janeiro 27, 2022

Ares de um novo espírito do tempo

“Mesmo um gênio não pode resistir ao Zeitgeist, o ‘espírito de seu tempo’.” — Viktor Frankl

A contagem do tempo vinha se alterando: de semanas para meses, de meses para anos. Resistimos a 2020, persistimos em 2021 e abrimos 2022 ainda com dominância da Covid-19 e suas variantes no noticiário. Ficaríamos nesse insistente looping?

Parecia que não. Uma lufada de novo ar começava a chegar ao mundo, de forma gradual, porém já perceptível. Na Inglaterra, medidas foram anunciadas naquele período, flexibilizando exigências como passaportes de vacinação para entrada em locais e eventos, e o uso obrigatório de máscaras faciais em espaços públicos. Na Espanha, viajantes totalmente vacinados de diversas partes do mundo passaram a poder entrar para férias sem prova de teste negativo. Na Bélgica, começava também uma redução nas medidas contra a Covid-19, com anúncio de suspensão da proibição de viagens não essenciais a outros países da União Europeia.

Aqui no Brasil, mantínhamos uma certa defasagem em relação ao hemisfério norte. O aumento de casos da variante Ômicron ainda trazia muita apreensão nas organizações, e seguiam medidas restritivas na maior parte das cidades e estados, começando inclusive uma certa ansiedade em relação ao retorno às aulas das crianças e adolescentes.

Porém, diferentemente do ano anterior, parecia que mesmo aqui havia algo novo acontecendo e, ainda que tivéssemos que conviver com diferentes variantes e doses de vacina, caminhávamos, dessa vez, em direção a um mundo mais previsível, mais manejável. Apresentava-se aos poucos o novo espírito do tempo, o zeitgeist da era pós-Covid-19. Algo que especialistas em marketing já chamavam de big shift, ou a grande virada, já que os hábitos das pessoas começavam a mudar, junto com as alterações nas medidas restritivas.

Assim é que, nas empresas, os anúncios sobre os futuros protocolos sanitários ou regimes de trabalho traziam reações emocionais diversas, oscilando entre esperança, alegria, frustração, medo e ansiedade. Após tanto tempo de solicitação de adaptação a novas condições de trabalho, as pessoas estavam saturadas em receber novas notícias sobre variantes, ou qualquer outra letra grega que viesse a surgir no horizonte.

Parecia que, enquanto os ventos de mudança sopravam, muitos ainda não sabiam bem como reagir aos novos ares. Talvez tenhamos ficado tanto tempo acuados e isolados, que entramos no modo “freeze”? Nem lutamos, nem corremos: apenas ficamos paralisados. Em conversas com RHs e gestores daquele momento, percebiam-se dois grandes movimentos afetivos acontecendo. O primeiro, um sentimento de cansaço: das idas e vindas da ação remota para a presencial, das incertezas em relação a toda e qualquer ação de melhoria (pois não se sabia por quanto tempo as medidas valeriam) e até do ambiente político, que prometia um ano e tanto.

O segundo movimento era de uma tímida esperança. “Parece que ainda temos mais um ano de transição, mas aos poucos está diferente”, disse uma gestora naquele período. Existia um desejo de retomar a vida, do jeito que era possível, tocar em frente.

Essa dualidade de sentimentos fazia surgir diferentes correntes e tendências. Elenco aqui as três mais comuns, no que compete à área de gestão de pessoas nas empresas daquele momento.

Respiro presencial — Embora muitas organizações ainda optassem por realizar treinamentos remotos, por conta do custo ou da facilidade considerando as medidas de afastamento, já se percebia um aumento na busca por workshops e vivências presenciais. Isso se devia a diversos fatores, desde saudades do contato com as pessoas até o esgotamento da capacidade de atenção em reuniões virtuais. Havia um abuso perceptível do uso de telas naquele período. Tornava-se necessário e revigorante partilhar um pouco de espaço junto com os colegas.

Ainda um tanto remoto — Em relação ao trabalho, paradoxalmente, as pessoas tendiam a não preferir mais o formato puramente presencial, salvo uma minoria mais resistente. É o que apontou uma pesquisa da PWC pelo Council on Foreign Relations daquele período, que apresentava uma distribuição muito estratificada da preferência das pessoas, entre remoto, presencial, híbrido ou parcialmente remoto. O que havia acontecido? Parecia que as pessoas perceberam “mais tempo de vida” no trabalho em casa, ainda que tivessem mais dificuldade para se concentrar (a partir das interrupções domésticas). Entre a preparação do almoço, a retirada de roupas da máquina, o cuidado com os temas de escola do filho e a preparação de um cafezinho, o trabalho continuava acontecendo. Mas, enquanto isso, todas as demais áreas da vida puderam florescer.

Empatia com determinação — Uma combinação não muito usual se tornava necessária na relação entre líderes e liderados. De um lado, as pessoas requeriam um alto nível de empatia, uma vez que todos já estavam entregando um tanto ou muito além de suas capacidades. Por outro lado, esperava-se a determinação de agir quando fosse possível e de agilizar processos de mudança e adaptação sempre que necessários, pois havia uma crescente impaciência em relação a mais adiamentos.

Haja inteligência emocional para lidar com tudo isso.

Este artigo foi originalmente publicado no LinkedIn por Alessandra Gonzaga, Ph.D., cofundadora da Conexão IE, como reflexão sobre a retomada gradual pós-pandemia e as tendências emergentes de gestão de pessoas, em janeiro de 2022.

Leia o artigo original:https://www.linkedin.com/pulse/ares-de-um-novo-esp%C3%ADrito-do-tempo-alessandra-gonzaga-ph-d-/ Continue a jornada: conheça a Academia IE e o livro Conectados: Competências Socioemocionais na Era do Caos.

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