos. Políticos e anônimos nas redes se digladiavam em torno das diferentes narrativas do que vivíamos, vídeos perturbadores e áudios eram compartilhados para gerar comoção, influenciadores prestavam seu tributo ao tema do momento, não querendo deixar passar a impressão de serem pouco empáticos. Indignação com notícias sobre pessoas que aproveitavam para pilhar, saquear e assaltar vítimas, ou de agentes públicos que impediam a chegada de ajuda, ganhava o compartilhamento de milhares de pessoas. A maior parte dos conteúdos era exagerada, algumas vezes distorcida, outras tão somente desalentadora e de pouca utilidade para que se pudesse avançar. Aqui e ali, encontravam-se posts de serviço e utilidade pública, onde doar, como doar, como cuidar das pessoas já resgatadas, o que fazer para ajudar. Porém foi nauseante ver aqueles que abriam a câmera para posar de heróis, ganhar engajamento, fazer turismo de desgraça, disseminar informações falsas ou simplesmente para distribuir mais pânico e desesperança.

Culpa, frustração e cansaço — Na medida em que foi retornando a luz e a água em algumas regiões de Porto Alegre, ficou evidente que a situação era muitíssimo grave e que ainda havia muitas pessoas em grande sofrimento. Naquele momento, veio mais forte o impulso de ajudar, fazer algo, nem que fosse contribuir financeiramente, facilitar a comunicação entre as entidades que recebiam e as que enviavam donativos, apoiar o transporte de algo, contribuir com doações. Isso tudo intermediado por todos os outros sentimentos já descritos, inclusive longas sessões de choro pela morte e desespero de pessoas e animais. O movimento de olhar as redes e o que estava sendo feito pelas pessoas trouxe diversos sentimentos, e para muitos a combinação de noites sem sono, comunicação constante pelo celular e envolvimento com as vítimas trouxe um imenso cansaço físico e mental. Comigo não foi diferente, e lembro da especial frustração de não ter um barco e do desgosto de não poder fazer mais. Como desejei ter um barco para ajudar a tirar as pessoas! Queria estar presencialmente nas áreas de resgate, ou assim fantasiei. E me frustrei.

O barco

Foi numa noite de sono entrecortado, em que sonhei mais uma vez com águas turvas, e dessa vez também com água limpa, que percebi, avançando na conversa que havia tido com Marcelo do Carmo Rodrigues, MSc: o trabalho emocional da Conexão IE é nossa forma de devolver um pouco de apoio à organização e normalidade aos nossos dias. Percebi que o suporte emocional a líderes e pessoas nas organizações, especificamente o desenvolvimento de habilidades socioemocionais, são o barco que podemos colocar em auxílio às pessoas. Tenho plena clareza de que as competências de inteligência emocional auxiliam a resgatar pessoas (ou seus corações e mentes) da desorientação e do desespero. As habilidades de IE promovem equilíbrio e direção para vivermos um dia de cada vez, navegando em direção a dias melhores. Permitem que consigamos continuar, em nossos trabalhos, em nossas famílias, nas atividades que compõem a vida e a economia de cada cidade.

Assim como eu, sei que todos têm um barco. Para alguns é o trabalho de cuidar das pessoas, oferecer um abraço forte, um café quentinho, uma conversa, uma toalha seca. Outros têm seu barco na busca pelo sustento, na produção de algum item essencial ou serviço, na provisão de recursos e alimento para a família. Nosso barco é nossa forma de acolher a dor e o sofrimento de outras pessoas. De estar com elas nessa jornada e ajudar alguém a seguir adiante, ainda que só mais um pouco.

Fica aqui um convite para cuidar de si e das pessoas de seu entorno, incluindo aquelas que atuam no socorro às vítimas em momentos de crise e seus colegas de trabalho.

Este artigo foi originalmente publicado no LinkedIn por Alessandra Gonzaga, Ph.D., cofundadora da Conexão IE, como relato pessoal durante as enchentes de maio de 2024 no Rio Grande do Sul.

Leia o artigo original: https://www.linkedin.com/pulse/qual-%C3%A9-o-teu-barco-alessandra-gonzaga-ph-d–rny9f/ Continue a jornada: conheça a Academia IE, o podcast Arena IE e o livro Conectados: Competências Socioemocionais na Era do Caos.

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