dezembro 8, 2021
O dia depois da marmota
“Nossa maior glória não é resistir às quedas, mas sim nos erguermos a cada vez que caímos.” — Confúcio
“Ninguém aguenta mais”. Impressionante a frequência com que tenho escutado essa frase. Significa muitas coisas, a principal delas que estamos precisando de um final de ciclo. De renovação. De esperança. E é sobre isso que quero falar.
Muitas vezes, em períodos difíceis, parece que ficamos presos no dia da marmota. Me refiro à analogia do filme O Feitiço do Tempo, em que o personagem Phil, vivido por Bill Murray, acordava sempre no mesmo dia, preso à realidade de uma pequena cidade no interior da Pensilvânia, na qual uma marmota prediria o quão rigoroso seria o inverno. E, enquanto isso, no nosso próprio feitiço do tempo, o que fazer com o mundo interno, esse que fica carente de ar, de liberdade, de abraços apertados, de jornada leve e sem medo? Como comemorar a vida que segue?
Tem sempre uma turma chamando por resiliência, no espírito de que é preciso continuar. De fato, é uma vontade muito justa. Por vezes, no entanto, confundimos resiliência com resistência, que vem a ser a capacidade de suportar a adversidade, de não se deixar abater diante dos desafios. Mas o que é então resiliência?
resiliência substantivo feminino
física: propriedade que alguns corpos apresentam de retornar à forma original após terem sido submetidos a uma deformação elástica.
figurado: capacidade de se recobrar facilmente ou se adaptar à má sorte ou às mudanças.
Ou seja, resiliência diz respeito ao quão rápido nos recuperamos das dificuldades da vida, ou, ainda melhor, de quanto tempo levamos para voltar a nos sentir bem. E nesse sentido, o personagem do filme da marmota nos traz uma lição importante: mais do que simplesmente existir, é preciso aperfeiçoar nossos dias.
Por muitos anos se considerou que a resiliência era um atributo de personalidade. Porém, segundo a pesquisadora e professora Bridget Grenville-Cleave, existem estudos apontando que a resiliência pode ser aprendida.
Seguindo a linha da aprendizagem emocional, os professores Rick Hammet, Darwin Nelson e Gary Low, do EITRI, Instituto de Treinamento e Pesquisa em Inteligência Emocional do Texas, que representamos aqui no Brasil, desenvolveram uma avaliação de resiliência, o RESAP®. A escala considera cinco pilares de competências que incluem: a “flexibilidade cognitiva”, ou ver as coisas de diferentes pontos de vista; dispor de uma “rede de suporte” para enfrentar as dificuldades; capacidade de “atualização” de nós mesmos, nos renovando frente às dificuldades que passam a ser encaradas como oportunidades de aprendizado; capacidade de “cultivar emoções positivas” para restabelecer nossa energia frente aos desafios; e “autocuidado”, que inclui diversos aspectos ligados a nossa capacidade de assumir a responsabilidade por cuidarmos de nós mesmos. Isso é fundamental: quando em zona de turbulência as máscaras de oxigênio caem do teto, primeiro colocamos a máscara em nós antes de tentarmos ajudar aos outros.
Momentos de grande adversidade coletiva costumam ser, para todos nós, um campo de provas para a resiliência. E sempre sobram lições: descobrimos capacidades de adaptação que não sabíamos que tínhamos, aprendemos a nos acalentar mesmo de longe, a considerar a vida com mais zelo, a amar os que estão próximos e dizer isso abertamente, a qualquer hora do dia.
Há então uma relação entre a resiliência e a forma como levamos nossa rotina. A maneira como encaramos os desafios faz mais diferença do que as efetivas soluções que encontramos. Para o psicólogo Rick Hanson, existe uma inter-relação estreita entre resiliência e o bem viver:
“A verdadeira resiliência promove bem-estar e uma sensação intrínseca de felicidade, amor e paz. Quando internalizamos experiências agradáveis, desenvolvemos potencialidades interiores que, por sua vez, nos tornam mais resilientes. Ou seja: bem-estar e resiliência estimulam um ao outro, num círculo virtuoso.”
Mas será que existe uma forma de efetivamente treinarmos nossa resiliência? Para o neurocientista Richard Davidson, a resposta é sim, e passa por momentos de meditação e compaixão. Pela meditação, treinamos nossa atenção e, dessa forma, aprendemos a fazer contato com os sentimentos negativos para, em seguida, deixá-los. Já a compaixão contribui para nossa resiliência porque nos treina a lidar com a dor nossa e de outras pessoas de maneira mais amorosa. Essa, aliás, é uma ótima definição de compaixão, dada pelo professor Rick Hanson: a capacidade de ver a dor e buscar aliviá-la de alguma forma.
Voltando ao início de nossa conversa, a personagem Phil só se vê livre do feitiço do tempo quando aprende a desenvolver empatia pelos outros, o que possibilita amar a si mesmo, respeitar as pessoas da cidadezinha peculiar que antes lhe pareciam grotescas e presas a um ritual sem sentido, e apaixonar-se verdadeiramente por sua colega Rita, tornando-se uma nova pessoa.
Vale o mesmo para nós. É importante olharmos para o passado apenas para sabermos o que dele levamos e o que descartamos. Sempre uma boa época para se fazer uma faxina emocional.
Que possamos buscar um novo olhar para nossa realidade, vendo além das dificuldades do momento e buscando o bem-estar, o cuidado pessoal, o estado de presença. Para que cuidemos uns dos outros. E continuemos resilientes. Um dia de cada vez.
Este artigo foi originalmente publicado no LinkedIn por Alessandra Gonzaga, Ph.D., cofundadora da Conexão IE, adaptado do episódio homônimo de “A Voz do Self”, no canal Spotify da Conexão IE.
Leia o artigo original: https://www.linkedin.com/pulse/o-dia-depois-da-marmota-alessandra-gonzaga-ph-d-/ Continue a jornada: conheça a Academia IE e o livro Conectados: Competências Socioemocionais na Era do Caos.
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