novembro 24, 2021
Com que humor eu vou?
E se nossas emoções fossem como uma roupa, que a gente veste para diferentes situações da vida?
Anos atrás, quando estava conduzindo minha pesquisa de mestrado em psicologia clínica, recebi uma pergunta da banca que levei anos para saber responder: afinal, são nossas emoções que antecedem nossos pensamentos, ou são os pensamentos que geram emoções?
A verdade é que eles estão ligados, sendo feitos do mesmo material: nossa leitura da realidade. Porém, como estudiosa há anos das emoções, posso “puxar a brasa” para o lado da IE e dizer que para cada emoção existem formas análogas de pensamento, como bem nos lembra António Damásio.
E por que isso importa saber? Porque podemos ser pegos de “gaiato no navio”: experimentando emoções que não são o melhor match para o que estamos vivendo. E isso é tudo menos viver de forma emocionalmente inteligente.
Sim, nossas emoções são como filtros e estão no centro de nossa interpretação e nossa ação diante da realidade. Quais emoções? Todas elas, nas suas centenas de combinações. Mas elas partem de cinco raízes emocionais universais, também conhecidas como primárias: tristeza, medo, raiva, nojo e alegria. Sim, as mesmas do filme Divertidamente, aliás super recomendado em nossos cursos da Conexão IE.
Quem assistiu a esse filme aprendeu que mesmo o medo, a raiva ou a tristeza têm seu papel e sua função. A conexão com nosso mundo emocional nos ajuda a ficarmos menos vulneráveis à negatividade e mais rapidamente nos livrarmos de sentimentos ruins. Ou seja, não é ignorando que elas existem ou calando-as, porque isso é impossível e não faz bem a ninguém.
Susan David compara emoções a informações. Olha que lindo esse trecho de seu livro Agilidade Emocional:
“Enquanto navegamos pela vida, nós, humanos, temos poucas maneiras de saber que rumo tomar ou o que vem pela frente. Não temos faróis que nos mantenham afastados de relacionamentos problemáticos. Não temos vigias na proa ou radares na torre atentos a possíveis ameaças submersas que podem afundar nossos planos de carreira. Em vez disso, temos nossas emoções, sensações como medo, ansiedade, alegria e euforia, um sistema neuroquímico que evoluiu para nos ajudar a navegar pelas complexas correntes da vida.”
É importante saber o valor de cada emoção. Conhecendo o que cada uma tem a nos dar, podemos tirar o melhor delas, aprendemos a usá-las e regulá-las a nosso favor:
A tristeza nos torna mais atentos aos detalhes, nos permite lidar com nossas perdas e questões importantes para nosso desenvolvimento, e até mesmo nos permite ser empáticos com outras pessoas. Por isso é ideal usar a tristeza para ouvir a dificuldade de outra pessoa. Sempre com moderação, ou vamos chorar junto.
A raiva é a emoção para nos tirar da cadeira e tomar uma atitude. Logo em seguida já não é mais útil, mas serve muito bem como isso mesmo: energia para desbloquear o que nos atrapalha. Cuidado para não exagerar na dose, porque um ataque de raiva pode destruir em segundos o que levamos anos construindo.
O medo, por sua vez, é a emoção para garantir prudência, planejamento, cautela. Quando é demais, o medo nos faz errar no tom, sair ligeiro, não interpretar direito a realidade. Ele pode nos confundir e paralisar.
O nojo é a emoção clássica de quem tem muitas aversões ao que lhe é diferente ou estranho. Vemos isso nas crianças hesitando em descobrir suas preferências a novas variedades de comida. Cai bem quando precisamos lembrar aos outros do que gostamos, vale muito para delimitar o que é nosso e o que é do outro. Cautela é preciso para usá-lo quando a ideia é compartilhar algo novo.
Aliás, para o novo, nada melhor do que a alegria, a emoção que nos abre para a experiência e nos diz que, no final, a gente sempre ganha. Porque ou a gente ganha, ou a gente aprende, não é mesmo?
Marc Brackett, coordenador do Centro de Inteligência Emocional da Universidade de Yale, lembra que nem sempre sabemos endereçar nossas emoções. Isso mesmo: dar uma hora e um lugar para elas, fazer um match para sincronizá-las ao que estamos experimentando. E eis que naquela reunião de vendas em que precisávamos estar animados, estamos lidando com uma tristeza que teima em não ir embora.
Nem sempre sentimos o que precisamos sentir, mas já pensou que bom seria se pudéssemos selecionar nosso estado de espírito como fazemos com nossa roupa? Que humor você vestiria para um encontro entre parentes distantes? E para uma reunião one-on-one que define sua avaliação de desempenho do semestre?
Então pronto. Analise sua situação. Conecte-se com seus valores pessoais e descubra que estado emocional lhe favorece nesse momento. Em seguida, use seu melhor humor e encontre a felicidade, em qualquer tom que ela resolva aparecer.
Este artigo foi originalmente publicado no LinkedIn por Alessandra Gonzaga, Ph.D., cofundadora da Conexão IE, adaptado de episódio análogo de “A Voz do Self”, no canal Spotify da Conexão IE.
Leia o artigo original: https://www.linkedin.com/pulse/com-que-humor-eu-vou-alessandra-gonzaga-ph-d-/ Continue a jornada: conheça a Academia IE e o livro Conectados: Competências Socioemocionais na Era do Caos.
Deixe um comentário