outubro 28, 2025

Novas formas de aprender: por que o autoconhecimento é a base da aprendizagem contínua

O Clube do Livro Conectados

A Conexão IE organizou, para novembro, um clube do livro com quatro encontros gratuitos às quartas-feiras, transmitidos pelo LinkedIn. A obra escolhida é Conectados: Competências Socioemocionais na Era do Caos, e cada encontro percorre uma das quatro dimensões trabalhadas pela Conexão IE: autoconhecimento, equilíbrio emocional, conexões humanas e trabalho com significado. A proposta parte de uma ideia central: aprender sobre as próprias emoções potencializa todos os outros aprendizados.

O resgate de formatos que funcionavam

Marcelo explica que a iniciativa resgata formas de aprendizagem que caíram em desuso com a onda de workshops online e de curta duração surgida na pandemia. Ele conta que ouve cada vez mais das áreas de RH que as pessoas não aguentam mais aula e que buscam experiências e produção de sentido, não apenas conteúdo. Como os antigos clubes de assinatura de livros, a leitura compartilhada permite que cada um avance no próprio ritmo e conecte cada capítulo à sua história.

O problema não é a aula

Alessandra faz o contraponto: ela adora uma boa aula, como os encontros mensais de sábado que a dupla conduz sobre conceitos junguianos. Para ela, o que as pessoas rejeitam é a sucessão de slides sem provocação, não a aula em si. Um mediador que conduz o raciocínio e abre espaço para a audiência continua sendo valioso. Ela também critica a ideia de que aprendizagem precisa ser só experiência ou diversão. Divertir-se no processo é bem-vindo, mas não é o objetivo principal. O que importa é trocar percepções sobre o que se entendeu, porque as pessoas recebem conteúdos o tempo todo e raramente param para produzir sentido. Marcelo compara o clube do livro à sala de aula invertida, uma proposta ligada à andragogia: o participante chega com o conteúdo já lido e usa o encontro para refletir.

Professores que marcam uma vida

Alessandra lembra que são raros os professores capazes de conduzir duas horas de raciocínio sem que o tempo pareça passar, e que esses nunca são esquecidos. Ela destaca o papel do explicador, como o professor Clóvis de Barros Filho define essa função, e conta que a dupla adora costurar várias teorias para ver se elas se conversam, se complementam ou se contradizem. Em suas aulas na faculdade, Alessandra costumava levar vários livros, pedir que alguém lesse um trecho e abrir a conversa sobre o que cada um tinha entendido. Ela alerta para o risco de um conhecimento cada vez mais amplo e raso, em que se sabe um pouco sobre quase nada.

O tempo virou o ativo mais escasso

Marcelo relembra os anos 1990, quando atuava como instrutor na formação de examinadores da Fundação Nacional da Qualidade: os cursos duravam quatro dias, com dez horas diárias e tarefas durante a madrugada. Hoje, uma imersão de um dia e meio já é considerada longa, e workshops de dois dias se tornaram módulos de duas ou três horas. A dupla observa que a pandemia reduziu ainda mais o tempo de atenção e que as organizações pedem resultados cada vez maiores em encontros cada vez mais curtos.

Menos tempo não é mais aprendizado

Alessandra defende uma contracultura: menos tempo não produz mais aprendizado. Para ela, é preciso mais pausas e grupos menores, de duas a quatro pessoas para reflexões profundas, porque só assim se cria a confiança necessária para compartilhar dúvidas. O mediador também precisa equilibrar a participação: quem fala muito deve praticar a escuta, e quem fala pouco deve se arriscar mais. Ela aponta ainda dois desafios atuais nas organizações: facilitadores que colocam o próprio ego no centro e participantes tão cansados que assistem aos encontros como se estivessem com a tela azul.

O facilitador como guia de viagem

Marcelo reforça que o aprendizado não pode se limitar ao momento presencial. Ele cita a jornada Emotion Roadmap, disponível na Academia IE, com cinco encontros apoiados por vídeos, reflexões e atividades em e-book, que cada participante aprofunda conforme seu interesse. Para ele, o facilitador deve ser cada vez mais um guia de viagem, que orienta caminhos dentro de uma jornada que vai além dos encontros. A dupla concorda que toda jornada precisa de um bom início, com apresentação do percurso e combinados claros. Marcelo conta que um parceiro sugeriu criar um guia do estudante, com orientações sobre quanto tempo reservar e em que ordem estudar. De início, isso lhe pareceu descrever o óbvio, mas depois ele percebeu que fazia falta. Alessandra relata uma experiência com uma turma de 30 mulheres em Goiás, ao longo de nove encontros: sem reservar um tempo para o estudo, ninguém consegue acompanhar uma jornada.

A geração que precisava cavar respostas

Alessandra lembra que a geração da dupla era autodidata por necessidade: sem respostas prontas, era preciso ir à biblioteca ou à sala do professor. Hoje, ela percebe que muitos participantes pesquisam as dúvidas no buscador ou em ferramentas de IA durante a aula, sem compartilhar com a turma. Para ela, trazer as perguntas para o grupo é o que enriquece a aprendizagem, mesmo quando o facilitador não tem a resposta. É aí que um clube do livro ganha valor: diferentemente de uma IA, o livro não se oferece para explicar de novo, e às vezes é preciso reler um parágrafo várias vezes até ele fazer sentido. Alessandra conta que usa IA no dia a dia, mas que o senso crítico para perceber quando a ferramenta está enrolando vem da experiência e de muitos livros desafiadores, como O Nome da Rosa, de Umberto Eco, e Os Pilares da Terra, de Ken Follett. Para ela, vídeos curtos e respostas instantâneas estão enfraquecendo a imaginação.

Da universidade em tempo integral às aulas de duas horas

Marcelo compara duas épocas. No fim dos anos 1980, quando cursava engenharia, passava o dia inteiro na universidade entre aulas, biblioteca, laboratório e grupos de estudo. Vinte anos depois, como professor, encontrava alunos que chegavam exaustos após um dia de trabalho, tinham duas horas de aula e precisavam sair correndo para pegar o transporte. O dia de aprendizagem tinha se reduzido a duas horas.

O futuro das universidades

Provocado por Alessandra, Marcelo defende uma revisão profunda dos cursos superiores. Para ele, cursos que dependem de estrutura, como medicina, veterinária e engenharia, fazem sentido na universidade. Já cursos baseados apenas em conteúdo expositivo, que cresceram por terem baixo custo de implantação, poderiam migrar para formações técnicas integradas ao ensino médio, como o modelo de college nos Estados Unidos, liberando recursos para pesquisa e para as profissões do futuro. Alessandra discorda em parte, preocupada com profissionais que atuam sem formação adequada. Ela acredita que será preciso voltar ao básico: convívio, educação financeira, noções de cidadania, funcionamento do Estado, carreiras públicas e profissões regulamentadas. Para ela, esse conteúdo e o planejamento de carreira deveriam estar no ensino médio, para que o jovem decida com mais clareza entre faculdade, serviço público ou empreendedorismo. Ela também expressa admiração pelos professores da educação básica, que precisam conquistar a atenção de turmas grandes em aulas curtas. Marcelo completa que, sem pensamento crítico desenvolvido na escola e na universidade, a formação acaba chegando incompleta às empresas, que muitas vezes preferem automatizar ou terceirizar a ensinar.

Aprender a aprender

Marcelo lembra que, na sua formação, o que importava era aprender a aprender, independentemente do conteúdo. Hoje, com conteúdos muito mais atraentes a um toque do celular, essa lógica ficou mais difícil de sustentar. Ele cita Malcolm Knowles, referência em andragogia, para quem o adulto aprende quando percebe relevância imediata e sente autonomia no processo. Por isso, cada pessoa precisa assumir a responsabilidade pela própria aprendizagem.

Autoconhecimento como bússola

Marcelo recorda a lição de seu primeiro mentor, ainda no início da carreira: a carreira de cada um é importante demais para ser entregue apenas a uma universidade ou a uma universidade corporativa. Como a carreira vai dar muitas voltas, o aprendizado é o que garante relevância, identidade e contribuição. O autoconhecimento funciona como bússola para decidir o que serve, o que não serve e quando é hora de uma transição.

Equilíbrio emocional para lidar com a incerteza

Para Alessandra, o equilíbrio emocional é essencial porque aprender expõe o quanto não sabemos e amplia a incerteza sobre o futuro. Ela diferencia o medo, ligado a ameaças próximas, da ansiedade, que projeta preocupações para meses ou anos à frente, como diante das estatísticas sobre empregos ameaçados pela IA. Também é preciso lidar com a culpa, com os limites e com um perigo do nosso tempo: a busca maníaca por uma solução mágica que traga sabedoria ou riqueza instantâneas, que pode levar as pessoas a cair em golpes, como falsas propostas de emprego. Marcelo lembra que, depois do ensino médio, a vida passa a exigir escolhas constantes, e que algumas delas darão errado. As competências do equilíbrio emocional descritas em Conectados ajudam nesse processo: foco, calma, coragem, otimismo, autocontrole e resiliência.

Conexões humanas e trabalho com significado

A terceira dimensão são as conexões humanas. Marcelo explica que a vida adulta é feita de trocas, na família, nos relacionamentos e nas organizações, e que é importante identificar as pessoas que fortalecem e as que desgastam. Alessandra acrescenta que nenhuma dificuldade é só nossa: outras pessoas já passaram pelo mesmo. A quarta dimensão é o trabalho com significado. A dupla destaca que, em tempos de sobrecarga e dispersão, aprender é menos transferir conhecimento e mais criar experiências de sentido.

O que é fazer sentido

Alessandra observa que sentido, propósito, significado, missão e visão são palavras que se conversam, e que o próprio termo sentido pode indicar valor, significado ou direção. Marcelo usa a imagem do déjà-vu do filme Matrix: produzir sentido é perceber sinais de que se está no caminho certo, algo que só se nota com calma e equilíbrio, e que muitas vezes se confirma depois de uma decisão. Para Alessandra, fazer sentido é organizar o caos, dar lugar às coisas. No aprendizado coletivo, o sentido mais bonito é descobrir que as dores e alegrias não são só nossas. Marcelo resume em uma frase: fazer sentido é a ressonância da alma com o momento que se está vivendo. Alessandra conclui que aprender é acessar mais da nossa humanidade, e que é essa a proposta da Conexão IE ao criar espaços alternativos de aprendizagem nas organizações.

Perguntas frequentes

O que é o Clube do Livro Conectados?

Uma iniciativa gratuita da Conexão IE, com quatro encontros online em novembro, dedicada à leitura compartilhada do livro Conectados: Competências Socioemocionais na Era do Caos.

Quais são as quatro dimensões das competências socioemocionais da Conexão IE?

Autoconhecimento, equilíbrio emocional, conexões humanas e trabalho com significado.

O que é andragogia?

É o estudo de como os adultos aprendem. Segundo Malcolm Knowles, os adultos aprendem quando percebem relevância imediata e têm autonomia no processo.

Por que o autoconhecimento é importante para aprender?

Porque funciona como uma bússola: ajuda a escolher o que aprender, a lidar com a incerteza e a tomar decisões de carreira com mais clareza.

Onde assistir ao episódio completo?

No canal da Conexão IE no YouTube, dentro da série de podcast Arena IE.

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Este artigo foi produzido a partir do episódio do Arena IE apresentado por Alessandra Gonzaga e Marcelo do Carmo Rodrigues.

Assista ao episódio completo: ▶ Assista ao episódio completo no YouTube

Continue a jornada: conheça a Academia IE e o livro Conectados: Competências Socioemocionais na Era do Caos.