outubro 21, 2025

Redes sociais ou redes comerciais? O cansaço da prova de valor e a perda do bom senso nos espaços digitais

Redes sociais ou redes comerciais?

Alessandra conta que se identificou com um comentário que viu em uma publicação sobre a queda no uso das redes sociais: afinal, são redes sociais ou redes comerciais? Para ela, se isso já era verdade no Instagram, agora também vale para o LinkedIn, que antes funcionava como uma rede profissional. Ela diz que já não consegue ficar dez minutos na plataforma, porque o que antes servia para acompanhar colegas e tendências da área de gestão de pessoas virou uma disputa sobre quem sabe mais e quem está vendendo qual curso.

Quando todo mundo é professor

No Dia do Professor, a caminho da Mercopar, feira da qual a dupla participou, Alessandra recebeu os parabéns de um professor de educação física. Quando ela retribuiu, ele respondeu que hoje todo mundo é professor. Para ela, se todo mundo é, então ninguém é. Alessandra lembra que pertence a uma geração em que se fazia mestrado para dar aula na graduação e doutorado para lecionar na pós-graduação, e que hoje qualquer pessoa dá uma aula e se apresenta como especialista em tudo.

O que mudou na formação de executivos

Ela também observa uma distorção nas escolas de executivos. Antes, o executivo buscava a sala de aula por dois motivos: acessar ferramentas, processos e vocabulário de negócios, e trocar experiências com colegas que viviam desafios parecidos, algo que vai além do que hoje se chama de networking. Tudo isso era conduzido por professores com experiência acadêmica e de mercado, uma combinação rara. Hoje, parece que ninguém precisa mais sentar para aprender, porque todos já sabem tudo ou perguntam a uma IA.

O café que virou escritório

Marcelo propõe uma analogia. A dupla frequentava um café em Porto Alegre de que gostava muito, até que, nas últimas visitas, entrou e saiu sem conseguir sentar. Quase todas as mesas estavam ocupadas por pessoas trabalhando com seus notebooks, consumindo apenas uma garrafa de água e usando internet e energia de graça. Os funcionários também estavam incomodados, mas não tinham poder para mudar a situação. Alguns donos de cafés já reagem, retirando o Wi-Fi ou colocando avisos nas mesas. Para Marcelo, o problema é a falta de bom senso de quem usa um espaço para uma finalidade diferente da proposta, prejudicando os demais.

Quem regula o espaço digital?

Segundo Marcelo, o mesmo acontece nas redes sociais, inclusive no LinkedIn, que no início era de fato uma rede de relacionamentos profissionais, onde muitas pessoas foram encontradas por headhunters e descobriram oportunidades. A diferença é que o dono do café pode criar regras, enquanto as plataformas não têm incentivo para isso. Basta ajustar o algoritmo para que quem realmente precisa da rede para fazer negócios pague mais pelo alcance. Assim, elas convivem com perfis falsos, robôs e mau uso, sem perder receita.

A angústia da prova de valor

A principal angústia de Alessandra é a necessidade constante de provar valor: fotografar cada evento, marcar todo mundo e mostrar presença, sem saber se alguém real verá aquilo. Ela reconhece que a fase da vida influencia sua paciência para esse jogo, mas percebe o mesmo cansaço em muitas pessoas e cita dados sobre o crescimento de quem entra nas redes, olha e sai sem comentar nem postar. Ela chama atenção para um grupo que sente essa pressão com força: as pessoas em transição de carreira, que são muitas neste momento, após ondas de demissões em alguns setores. Alessandra ficou feliz ao ouvir de uma dessas pessoas que aproveitou a transição para ter um tempo para si e ouvir o Arena. Para ela, o podcast não vende nada: é uma forma de a dupla refletir sobre o mundo e oferecer conteúdo de valor sem cobrar.

Seguidores não são resultados

Alessandra ressalta que muitos seguidores não significam necessariamente bons resultados. Ela cita o caso de uma influenciadora com dezenas de milhares de seguidores que não conseguiu vender camisetas em um teste. E pondera: se quem vende cursos para formar mentores estivesse tão bem-sucedido, provavelmente estaria fazendo outra coisa. O contrário também vale: as pessoas mais ocupadas que ela conhece quase não aparecem nas redes. Marcelo acrescenta que, com cerca de 8 a 9 mil conexões no LinkedIn, mesmo que apenas um terço delas publique com frequência, seriam milhares de posts impossíveis de acompanhar. Publicar vira como lançar uma mensagem em uma garrafa no oceano. Para ele, o algoritmo permanece obscuro justamente porque, se as pessoas soubessem como ele funciona, deixariam de investir tempo e dinheiro para ter tão pouco retorno.

O mau uso das redes

Marcelo explica que, embora não exista um protocolo oficial, cada rede tinha sua finalidade: discussões políticas em uma, rotina de exercícios e alimentação em outra, conquistas profissionais no LinkedIn. Hoje, na busca por atenção, conteúdos são levados para qualquer lugar, e o LinkedIn passou a se parecer com as demais redes. Alessandra lembra que cresceram no LinkedIn as histórias comoventes do óbvio, que rendem milhares de reações. Para Marcelo, ninguém foi educado para usar redes sociais: não há etiqueta, e as plataformas não colocam ordem no espaço.

Especialistas invisíveis, gurus em alta

Alessandra conta que vê profissionais altamente qualificados, com pesquisa acadêmica, experiência de mercado e atuação internacional, como os da Six Seconds, organização global de inteligência emocional, conseguirem pouquíssimo engajamento. Enquanto isso, perfis sem formação sólida, que vendem métodos próprios e fórmulas mágicas de sucesso, acumulam audiência. Ela sente falta de alguém que questione essas pessoas e pergunte onde estão a pesquisa, a aplicação e as vidas realmente transformadas. Para ela, a ostentação, que antes era vista como algo de mau gosto, virou referência de sucesso.

A perda do senso comum

Marcelo conecta tudo isso à perda do bom senso, as regras não escritas de convivência que todos conheciam e respeitavam. Ele cita reportagens sobre jovens que vão a entrevistas de emprego acompanhados dos pais e ressalta que a responsabilidade não é dos jovens, e sim de quem os educou. Lembra também dos palcos de grandes eventos, como o Gramado Summit, que muitas vezes ficam lotados de pessoas que só querem sentar, descansar e comer pipoca, sem prestar atenção nas palestras, enquanto quem realmente queria assistir fica sem lugar. Para ele, o café ocupado, o palco lotado e as redes sociais são sintomas da mesma causa: estamos perdendo o traquejo para conviver em espaços compartilhados.

Sem regulação social

Alessandra traz o olhar da inteligência emocional: nas redes, não existe a contrapartida da interação presencial. Frente a frente, percebemos quando alguém desvia o olhar, quando uma fala se estende demais ou quando algo não agradou, e ajustamos o comportamento. Mesmo no online síncrono, essa percepção é limitada. Nas redes, é como jogar bola contra um paredão, esperando que ela volte. Marcelo complementa que isso elimina a regulação social: quem publica recebe apenas validação ou rejeição, sem um feedback de qualidade que ajude a entender como se comportar.

Persona e narcisismo digital

Com base nos estudos junguianos que a dupla tem aprofundado, Alessandra fala da persona, a máscara social com que nos apresentamos ao mundo. Ela conta que, em um painel sobre liderança feminina, comparou sua persona aos cílios postiços: eles lhe dão a sensação de estar mais poderosa no palco, mas, ao tirá-los, ela lembra quem é, com a família e a vida que a esperam. A essência vem primeiro. O problema, segundo ela, é quando as pessoas se confundem com a persona e passam o dia inteiro nesse personagem, buscando validação. Alessandra comenta a chegada de aplicativos como o Sora, de vídeos gerados por inteligência artificial, que podem levar a vida editada a um novo patamar. Para ela, o risco está em confundir fantasia com realidade: a vida real é desafiadora, tem boletos e carreiras que demoram a crescer, mas oferece satisfação verdadeira. A alegria das redes, por outro lado, dura o tempo de uma curtida. A dupla observa que, na pirâmide de Maslow, depois do pertencimento vem a estima, e muitas pessoas acabam parando nesse degrau, em busca de aplausos, inclusive de robôs.

Bem-estar, o novo sinal de riqueza

Alessandra acredita que o bem-estar vai se tornar o grande sinal de riqueza. Ela observa que os objetos de desejo mudaram ao longo do tempo: primeiro, os diplomas; depois, a posição hierárquica e o poder, hoje em baixa, já que muitos não querem mais o peso da liderança; e, mais recentemente, a influência e as curtidas. Para ela, todos esses caminhos foram formas de buscar dinheiro, e o modelo dos influenciadores também está em queda. Em breve, o que despertará inveja será a saúde mental: ter tempo livre longe das câmeras e das redes e sentir-se bem com a vida e com o próprio corpo. Marcelo lembra das aulas de literatura sobre o fugere urbem, o desejo de fugir da cidade, que surgiu quando as metrópoles prometiam oportunidades, mas entregavam uma vida dura, e sugere que vivemos algo semelhante em relação às redes, que estão custando caro em paz, sono e qualidade de vida.

O futuro das redes

Alessandra conta que postar cada vez menos tem lhe feito muito bem. A dupla mantém uma presença institucional para ser encontrada, mas não vincula mais seu valor às redes. Para ela, especialmente para quem trabalha com educação e desenvolvimento e para quem está em transição de carreira, as grandes oportunidades costumam surgir em cafés, entre colegas de faculdade e em redes de contatos próximas, e não na avenida barulhenta de quem tem mais ou sabe mais. Ela compara as redes aos espelhos de parque de diversões, que distorcem a imagem para maior ou para menor. Marcelo acredita que as redes seguirão o caminho de outros meios de comunicação, como os jornais impressos e as revistas: não vão desaparecer, mas vão encolher até restar uma parcela bem pequena, enquanto surge um novo meio. Alessandra observa que, há anos, não há uma ruptura real nas redes, só mudanças de formato, e espera que o próximo espaço de convivência se pareça com as rodas de chimarrão de sua infância em Alegrete.

Perguntas frequentes

Por que tantas pessoas estão cansadas das redes sociais?

Segundo o episódio, pela pressão constante por provar valor, pelo excesso de conteúdo comercial, pela falta de transparência dos algoritmos e pela distância entre a vida editada e a realidade.

Muitos seguidores significam sucesso profissional?

Não necessariamente. O episódio cita casos de perfis com grande audiência e pouco resultado real, e de profissionais muito ocupados que quase não aparecem nas redes.

O que é regulação social?

É o ajuste do comportamento a partir das reações das outras pessoas, como olhares, expressões e silêncios. Nas redes, essa troca é limitada, o que dificulta perceber o que é adequado em cada contexto.

O que é persona, segundo Jung?

É a máscara social com que nos apresentamos ao mundo. Ela é útil, mas se torna um problema quando a pessoa se confunde com esse personagem e deixa de lado a própria essência.

Onde assistir ao episódio completo?

No canal da Conexão IE no YouTube, dentro da série de podcast Arena IE.

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Este artigo foi produzido a partir do episódio do Arena IE apresentado por Alessandra Gonzaga e Marcelo do Carmo Rodrigues.

Assista ao episódio completo: ▶ Assista ao episódio completo no YouTube

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