novembro 18, 2021
A dor de pensar demais
Há um ditado popular que diz que “pensar não dói”. Minha experiência como coach de inteligência emocional e facilitadora em jornadas de desenvolvimento contradiz essa versão e diz: pensar pode doer sim, especialmente quando adicionamos emoções aflitivas em nossa forma de analisar o mundo. Ou, como dizem os budistas: sofremos muito mais na nossa imaginação que na realidade que experienciamos.
Isso acontece porque existe uma relação estreita entre pensamento excessivo e preocupação. São atividades mentais que se complementam e se amplificam. A definição do dicionário de preocupação é bem interessante:
Prevenção, opinião antecipada, ou a primeira impressão que uma coisa fez no ânimo de alguém;
Ideia fixa e antecipada que perturba o espírito a ponto de produzir sofrimento moral, ou ainda, uma ideia antecipada que causa sofrimento.
Assim, gente preocupada se pergunta se algo ruim vai acontecer, enquanto gente que pensa demais fica absolutamente certa de que essa coisa ruim já aconteceu. Ou seja, a preocupação geralmente desloca nossa atenção cognitiva para o futuro.
Para Robert Leahy, a intolerância à incerteza é o elemento mais importante na preocupação. Os preocupados temem as emoções e não processam o significado dos acontecimentos, pois eles têm “coisa demais na cabeça”. De novo, tudo a ver com pensar demais.
Na interface emocional, o pensamento excessivo se conecta facilmente com as três matrizes principais, tristeza, raiva e medo, e todos os humores associados a elas, em diferentes tempos mentais. Você olha para o passado e, ativado a partir de estados emocionais mais melancólicos, pensa em todas as vezes em que sua vida foi infeliz ou que algo triste lhe aconteceu. Você vê sua vida e, contaminado por desgosto ou raiva, passa a lembrar das injustiças que lhe foram cometidas, passa a lembrar de seus relacionamentos próximos e se sente mal a respeito. Ou ainda, você projeta sua atenção para o futuro e não vê qualquer esperança, não acredita que possa ser diferente.
E se você pensou que colocar para a frente nossa preocupação é algo muito parecido com ansiedade, acertou, uma vez que ansiedade tem a ver com ter medo de algo imaginado. Então a preocupação é um tipo de ansiedade, porém para temas que não temos ação ou inferência, como a percepção do outro sobre nós ou a desigualdade social na sociedade. E tanto preocupação quanto ansiedade são combustíveis do pensamento excessivo. Pronto, espiral negativa completa.
Ok, então o pensamento excessivo se conecta com a preocupação, e ambos, associados, formam uma espiral de sentimentos negativos que também se entende por aflição ou angústia. Aqui chego no ponto principal da questão: como reverter isso? Como frear o hábito de pensar demais?
Na Conexão IE, ensinamos muitas técnicas de regulação emocional, e aqui trago quatro que trazem mais resultado:
Na próxima vez que se ver pensando demais, agradeça por ter se dado conta disso, já que toda gestão de sentimentos começa com a consciência emocional.
Em seguida, faça alguma atividade sobre a qual tem controle, como arrumar uma gaveta ou preparar uma comida gostosa.
Assim que tiver finalizado sua tarefa, aproveite para fazer alguma ação de autocuidado, como uma caminhada ou escutar uma boa música. Respire fundo. Coloque mais atenção no que você faz, e não no turbilhão de coisas em sua mente.
E, finalizando, trago uma reflexão do Dalai Lama, do livro A Arte da Felicidade:
“Creio que ter a honestidade e a motivação adequada é o segredo para superar o medo e a ansiedade. Portanto, se estou ansioso antes de uma palestra, costumo me lembrar de que a razão principal, o motivo de proferir a conferência, é o de trazer algum benefício às pessoas, não o de exibir o meu conhecimento.”
E com isso chego na quarta dica para interromper o ato de pensar demais, que é se conectar a um propósito maior e agir de acordo, saindo da solidão que a ruminação mental é capaz de produzir e abrindo-se para uma conexão positiva com o mundo.
Este artigo foi originalmente publicado no LinkedIn por Alessandra Gonzaga, Ph.D., cofundadora da Conexão IE, adaptado do episódio “Pensar Demais”, de “A Voz do Self”, no canal Spotify da Conexão IE.
Leia o artigo original: https://www.linkedin.com/pulse/dor-de-pensar-demais-alessandra-gonzaga-ph-d-/ Continue a jornada: conheça a Academia IE e o livro Conectados: Competências Socioemocionais na Era do Caos.
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