novembro 10, 2021

Pausa para acreditar

Todos nós precisamos nos sentir seguros. Quando a segurança psicológica falha, sentimos medo, uma resposta natural do corpo à percepção de uma ameaça. Mas como podemos explicar o medo do que imaginamos, ou mesmo o receio de perder o mundo que conhecemos, ainda que esse mesmo mundo tenha defeitos e dificuldades? Neste artigo, faço uma costura de alguns insights sobre o medo de mudar, na perspectiva de diferentes autores que falam sobre essa emoção.

O autor que trago para nos abrir essa questão é Joseph Campbell, a principal autoridade em mitologia do século XX. Ele nos lembra, no livro O Poder do Mito, que medo é a primeira experiência do feto no útero, porque é a primeira emoção a dizer “eu”. A pessoa diz “eu sou” e imediatamente sente medo. Na jornada do herói, a chamada para aventura é o segundo passo, aquele que faz com que deixemos a segurança do mundo conhecido e nos lancemos rumo ao desconhecido. Afinal, embarcar em uma viagem, qualquer que seja, requer coragem e equilíbrio.

Mas e o futuro? Tem gente que diz que o medo, quando voltado a um evento que não aconteceu ou a fatos de nossa imaginação, chama-se ansiedade. E o único fato que temos é de que não podemos controlar o amanhã. O psiquiatra Mark Reinecke tem algumas dicas preciosas de como vencer o medo do futuro. Segundo ele, “o futuro é incerto. Por isso temos de expandir nossa tolerância pela ambiguidade e incerteza. Precisamos recuar em nosso desejo por garantias”.

Há, porém, o lado B da ansiedade. Ela mostra um certo interesse pela vida, ainda que venha deslocado, meio que sem achar posição na cadeira. Quando sentimos tão somente medo de mudar, podemos caminhar para a inação, a preguiça em continuar. Nesse sentido, o medo se aproxima do desalento, desânimo de continuar, descrença em transformar. A budista Bel Cesar fala desse apego às coisas como são e traz um conceito interessante, o da preguiça por inferioridade ou indolência, que “nos tira a força e a autoconfiança, uma vez que, sem agir, já não sabemos mais do que somos capazes. A preguiça ocupada nos torna frágeis e inseguros, enquanto a preguiça da inferioridade nos deixa sem esperança e entusiasmo”.

Para romper esse limbo assustador e desanimado, trago aqui uma reflexão do mestre Haemin Sunim, do livro As Coisas Que Você Só Vê Quando Desacelera:

“Alguns dizem que não sabem o que estão procurando na vida. Isso pode ser porque, em vez de se conectarem com os próprios sentimentos, levam a vida de acordo com as expectativas de outras pessoas. Viva a vida não para satisfazer os outros, mas para realizar o que seu próprio coração deseja.”

Desmontar o medo é parecido com ligar a luz do quarto para a criança que teme os monstros escondidos na penumbra. É preciso iluminar o que nos aflige e, enquanto isso, ter a coragem de conviver com algumas sombras, ainda que nos mostrem lados que não queremos ver em nós mesmos. Acreditar que a luz voltará e nos movermos em direção a ela é, por vezes, mais importante que encontrar o interruptor.

Este artigo foi originalmente publicado no LinkedIn por Alessandra Gonzaga, Ph.D., cofundadora da Conexão IE, adaptado de texto publicado no podcast “A Voz do Self”, no canal da Conexão IE no Spotify.

Leia o artigo original: https://www.linkedin.com/pulse/pausa-para-acreditar-alessandra-gonzaga-ph-d-/ Continue a jornada: conheça a Academia IE e o livro Conectados: Competências Socioemocionais na Era do Caos.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *