janeiro 19, 2024
Um café com o sexto sentido e a evolução humana
Tenho o hábito de explorar com minha esposa, Alessandra Gonzaga, Ph.D., durante o café da manhã, temas, trechos de livros e pedaços de informações aleatórias que um ou outro tenha acessado navegando na internet. Ao longo das nossas conversas, é comum um de nós dizer: deveríamos escrever sobre isso. Hoje resolvi experimentar, então lá vai o texto!
Estávamos conversando sobre inteligências. A semente da conversa foi um post sobre inteligência celular: pesquisadores utilizaram os padrões de crescimento de um determinado fungo para propor redesenho de linhas de metrô em uma grande cidade.
A partir daí, a conversa evoluiu para explorar as diferenças entre inteligências nos reinos vegetal e animal e, particularmente, entre seres humanos. Este é outro tema que muito me interessa: como aprendemos e podemos ampliar nossa capacidade de aprendizado.
Como a conversa foi longa, vou tentar colocar aqui as principais conclusões de nossa deliberação matinal. Acabamos por fazer uma associação entre inteligência, capacidade de adaptação e evolução, e a quantidade de sentidos que um ser vivo tem à sua disposição. Então vem comigo e participa desse café da manhã de dois nerds!
Partimos do princípio de que todo ser vivo tem objetivos básicos de sobrevivência: crescimento, evolução e perpetuação da espécie. Os mais bem-sucedidos são aqueles que conseguiram tomar melhores decisões a partir do uso de sua inteligência, e essa, por sua vez, depende da quantidade (e qualidade) das informações obtidas. Ainda, nos seres vivos, as informações provêm dos sentidos.
Uma planta possui sentidos. Por exemplo, ela consegue perceber a luz e, no processo de germinação da semente, direcionar suas raízes para a terra e o caule e ramos para a fonte de luz. Algumas plantas usam esse sentido para movimentos, por exemplo, de flores como o girassol ou da delicada onze-horas. As plantas percebem e adaptam seu ritmo de crescimento e ciclos às estações do ano, percebendo variações de temperatura, luminosidade e umidade. A cuscuta, uma planta trepadeira parasita desprovida de clorofila, usa seu olfato para detectar a presença de plantas de tomate e fixa-se à sua parte superior.
Plantas como a mimosa usam o tato para fechar e proteger suas folhas de predadores. Plantas carnívoras também usam o tato para aprisionar seu alimento.
Os mamíferos são mais evoluídos, por utilizarem e processarem informações de um número maior de sentidos, e todos nós já ouvimos histórias sobre a inteligência diferenciada dos golfinhos, que possuem sentidos adicionais de radares que auxiliam na ecolocalização de presas.
Nos seres humanos, temos um diferencial em relação aos demais mamíferos: nosso neocórtex, a camada de tecido cerebral adicional que desenvolvemos, permite lidar com o abstrato, tangibilizando objetos de análise que extrapolam as informações que recebemos de nossos sentidos físicos. Somos a única espécie capaz de processar informações que geramos espontaneamente, independentemente de nossa interação com o ambiente ou com outros indivíduos.
É daí que vem o termo “sexto sentido”. Pense numa percepção ou habilidade referente à recepção de informações não adquiridas através dos sentidos físicos reconhecidos, mas percebidas com a mente. O termo foi adotado pelo psicólogo J. B. Rhine, da Universidade Duke, para denotar habilidades como intuição, psicometria, empatia, precognição, etc.
Não quero enveredar por lados polêmicos, religiosos ou esotéricos, mas focar no trecho da definição de sexto sentido de Duke: “recepção de informações não adquiridas através dos sentidos físicos reconhecidos, mas percebidas com a mente”. Aliás, é assim que a ciência entende esses fenômenos místicos: fruto de nossa mente. E em última análise está correto; a interface é a mente.
Por que coloquei a inteligência emocional no meio dessa confusão toda? Pensa comigo: de uma forma bem simplificada, dá para dizer que “emoção” não existe, certo? Você não vai no supermercado e compra um quilo de felicidade (quem dera!). Pelos órgãos dos sentidos, coletamos alguns sinais do ambiente, de nós próprios e das pessoas com as quais interagimos, jogamos tudo isso para nosso cérebro límbico e voilà: experimentamos em nosso corpo respostas neuroquímicas que chamamos de emoções. O frio na barriga, o queimar no rosto ou aquele arrepio na espinha são indicativos dessas respostas ao que acontece no ambiente. Poderia ficar por aí, mas fica mais complexo: nosso neocórtex, nossa mente pensante, a “inteligência” do construto inteligência emocional, traduz essas informações em unidades de sentido quase tangíveis. Daí que aprendemos a dar nome a essas sensações e respostas fisiológicas, e nossa mente as interpreta como raiva, medo, ansiedade, etc., e agimos ou tomamos decisões a partir disso.
Nem todos possuem essa conexão plenamente desenvolvida: quanto maior a inteligência emocional do indivíduo, mais habilidade ele terá para perceber esse estado emocional que o corpo experimenta, compreender seu significado e usar essa informação para adaptação, crescimento e evolução, por exemplo, em sua carreira, organização ou relacionamentos pessoais.
Pessoas com elevada inteligência social, que é a parte interpessoal da IE, conseguem, ao influenciar, motivar ou gerar confiança nos outros, fazer com que suas mentes percebam e produzam sentidos a partir de projeções induzidas nas mentes daqueles com quem interagem. Isso é praticamente um superpoder!
E isso não acontece apenas com emoções. Pessoas criativas, que conseguem projetar soluções, novas tecnologias, teorias, estratégias, são também consideradas visionárias, pois conseguem, conversando com sua mente, tornar tangível o abstrato, enxergando e compreendendo coisas que a maioria de nós ainda não alcança.
Como você tem treinado esse seu sexto sentido para obter vantagem competitiva na corrida evolutiva? Ler um romance, por exemplo, faz com que sua mente projete cenários, sensações, visualizações, emoções, etc., a partir da narrativa sugerida pelo autor. Atividades associadas às artes, como pintura, música, assistir a uma peça de teatro, podem provocar efeitos semelhantes e ajudar a fortalecer essa conexão com nossa mente. Habituar-se a refletir e planejar ações futuras também.
Já navegar pelas redes sociais por horas vendo imagens ou vídeos curtos atrofia nossa mente. Há material de pesquisa suficiente sobre os efeitos danosos de certas redes sociais em crianças e adolescentes para embasar debates regulatórios importantes sobre o tema.
E para encerrar a conversa: o café não foi muito longo, mas no final flertamos sobre o que seria um sétimo sentido, ou nosso próximo estágio de evolução. Minha esposa foi por uma linha mais zen-budista; eu aposto na conexão homem-máquina. Já existem pesquisas avançadas envolvendo implantes cerebrais para conexão com máquinas. Além de permitir compensar deficiências de visão ou audição, o que já é realidade, há expectativa de que essas interfaces permitam ao nosso cérebro navegar na internet, trocar e-mails, etc., apenas por intermédio do pensamento. O que abre a possibilidade de conexão direta de nosso cérebro com sistemas de inteligência artificial, como já vemos em alguns filmes de ficção científica!
Pode demorar mais ou menos tempo, as pessoas podem ter opiniões divergentes sobre esses temas, mas não há como ir contra nossos instintos básicos de sobrevivência, crescimento, evolução e perpetuação da espécie. Podemos até criticar e polemizar o uso de recursos de inteligência artificial generativa, mas o melhor mesmo é aprendermos a utilizá-los e ampliarmos sempre nossa capacidade de pensamento. Coisa que, aliás, acontece sempre que nos conectamos e trocamos ideias com outras pessoas.
Então, para praticar seu sexto sentido, reflita consigo mesmo e responda: o que você acha a respeito?
Este artigo foi originalmente publicado no LinkedIn por Marcelo do Carmo Rodrigues, MSc e MA, cofundador da Conexão IE.
Leia o artigo original: https://www.linkedin.com/pulse/um-caf%C3%A9-com-o-sexto-sentido-e-evolu%C3%A7%C3%A3o-humana-marcelo-clupf/ Continue a jornada: conheça a Academia IE e o podcast Arena IE.
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