dezembro 14, 2023
Antes da segunda montanha
“E quando você chegar ao topo da montanha, você começará a escalar.” — Khalil Gibran
Já não é de agora que percebo uma certa sincronicidade entre os temas tratados entre os clientes de mentoria executiva e o que vai acontecendo na minha vida e de outras pessoas que conheço. Estamos sim mergulhados em um grande inconsciente coletivo, e nossas realidades se perpassam e intercambiam constantemente.
Em fechamentos de ciclo, é comum as pessoas falarem sobre exaustão, burnout emocional, sentimentos mistos de alegria, pela finalização de um período de trabalho e vida, e de ansiedade diante do que vem a seguir.
Em muitos momentos assim, ocorre em diferentes empresas a sensação de termos alcançado “muita coisa”. Às vezes o ganho foi mesmo financeiro, com resultados tangíveis de crescimento de negócios. Maravilhoso saber disso. Mas nem sempre o sentimento é de ganho em resultados tangíveis; outras vezes é algo mais subjetivo, como a sensação de que estamos melhores, mais experientes, mais sábios, depois de um período difícil e cheio de desafios, marcado por um contexto econômico, político e de relacionamentos sociais em transformação constante. A percepção de linha de chegada vem do simples fato de estarmos aqui para contar a história de nosso aprendizado. Só que é inevitável, diante de uma conquista grande, nos perguntarmos: já cheguei até aqui, ok. E agora? Ou ainda: se esse período foi difícil assim, como conseguirei seguir ativo e conquistar ainda mais no próximo ciclo?
Assim é que tenho a impressão de que, ao final de ciclos intensos, muitas pessoas vivem um estado emocional que reúne a queda de energia de final de período e, ao mesmo tempo, um misto de sentimentos em torno de conquistar algo. Existe até um nome para isso: “post-performance blue” ou PPD (post performance depression), que também poderia ser traduzido como abatimento pós-desempenho, um estado emocional complexo que reúne melancolia, cansaço físico e mental e um certo desnorteamento, quem sabe até desconexão das pessoas, advindo logo após uma grande conquista. É um misto de alegria por ter conseguido, porém de receio em não ser possível fazer tudo novamente ou até de já “ter dado o melhor de si”. Alguns atletas de alto rendimento contam que essa emoção se instala alguns minutos após subirem ao pódio. Também artistas que realizam performances ao vivo para grandes audiências relatam esse tipo de sensação.
“A euforia da apresentação ao vivo é acompanhada por um tipo especial de depressão agravado por um cansaço profundo após o evento. Uma grande quantidade de energia, mental e física, é gasta no ato da apresentação, e a emoção do concerto preenche todos os seus momentos nas horas que o antecedem (…) E então, de repente, tudo acaba… Você acorda na manhã seguinte com uma sensação de deflação, a euforia da noite anterior agora substituída pelo aborrecimento.” — Stephen Hough, pianista
É isso então. Há um imenso gasto de energia para nos mantermos ativos e produtivos ao longo de um ciclo, e para muitos de nós a tradicional queda de energia do fim de um período vem com um sentimento extra de “e agora?”. É hora de olhar a paisagem, do alto de nossa conquista, sim, foi como escalar uma montanha!, para em seguida nos prepararmos para a descida. Um merecido tempo de desacelerar, apreciar o caminhar mais suave, contemplar o caminho lembrando do que melhor aconteceu. Esse ritmo de “desescalada” pode ser extremamente agradável, e os momentos de pausa que a vida nos oferece deveriam nos servir a esse propósito.
Práticas para a descida
Que tipo de prática podemos ter para facilitar essa descida? Separei aqui algumas dicas que espero serem úteis.
Reconheça seus sentimentos — Como habilidade de base para ativação de nossa inteligência emocional, é necessário identificar, com o máximo de precisão e paciência, o tipo de sentimento que estamos lidando, assim como seus efeitos físicos, emocionais e mentais. Sim, porque nossas emoções afetam nossa forma de pensar e as reações em nosso corpo. Assim, é preciso reconhecer se há cansaço físico, se existem sintomas perceptíveis no corpo (como azia ou dores musculares) e se existem mudanças no rumo dos pensamentos, como dúvidas existenciais ou angústias em relação ao futuro. Juntando tudo, três perguntas nos ajudam a situar as coisas: (1) Que tipo de pensamento estou tendo? (2) Consigo identificar alguma emoção ou sentimento? (3) Que efeitos físicos identifico em meu corpo?
Reserve um tempo para si — Uma vez havendo identificado o que sente, é necessário gastar um tempo consigo mesmo(a). Melhor ainda se puder ser associado a algum tipo de movimento, como dança, atividade física leve ou caminhadas ao ar livre. É liberado ouvir alguma música enquanto isso. A ideia é sair um pouco “da cabeça” e se permitir dar um pouco mais de atenção ao corpo. Qualquer movimento conta, e não é preciso exagerar nisso.
Hidrate-se, calculando o consumo — Essa dica é tudo de bom, ainda mais em períodos de calor intenso. A intenção aqui não é tomar água “de vez em quando”, mas sim registrar, organizadamente, todo consumo de água do dia. O recomendado por especialistas é aproximadamente dois litros por dia. Existem muitos aplicativos que fazem esse tipo de medição; vale a pena usar um para não perder a conta. O objetivo disso é se permitir um registro de autocuidado por vez. Um pequeno lembrete para olhar às necessidades mais importantes do corpo.
Faça uma boa higiene do sono — Que tal investir em travesseiros e lençóis novos (e olhe que não ganho comissão nisso)? Quem sabe um aromatizador de ambientes para uso de óleos essenciais como lavanda e camomila? Essa dica implica em cuidar do espaço em que se dorme, favorecendo uma boa noite de descanso. Lembrando que mais importante do que o número de horas de sono é a qualidade dessas horas.
Organize um resumo de aprendizados do ciclo — Por último, permita-se um tempo para contemplar o período vivido, respondendo à pergunta: “o que de melhor aprendi em relação a meu comportamento e meus relacionamentos?” Esse tipo de questão vai permitir “levar consigo” os ganhos de um ciclo para o próximo.
É perceptível que essas dicas falam mais com o corpo do que com a mente. E a intenção é justamente essa. Depois de uma grande escalada, é necessário um tempo de recuperação, e a base para a mente saudável é um corpo bem cuidado.
Há sempre o desafio da segunda montanha, que nos espera na entrada de um novo ciclo. Mas a vantagem de termos conseguido escalar uma é que temos o histórico de haver conseguido uma vez! Contam que perguntaram uma vez a um alpinista: “mas por que escalar aquela montanha?” “É simples”, ele respondeu, “porque ela está lá”.
Por isso, quando estiver na base para a segunda escalada, lembre-se: se você estiver bem, conseguirá chegar novamente ao topo.
Este artigo foi originalmente publicado no LinkedIn por Alessandra Gonzaga, Ph.D., cofundadora da Conexão IE.
Leia o artigo original: https://www.linkedin.com/pulse/antes-da-segunda-montanha-alessandra-gonzaga-ph-d–t5ehf/ Continue a jornada: conheça a Academia IE e o podcast Arena IE.
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