outubro 1, 2023

Precisamos falar sobre as redes sociais

“Uma vida não refletida não vale a pena ser vivida.” — Sócrates

Imagine a seguinte situação. Em uma tarde de trabalho, você precisa finalizar uma apresentação importante, que demanda tempo de acesso a diferentes arquivos e informações da empresa. No meio do caminho da tarefa, você recebe um vídeo no WhatsApp sobre um tema muito interessante e, sem que perceba, acaba se interessando pelo próximo assunto de sugestão que estava na rede em que acessou o primeiro vídeo. Sem que se dê conta, assiste vídeo após outro, navega sobre alguns posts de conteúdos e publicidades, descobre status de colegas de trabalho até que, para seu desespero, percebe que uma hora inteira se passou. Sua apresentação permanece intocada e a tarde de trabalho está prestes a acabar. Você se sente muito mal e simplesmente deleta o aplicativo da rede social em que entrou de seu celular. E se pergunta se tem algo errado com você.

Esse caso hipotético aconteceu com um cliente meu e, de forma muito semelhante, com pessoas de meu convívio familiar. Tenho certeza de que não são casos isolados e falam sobre uma tendência crescente em nosso tempo: o vício e a compulsão em acessar redes sociais, que estão invadindo o espaço de trabalho.

Ansiedade, imersão de tempo acessando vídeos e posts, procrastinação, culpa, mais ansiedade. Esse é o ciclo interminável de sentimentos de quem é capturado pelo poder magnético das redes sociais, seja rolando para cima o feed (o popular scrolling), seja comentando postagens ou vendo os comentários (onde está o melhor!). Se algo assim está acontecendo com você, peço para que leia esse texto até o final. Sei que esse pedido é um dos múltiplos truques psicológicos utilizados para levá-lo na espiral de rolagem infinita para leitura e visualização de conteúdos, mas aqui o trago com a intenção de promover reflexão para gestão do tempo e da própria atenção, de forma a contribuir para interromper essa péssima maneira de lidar com a ansiedade.

Pensando no caso de meu cliente, fiz certa vez um passeio diferente por meu feed do Instagram. Decidi listar e catalogar o que apareceu. Pela ordem:

Celebridade ensina a fazer pinta com maquiagem;

Pessoa sentada em um sofá vende um curso para mudar sua vida (para saber sobre o que é preciso seguir acompanhando);

Influencer brasileiro ensina a guardar dinheiro para investir (esperei para ver: ele conta toda uma história para sustentar que tudo começa guardando R$ 100);

Médico compartilha notícia sobre os danos causados pelo microplástico na alimentação;

Um moço gringo beija freneticamente um gato amarelo, que o impede de prosseguir, colocando a pata direita em sua boca;

Propaganda para ensinar a vender de verdade (popular curso para vender curso);

Psicóloga faz post sobre um case em seu trabalho, homenageando uma data comemorativa;

Um cliente compartilha trecho de um evento em vídeo, com uma apresentação em palco ao fundo;

Instagram traz sugestões de pessoas que devo seguir;

Link patrocinado que ensina a fazer gatinhos nas pontas das unhas.

Pronto, aí se vão os primeiros dez posts de um mini-scrolling que duraria no máximo três segundos em uma rolagem e, caso eu visse todos os vídeos, poderia chegar a três minutos. O que dá uma ideia da densidade de conteúdo que um feed pode prover. Para ser fiel à rede em que o escrevo e prover um pouco mais de perspectiva a esse texto, decidi fazer o mesmo no feed de meu LinkedIn. Eis o que encontrei dessa vez:

Profissional posta foto da sacada e inicia texto explicando sua trajetória na cidade em que está atuando. Parece ser um texto bem emotivo;

Propaganda de uma empresa que presta serviços a RH, tendo no topo uma informação sobre conexões minhas que a seguem e número de seguidores dessa prestadora de serviços;

Foto de evento corporativo, compartilhado por uma pessoa que eu sigo;

Post sobre importância da empatia em CEOs, compartilhado por um colega americano no campo de inteligência emocional (adoro ver material do pessoal de fora para me manter atualizada no campo);

Post do LinkedIn explicando como manejar o conhecimento e engajamento para minha empresa;

Anúncio um tanto confuso de uma empresa da área financeira, sobre cuidado pessoal;

Post de parlamentar sobre uma rede que pretende ampliar recursos para professores e acesso à educação;

Textão de pessoa que sigo explicando origem etimológica de uma expressão popular;

Matéria compartilhada por cliente meu, sobre o tempo que os CEOs devem reservar para as pessoas;

Vídeo indicado por pessoa que sigo, de uma empresa de comunicação que, em post sobre storytelling, compartilhou um vídeo bastante famoso e emocionante, recebido por diversas fontes recentemente.

Ficou com vertigem com tanto assunto bagunçado? Isso porque estava escrito. Se fosse imagem, você nem perceberia. Nessa segunda sequência de posts, poderíamos novamente passar de cinco segundos a alguns minutos, a depender de quanto tempo usaríamos nos vídeos. Entenda-se que esse breve “passeio” seria um substrato bastante pequeno da quantidade de posts que poderíamos ver em um espaço maior, que chegasse, por exemplo, a uma hora. Atente-se que, a qualquer momento, um dos assuntos da lista poderia ser de meu interesse, o que levaria a um ciclo interminável e não previsível de acesso a possíveis novos conteúdos, me deixando presa em um looping de captura atencional.

Pesquisas sobre o tema dão a dimensão da intensidade do acesso a redes sociais: uma parcela significativa das pessoas checa seu status das mídias sociais durante o trabalho, muitos acessam as redes na hora do almoço, e boa parte acessa as redes de forma intermitente ao longo do dia. O tempo de acesso para muitos é alto, com uma fatia relevante das pessoas gastando mais de uma hora por dia acessando as redes sociais durante os próprios turnos de trabalho.

Pesquisas mais amplas sobre uso de redes sociais nos Estados Unidos apontaram tempo médio gasto em redes sociais próximo de duas horas e meia por dia. Ainda que os números variem entre estudos e países, podemos acreditar que o uso médio segue substancial, pelo menos para as pessoas que têm trabalho, vida familiar, necessidade de deslocamento com atenção ao trajeto.

Então, em uma “conta de padeiro”, tendo por base meus feeds do Instagram e LinkedIn, dá para dizer que em um único dia eu poderia acessar por volta de 500 posts, em conteúdos completamente aleatórios e com no mínimo um quarto disso em publicidade. E isso nem seria considerado vício, pois essa é uma média de baixa dispersão, há pessoas que passam muitas horas nas redes sociais, dentro ou fora do trabalho.

Outras estatísticas interessantes ajudam a entender motivos e crenças das pessoas em torno das redes: uma parcela dos trabalhadores usa as redes para fazer uma pausa mental, outra parte usa as redes para aprender sobre algo com que trabalha, e uma quantidade relevante de pessoas acredita que as redes atrapalham a produtividade.

Tendo entendido o vasto uso das redes, inclusive como válvula de escape no turno de trabalho, vale entender por que seu uso pode ser danoso para nossa saúde mental: simplesmente não estamos tendo tempo de digerir tudo o que consumimos on-line. Mais do que tempo de vida, isso está nos tirando capacidade de resposta aos desafios cotidianos, turvando nosso raciocínio, ampliando prazos de entrega, protelando sentimentos negativos e contribuindo, em última instância, com a própria exaustão.

A psicologia por trás da rolagem infinita

O vício em rolar notícias e acessar essa quantidade enorme de informações sobre conteúdos diversos tem bases psicológicas. A quantidade de conteúdo, a similaridade entre os temas e o quanto nos interessam são três fatores-chave para prender nossa atenção, uma vez que “um assunto leva a outro”, criando uma série de conteúdos para assistir, em sequências que entregam mais daquilo que desejamos ver.

A psicologia evolutiva explica esse comportamento. Há quem diga que a sedução do scrolling é a resposta de dopamina que ele fornece, pois de vez em quando achamos um “tesouro” em nossas rolagens, o que nos traz uma sensação de “a-há” que libera muita dopamina. Além disso, o cérebro busca previsibilidade, havendo uma recompensa quando a encontramos.

Outra explicação, da qual gosto ainda mais, é de que temos uma necessidade de completude, ou seja, precisamos ter a sensação de que vemos as histórias, os assuntos, os conteúdos da vida até o fim, que o digam as séries que maratonamos por culpa daquele “só vou esperar até ver o que acontece” que o próximo episódio promete trazer. Ainda outro apelo irresistível para olharmos tantos conteúdos aleatórios está na própria novidade. Nosso cérebro é treinado a procurá-las, a aprender com elas, a encontrar sentido dessa forma.

O que podemos fazer para não cairmos na toca do coelho das redes sociais?

Como todo movimento que leva em consideração nossa inteligência emocional, tudo começa com a tomada de consciência, o que significa começar a quantificar nosso próprio comportamento digital. Isso implica em ter clareza do número de horas gasto nas redes, especialmente no celular. Diversos aplicativos ajudam nisso, muitos telefones já vêm com eles instalados. Mais do que o número de horas, no entanto, vale fazer uma conta por alto do número de conteúdos acessados, entre vídeos, posts e outros textos, e o percentual de publicidade a que estamos expostos.

Entendida a intensidade de nossa interação nas redes, é hora de compreendermos nosso padrão de acesso, exatamente como os algoritmos das redes fazem. Uma prática possível aqui é fazer listas de nossos feeds (até dez posts por lista, como em meus exemplos), de forma a compreender que tipo de conteúdo acessamos, ou seja, o que realmente nos interessa. Esse segundo passo permite que possamos ir para a terceira prática, que tem a ver com estabelecermos regras para nosso comportamento e monitorarmos nosso uso das redes, o que muitas vezes requer algum tipo de acompanhamento, já que é difícil modelarmos nossas próprias respostas.

Uma última dica é acessar conteúdos de consumo mais lento, ao estilo de podcasts, como o Arena IE, e artigos mais longos como este. Isso tira o efeito de uma rolagem não intencional ou aleatória, contribuindo na promoção e assimilação de significado.

Finalizo esse texto com um convite para encararmos de frente nossas necessidades evolutivas de completude, novidade e previsibilidade, desafiando a ideia de encontrarmos “a grande entrevista”, o “super guru”, a “incrível novidade”, e trazendo a proposta de refletirmos um pouco mais sobre cada conteúdo que captura nosso olhar, produzindo sentido. Dá para fazer isso sem pressa, com leveza. Afinal, em termos de desenvolvimento e aprendizagem pessoal, a melhoria é contínua. E como diz o ditado italiano, piano, piano, si va lontano. Enquanto isso, vamos dar um pouco mais de presença ao passar de nosso tempo.

Este artigo foi originalmente publicado no LinkedIn por Alessandra Gonzaga, Ph.D., cofundadora da Conexão IE.

Leia o artigo original: https://www.linkedin.com/pulse/precisamos-falar-sobre-redes-sociais-alessandra-gonzaga-ph-d-/ Continue a jornada: conheça a Academia IE e o podcast Arena IE.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *