dezembro 19, 2022
Quanto vale vencer uma Copa?
Uma aula sobre Inteligência Emocional e Team Building, parte de uma formação de diversos encontros, havia começado com uma pergunta: seria a Copa do Mundo capaz de unir torcidas que se dividiram a partir de uma disputa eleitoral acirrada, e quem sabe reconstruir um senso de identidade nacional? A Copa terminou e essa contribuição não pôde ser testada. Porém as lições a respeito do trabalho em time permanecem, e nos questionamos: haveria alguma contribuição para nós, a partir do resultado de nossos vizinhos argentinos, campeões do mundo na Copa do Catar de 2022?
Na turma de estudo, havia dois gestores argentinos e um terceiro, brasileiro, alocado em uma unidade industrial da Argentina, além de gestores de diferentes unidades no Brasil. No dia seguinte ao título mundial, foi natural falarmos sobre o desenrolar da Copa e as imagens que ficaram marcadas na retina de todos após a partida final.
As fotos que selecionei falam um pouco sobre as lições aprendidas e compartilhadas nessa classe, e nos convidam a visitar algumas competências socioemocionais (ou a falta delas) nos profissionais envolvidos naquela final. Ao final de cada exemplo, trago contribuições da turma a respeito do que tiramos daquele momento, que valem para todos nós em situações de grande tensão emocional e definição do trabalho de uma equipe.
A entrevista do técnico Scaloni logo após a vitória
Enquanto o técnico Scaloni falava com a imprensa após o título, percebia-se que ele chorava, manejando segurar o filho menor, lembrar do time, repassar os melhores momentos, agradecer o apoio da família e dirigir-se à nação. Tudo junto: discurso, sentimentos, postura, filho no colo. Não é tarefa fácil de se fazer e revela uma grande força moral, que o técnico demonstrou durante toda sua participação na Copa.
Exemplo a tirar: “Muito do sucesso desse time veio dessa coordenação. Ele estudava os adversários e a cada jogo compunha um time diferente. Sua análise técnica não era maior que a abordagem afiliativa”, comentou um participante. “Ele parecia conseguir ser ao mesmo tempo tático e afetuoso. Grande liderança, soube inovar, colocando cada pessoa no lugar certo. Acertou a mão”, trouxe um dos gestores argentinos.
Messi como craque com bom humor e leveza
Muitos foram os momentos de grandeza e humildade de Messi durante a Copa. Um dos alunos lembrou a interação dele com o técnico, de como suas lideranças se complementavam, fora e dentro do campo. Como da vez em que Scaloni se dirigiu a Messi e disse: “olha o peso que a gente tem nas costas”, ao que ele o abraçou e devolveu: “estamos preparados, vai dar certo”. O beijo na taça mostra a leveza de quem sabe que já chegou lá e se permite um momento de alegria, um carinho com a vitória, aquele bem-estar e conformidade com a posição de sucesso e liderança que aprendeu a ocupar.
Exemplo a levar: um craque pode se destacar sem soberba. A experiência que pode unir um time inteiro. Garra, dedicação, trabalho de líder, humildade.
A cobrança de pênaltis iniciada pelos craques
O momento era de pura tensão, o peso dos primeiros pênaltis da decisão era inegável. Além da importância de dar o início da rodada de pênaltis aos mais fortes (até para permitir que se avance ao final), houve um detalhe na forma como Messi bateu seu pênalti que pode ter feito muita diferença, sua bola entrou lenta e suave, quase como um desaforo, e foi evidente como isso desestabilizou emocionalmente o goleiro francês. Pode ter sido um detalhe, mas fez diferença.
Exemplo a tirar: momentos de grande decisão requerem um reforço em motivação e emoções positivas. Nesse sentido, os elementos mais fortes de um time precisam estar em evidência, reverberando suas atitudes aos demais.
Mas o que faltou ao Brasil?
Algumas lições foram um pouco mais amargas, como as que tivemos na comparação com a equipe brasileira. “Diferente do Brasil, ninguém se preocupou em pintar cabelo, fazer dancinha ou criar vilões e mocinhos entre os jogadores”, comentou um gestor brasileiro. O técnico argentino estava sempre presente, nos momentos de alegria e de tensão. A turma lembrou também como a imprensa cria heróis e destrói reputações, escolhe externalidades que em nada ajudam o esporte. Tudo isso respalda a importância da equipe se “blindar” do barulho que vem de fora, da torcida e da mídia, podendo trabalhar as relações e a técnica que faz diferença na hora do desempenho. Vale o mesmo nas corporações: diminuir o ruído entre áreas, trabalhar a coesão interna e a comunicação assertiva pelo bem de todos.
Em resumo? A Argentina soube adaptar sua equipe a cada partida, soube construir o time. Em nosso papo a respeito, surgiram lembranças melancólicas da última vez que o Brasil conseguiu isso, alguém lembrou a Copa de 94, em que a seleção entrava de mãos dadas no campo. Nesse sentido, uma das fotos mais significativas da final de 2022 não depende de legenda: mostra a coesão do grupo campeão.
No geral, o que se tira desse processo é que um time precisa de pelo menos três grandes elementos socioemocionais para chegar a performar: uma coordenação inspiradora, e no futebol isso implica também a liderança em campo, atuando em cooperação com as demais lideranças formais extracampo; sinergia emocional, a partir de uma liga que conecte as diferentes individualidades e forme a conexão coletiva dos indivíduos do grupo, sem panelinhas ou grupinhos paralelos; e valor compartilhado pelo time no propósito a ser atingido, nesse caso, em serem campeões do mundo.
Havia jogadores em diferentes momentos de carreira naquele elenco, do jovem Thiago Almada, com apenas 21 anos, ao veteraníssimo Messi, já com 35, eleito sete vezes o melhor do mundo pela FIFA. Para todos eles, a conquista do título parecia ter o mesmo valor: o de poder ter feito parte de um time vencedor, que será lembrado como tal. Na derrota temos o hábito de apontar culpados aqui e ali, mas a vitória sempre é da equipe.
Foi isso que se viu no time campeão, que será sempre lembrado como a seleção argentina da Copa de 2022. As crianças e torcedores argentinos guardam de cor o nome de todos os jogadores daquele elenco. Nesse sentido, o espírito de equipe demonstrado na trajetória do grupo argentino na Copa, de time desacreditado até chegar a campeão do mundo, deixa suas lições a todos nós.
Este artigo foi originalmente publicado no LinkedIn por Alessandra Gonzaga, Ph.D., cofundadora da Conexão IE, como análise a partir da Copa do Mundo de 2022, no Catar.
Leia o artigo original: https://www.linkedin.com/pulse/quanto-vale-vencer-uma-copa-alessandra-gonzaga-ph-d-/ Continue a jornada: conheça a Academia IE e o livro Conectados: Competências Socioemocionais na Era do Caos.
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