dezembro 1, 2021
Nas águas de Narciso
Como cultivar uma autoestima saudável em um mundo de comparações?
O podcast Arena IE já teve, entre seus formatos, o programa “A Voz do Self”. Self é o produto de nosso processo de individuação, a integração de nossa personalidade. Nada a ver com a selfie, aquela foto de nós mesmos tão representante de nosso tempo que, aliás, combina mais com uma necessidade do Ego. Mas não vamos falar de psicanálise. Quero comentar sobre os insights que tive a partir de algo que ocorreu em uma aula in-company de Inteligência Emocional.
Foi corajosa a revelação de uma aluna, que consentiu que eu contasse seu exemplo aqui. Estávamos falando de vampiros emocionais, pessoas que, consciente ou no mais das vezes inconscientemente, sugam nossa energia e bem-estar a partir da manipulação emocional, e ela declarou: “Me vejo às vezes como narcisista, como faço para sair disso?” Puxa, quem nunca? Para responder essa pergunta, precisamos de algumas ponderações, que trago para nós neste artigo. Para entender por que e como podemos nos afastar de comportamentos narcisistas, precisamos dar um passo atrás, para entender a questão sob a luz do tempo que vivemos.
Mais do que explorarmos um transtorno de personalidade, aqui vamos explorar as arestas que separam a saudável atenção e amor a si mesmo da patológica condição de se colocar acima das outras pessoas e, assim, causar dano aos que nos cercam.
Todo mundo conhece a lenda de Narciso, o jovem que se afogou após cair no rio que refletia sua imagem. Vejam, não foi o amor-próprio de Narciso que lhe causou a morte, foi sua vaidade, sua paixão pela imagem projetada de si mesmo, refletida na água. É fácil confundir, mas a projeção é o centro da análise. Assim é que o amor-próprio, no sentido de uma estima que vem do Self, poderia na verdade salvar Narciso de si mesmo.
Kristin Neff, professora de psicologia da Universidade do Texas, lembra que o amor-próprio, por si só, não é o problema do narcisismo, afinal é melhor sentir-se digno e valioso do que inútil e insignificante. Já inflar o ego, exagerando na dose, e arrogar-se ser melhor que os outros, não é bom. O problema é que a maioria das pessoas que falam sobre autoestima não distingue entre ambos. Dois fatores diferenciadores são a comparação e a busca por validação. Uma coisa é gostar de si, outra é precisar olhar para o lado, se comparar, e ver alguém em desvantagem para gostar de si. Já em relação à validação, uma coisa é agradecer por avançar nos desafios da vida, outra é precisar de palmas para acreditar que chegou lá. Por isso o problema não é elogiar as pessoas, mas sim fazer isso por qualquer motivo, deixando de valorizar o que realmente importa: a forma como alcançamos nossos objetivos e quem nos ajudou a chegar lá.
Nessa direção, Alexander Lowen, renomado médico e psicoterapeuta americano, nos lembra que o narcisismo descreve uma condição psicológica e também uma condição cultural. Psicológica, no sentido de que individualmente essa personalidade coloca grande investimento em si, às custas do Self. Diz ele:
“Os narcisistas estão mais preocupados com o modo como se apresentam do que com o que sentem. De fato, eles negam quaisquer sentimentos que contradigam a imagem que procuram apresentar.”
Mas a condição do narciso é também cultural, a partir da ausência de interesse em outras pessoas e na exacerbação de bens, títulos, conquistas pessoais, tudo que o dinheiro e a fama podem comprar. Parece com uma timeline do Instagram? Sim, muito. Vivemos numa sociedade em que é mais fácil apresentar um comportamento narcisista. E assim, comparando vidas e buscando validação, navegamos em águas narcisas, mergulhamos todos nós no rio que levou o jovem vaidoso e egoísta. Como então escapar da corrente e ainda tirar o melhor de nossa época, sem deixar de aproveitar os benefícios que a tecnologia das redes sociais pode nos dar?
Penso que o alarme pode ser ligado a partir do tempo e da qualidade de nossas interações sociais, assim como de nosso efetivo interesse em fazer algo de bom de nossos dias, em contribuir de alguma forma. Fazer parte das redes e compartilhar nossas preferências faz parte do código cultural de nosso tempo e significa, para muitos, uma contribuição ao próprio sustento. É ruim quando a foto não curtida nos dói na alma, quando nos sentimos menos a partir da conquista de outros, quando sofremos pela validação das pessoas, quando deixamos de realizar pelo outro, à custa de nossa própria sombra.
E nesse ponto fica um pouco confuso, afinal: faço por mim ou faço pelo outro? Devo então colocar os outros acima de mim? Certamente que não. Porque disso podem sair distorções: primeiro, eu validar meu valor próprio pela régua dos outros. E eis que diminuo meu valor quando não gostam de mim. Segundo, eu passo a considerar mais as conquistas do outro do que as minhas. E nisso posso cair em inveja ou frustração com minha própria história e contexto, ou cair na armadilha de tentar ostentar uma imagem que não reflete minha realidade, até mesmo levando alguns a gastos além de sua capacidade.
O mais importante não é por quem você faz, mas sim por quais valores se move e com o que efetivamente se compromete. É o Self, não o ego, que guarda nossos valores e sentimentos mais preciosos. Assim é que a autoestima, no sentido de investimento de amor em nós e em quem amamos, pode nos salvar de nós mesmos.
O jornalista David Brooks, em seu livro A Segunda Montanha, descreve a trajetória de uma vida humana como a escalada de duas montanhas. Ao subir a primeira montanha, gasta-se muito tempo na construção de nossa individualidade, nosso ego seguro. Nesses anos, estamos preocupados em construir nossa reputação, buscando validar nossa trajetória com base no que a cultura direciona: ter sucesso, falarem bem de você, ser convidado para círculos sociais, adquirir posses materiais, e por aí vai. Toda essa conquista nem sempre nos traz a felicidade e, em algum ponto, somos chamados a dedicar nossa vida a conquistar uma satisfação moral, um sentimento que nos permita alinhar nossa trajetória de vida a algo que consideremos essencialmente bom, de interesse da alma. Nesse ponto, iniciamos a escalada de uma segunda montanha, que é, em resumo, a subida do Self.
Para encerrar a questão e separar desejo egóico de comparação ou validação de algo que realmente necessitamos para nossa evolução e individuação, trago o psicólogo Robert Leahy:
“Progredir na vida envolve fazer coisas que não queremos. A questão não é o que você quer fazer. A questão real é o que você está disposto a fazer. Progresso significa fazer o que você não quer para que possa obter o que deseja.”
Este artigo foi originalmente publicado no LinkedIn por Alessandra Gonzaga, Ph.D., cofundadora da Conexão IE, adaptado do episódio homônimo de “A Voz do Self”, no Spotify da Conexão IE.
Leia o artigo original:https://www.linkedin.com/pulse/nas-%C3%A1guas-de-narciso-alessandra-gonzaga-ph-d-/ Continue a jornada: conheça a Academia IE e o livro Conectados: Competências Socioemocionais na Era do Caos.
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