junho 4, 2023
À deriva no oceano virtual
“O segundo dilúvio não terá fim. Não há nenhum fundo sólido sob o oceano de informações. Devemos aceitá-lo como nossa nova condição. Temos que ensinar nossos filhos a nadar, a flutuar, talvez a navegar.” — Pierre Lévy, Cibercultura
Numa manhã dessas, no intervalo de uma série de treinamentos on-line, parei para acompanhar minhas redes sociais. Percebi uns quatro artigos novos em newsletters do LinkedIn, dezenas de vídeos de pessoas dando pequenos conselhos de vida no Instagram, muitas propagandas e até uma aluna ensinando a fazer uma tapioca com ovo, num vlog de seu café da manhã. Aliás, essa é uma tendência no Instagram: pessoas fazendo vlogs de algum trecho de sua rotina, com aquelas estranhas vozes mecânicas narrando o que fazem, o que deve ser coisa de algum aplicativo.
Me foi mais uma vez escancarado o fato de que estamos vivendo a era do excesso de informações, da hipérbole de estímulos, do exagero de exposições. E que isso é bastante cansativo. E causa muita ansiedade. Nos cursos que tenho conduzido sobre Carreira e Inteligência Emocional, temos falado dos sentimentos em torno de um dia de trabalho: a sensação de terminar a tarde “devendo” para alguém, a incapacidade de planejar o dia, o excesso de interrupções que chegam por WhatsApp, plataformas corporativas, e-mail, telefone… de que estamos todos nos demandando muito, conectados demais e estranhamente com a sensação de que é preciso produzir mais, interagir mais, dar mais dicas, comentar mais. O princípio da adição, do vício. O que nos deixa bastante atordoados.
Vem à memória uma aula de comunicação que ministrei há uns dez anos, em que falava sobre as profecias que Pierre Lévy fez, na virada do milênio, sobre a internet e o cyberespaço, como se chamava esse mundo de trocas virtuais que temos hoje. Ele anunciava que teríamos um segundo dilúvio, e dessa vez estaríamos submersos num oceano de informações. E que seria preciso saber navegar nisso, saber que tipo de mensagem queremos lançar no mundo e de quais mensagens nos abasteceríamos, enquanto flutuamos.
Vale lembrar que no começo do milênio a internet era apenas uma promessa, ninguém sabia ao certo onde iria levar. A velocidade de conexão era lenta e, a cada entrada na rede, era preciso esperar “completar a ligação”. Tínhamos sites estáticos, com apenas textos e imagens, comunicação por e-mail e mensagens de texto ou frases curtas por mensageiros instantâneos que marcavam um tempo pré-redes sociais. Vídeos ainda eram muito pesados, e a única forma de conectarmos nossos celulares às pessoas era por ligação ou mensagens de SMS. É interessante fazer esse tipo de mergulho no tempo, porque cá estamos nós, duas décadas e pouco depois, fazendo vlogs de nosso café da manhã, sem que sequer possamos ganhar algum dinheiro com isso.
Quis ter uma noção do volume de nosso oceano e por isso fui atrás de dados sobre o assunto. Peço que você me acompanhe e tente olhar para o horizonte, ou pode ficar mareado.
No Instagram, dezenas de milhões de fotos são postadas a cada dia, e existem bilhões de curtidas também diariamente. Há grandes influenciadores no site com um enorme número de seguidores, chegando na casa dos milhões. Também a cada minuto, centenas de milhares de novos Stories são postados. O YouTube tem hoje bilhões de visualizações por dia e uma audiência maior do que as maiores emissoras de TV dos EUA juntas. Por dia, bilhões de vídeos são vistos, chegando a centenas de milhões de visitantes únicos ao site por mês. A cada minuto, temos centenas de horas de vídeos sendo postados. Basta multiplicar isso pelos minutos de um dia inteiro para termos noção do volume de informações em vídeo que temos à disposição.
Uma outra reminiscência do passado, que ajuda a explicar a maresia de nosso tempo, vem do final dos anos 70, com a música “Message in a Bottle”, do Police, em que um homem solitário anunciava ao mundo uma mensagem de socorro “postada” em uma garrafa e jogada ao mar. E depois se surpreendia, em uma manhã caminhando na praia, com centenas de bilhões de garrafas que ali chegavam também. Porque ele não estava sozinho em sentir-se sozinho.
Only hope can keep me together / Love can mend your life / Or love can break your heart / I’ll send an S.O.S to the world / I hope that someone gets my message in a bottle, yeah (…) Walked out this morning, I don’t believe what I saw / Hundred billion bottles washed up on the shore / Seems I’m not alone at being alone / Hundred billion castaways, looking for a home.
“Parece que não estou sozinho em estar sozinho / Cem bilhões de náufragos, procurando um lar.” Esse trecho nos coloca todos na mesma página. Ou barco.
E como acaba mais essa mensagem na garrafa? Com o convite para que a gente pratique um pouco mais de tempo off-line. Porque ainda existe muito para se explorar em terra firme, e porque temos interlocutores reais em nossos relacionamentos profissionais e pessoais. Há também a necessidade de escolher com consciência, ganhando controle voluntário sobre o rolar infinito do feed de notícias, deixando de olhar por tantas vezes, em tantos momentos, atualizações de redes sociais.
Se existe algo positivo em termos tantas mensagens por aí? Claro que sim. Vivemos uma época em que é possível encontrar uma nova perspectiva para ler nossa realidade com o clicar de uma busca. Em que é possível achar respostas para nossas indagações internas com base científica e a partir dos melhores pensadores do mundo. Tudo é possivelmente muito interessante e útil, desde que possamos dar tempo para cada reflexão falar com nossa realidade interior e exterior. Só assim cada pedido de SOS pode ser atendido.
Este artigo foi originalmente publicado no LinkedIn por Alessandra Gonzaga, Ph.D., cofundadora da Conexão IE.
Leia o artigo original: https://www.linkedin.com/pulse/%C3%A0-deriva-oceano-virtual-alessandra-gonzaga-ph-d-/ Continue a jornada: conheça a Academia IE e o podcast Arena IE.
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