março 21, 2024
Como búfalos, não hienas
“Estou tão cansado de atuar na ostentação da vaidade e me conformar com essa formalmente aceita insanidade digital. Chame-me de louco, mas imagino um mundo onde sorrimos quando temos baterias fracas. Porque isso significa que estamos um pouco mais perto de nossa humanidade.” — rapper Prince Ea
Dois temas um tanto distantes costumam se entrelaçar em pautas de desenvolvimento socioemocional: adaptabilidade e positividade tóxica. Embora ser adaptável seja uma capacidade altamente celebrada no mundo dos negócios (e na vida, como um todo!), ela pode ser mal interpretada, sobretudo se pensarmos no manejo emocional. Bem nessa direção, já me perguntaram: existe limite para o quanto precisamos nos adaptar? Pensando na resposta, neste artigo exploro como a verdadeira adaptabilidade exige uma abertura às experiências, abraçando todas as nossas emoções, especialmente e inclusive aquelas consideradas negativas.
Não encontrei um registro específico de quem criou o termo positividade tóxica, mas ele começou a ganhar força quando as redes sociais começaram a ganhar destaque, no auge do Facebook e do Twitter, quando os celulares começaram a registrar fotos de refeições, lugares visitados e reuniões, por meio de selfies ainda um tanto desajeitadas. Em paralelo, a cultura do pensamento positivo a qualquer custo era exacerbada, a partir de obras como “O Segredo”, que consistia, já te conto, em obter tudo que se deseja pelo poder de atração.
Por consequência, nada de se permitir emoções negativas porque, disseram muitos gurus apressados em obter sucesso na época, isso atrairia as experiências e as pessoas ruins. A ideia então era promover “good vibes only”, o que gerava em muitas pessoas uma verdadeira obsessão em perseguir e sufocar pensamentos negativos. O que se provou em seguida, para falência emocional e financeira de muitos iniciados em manifestar a vida dos sonhos, é que o patrulhamento de pensamentos só piora nossa capacidade de um bom gerenciamento das emoções e amplia consideravelmente a ruminação, o sofrimento e as emoções aflitivas.
Por que isso acontece? Basicamente porque é uma tarefa terrível e infrutífera essa de impedir sua mente de pensar ou sentir algo negativo. Tanto a supressão (bloqueio de sentimentos) como a evitação (fuga) são péssimas estratégias de regulação emocional. Aqui um exemplo: enquanto lê esse texto, tente não pensar em um grande urso branco. (…) E então, qual era o tamanho ou a cor de seu urso?
Pegadinhas à parte, o fato é que a melhor estratégia de adaptação emocional não é negar ou distorcer a realidade, mas é justamente caminhar em direção ao que se está sentindo. Passando pelas emoções, quaisquer emoções, podemos compreender seus gatilhos e fontes de propulsão. Só então é possível reorganizar a rota de ação e alinhar entendimentos, pensamentos, comportamentos.
Não à toa os especialistas em IE apontam que reprimir uma emoção pode em verdade ter um efeito contrário, uma vez que nosso organismo interpreta que a “informação” emocional que ele está passando não foi lida, o que faz com que amplie a intensidade, tentando forçar um reconhecimento. Ao suprimir sentimentos de tristeza, frustração ou medo, perdemos a oportunidade de confrontar e superar efetivamente os desafios, limitando nossa capacidade de adaptação.
Fazendo uma analogia com o mundo animal, é interessante considerar o comportamento das hienas, conhecidas por produzirem ruídos que se parecem com gargalhadas. Na verdade, esses sons representam uma forma de comunicação usada para transmitir sensações como frustração, excitação ou medo. Ou seja, elas riem de nervoso!
Por isso, melhor inspiração nos fornecem os búfalos. Eles encaram grandes tempestades caminhando em direção a elas, não desviando. Com isso, poupam suas forças e permitem que o desgaste causado dure o menor tempo possível e cause menor estrago. Ainda, fazem isso em grupo, o que favorece mais uma vez o enfrentamento. Se fugissem delas, gastariam tempo e energia e não estariam tão bem preparados quando fossem por ela atingidos.
Agora vamos sair das savanas, bosques ou selvas, aliás, todos possíveis habitats dos adaptáveis búfalos, e considerar escritórios e linhas de fábrica. Todo mundo já viu alguém falar na importância de trabalhar a motivação do time, em incentivar a produtividade a partir do otimismo. Onde fica então a busca de uma positividade saudável?
Sim, as emoções positivas são (como todas) importantes de serem vivenciadas! Desde que, e esse é o ponto, sejam estimuladas de forma legítima. Que tenhamos reais estímulos para que surjam. Um exemplo: se nos perguntarmos ao final de um dia de trabalho “pelo que sou grato(a) hoje”, é bem possível que facilitemos a entrada de um sentimento de gratidão em nossa linha de pensamento. Um maravilhoso exercício, com certeza! Porém, a pergunta seria totalmente inválida e desperdiçada se, nesse mesmo dia, um evento terrível tiver acontecido e estivermos muito chateados com isso. Isso só criaria ruído e confusão mental. Mais eficaz seria só fazer o exercício da gratidão depois de ter compreendido os próprios sentimentos, e até valores atingidos, no evento desagradável.
Ou seja, em nome justamente da adaptabilidade, nosso cérebro prioriza considerar tudo que possa afetar nossa sobrevivência e busca nos proteger de sofrimentos e experiências desagradáveis, buscando a todo momento antecipar e prever posicionamentos diante de ameaças. Se tentarmos mascarar essas preocupações com mensagens positivas vazias ao estilo “eu posso tudo” ou “só existe o belo e o bom na vida”, contaminaremos duplamente nossa regulação emocional: pela supressão de emoções negativas e pelas tentativas frustradas de evocação das positivas.
Pensem naquela reunião de trabalho do dia seguinte após a perda de um grande contrato. É hora de sair fazendo um novo plano de ação ou seria o momento oportuno para lamentar coletivamente o ocorrido, compreender causas (sem caça aos culpados, pois isso desviaria a confiança para uma compreensão acurada) e só depois traçar planos a partir desse entendimento?
Outro ponto importante é que nem sempre conseguimos modificar nossa realidade. Às vezes o máximo de empenho é usado tão somente para suportar as adversidades, cuidando de si mesmo(a) enquanto não passam. Isso pode significar, em algumas situações, abrir mão de tentar mudar as circunstâncias externas e trabalhar mais na aceitação e ajuste interno. Se for esse o caso, a prática da mindfulness, o desenvolvimento de uma mentalidade de crescimento e o exercício da compaixão por si mesmo são ferramentas valiosas no processo. Mais uma vez, isso tem a ver com reconhecer os estados emocionais e acolhê-los com sabedoria, sem negá-los.
Então, seja para gerenciar emoções negativas, seja para tirar melhor proveito dos momentos positivos, é preciso permissão para sentir. Isso sim favorece a adaptabilidade a qualquer contexto.
Este artigo foi originalmente publicado no LinkedIn por Alessandra Gonzaga, Ph.D., cofundadora da Conexão IE.
Leia o artigo original:https://www.linkedin.com/pulse/como-b%C3%BAfalos-n%C3%A3o-hienas-alessandra-gonzaga-ph-d–eei8f/ Continue a jornada: conheça a Academia IE, o podcast Arena IE e o modelo ESCI da Korn Ferry, assessment de inteligência emocional utilizado em formações de desenvolvimento da Conexão IE.
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