outubro 14, 2025
Carreiras IE: Jean e a carreira proteana, de engenheiro a empreendedor e executivo comercial
O que é uma carreira proteana
Marcelo abre o episódio apresentando o conceito de carreira proteana, criado por Douglas Tim Hall para descrever trajetórias com sucessivas mudanças de profissão, carreira e competências. O nome vem de Proteu, deus grego da metamorfose, capaz de prever o futuro e que mudava de forma para escapar de quem tentava capturá-lo. Para Marcelo, é o deus da adaptação e do conhecimento que só surge quando se perde o medo da mudança, e Jean é um exemplo vivo desse modelo. Os dois, aliás, têm trajetórias parecidas: ambos começaram como engenheiros e trabalharam na Siemens.
Quem é Jean Nurkim
Filho de pai dentista e mãe professora, Jean acompanhava o pai no consultório e logo percebeu que a área da saúde não era para ele, mesmo com irmãos que seguiram medicina e odontologia. Formou-se em engenharia mecânica pela UFRGS e seguiu o roteiro clássico da época: estágios durante o curso e, depois, uma carreira sólida de 12 anos na Icotron, fábrica de componentes eletrônicos em Gravataí, onde atuou em engenharia, desenvolvimento de produtos e processos e gerência de fábrica. Em seguida, foi convidado por um amigo de infância para empreender e passou outros 12 anos como sócio de uma empresa importadora e fabricante de acessórios para calçados e confecções. Nas últimas duas décadas, direcionou-se para a área comercial, primeiro em tecnologia da informação e, mais recentemente, na área tributária. Paralelamente, presta consultorias de varejo e apoia a gestão administrativa de uma rede com oito lavanderias.
Transições que nascem de oportunidades
Para Jean, muitos desses movimentos não foram planejados: foram oportunidades que a vida colocou à frente e exigiram uma decisão. Ao empreender, ele complementava o sócio, que tinha mais habilidade comercial, assumindo a gestão interna da empresa: chão de fábrica, administração e compras. Áreas como contabilidade, jurídico e recursos humanos ele aprendeu com as pessoas ao redor, aos 30 e poucos anos, com muita curiosidade. Quando foi convidado para atuar no comercial de TI, avisou que não entendia nada de tecnologia. A resposta do amigo foi que o conhecimento técnico viria com o estudo; o que eles precisavam era de sua experiência, seus relacionamentos e sua visão de negócio. A mudança para a área tributária trouxe um desafio parecido: um engenheiro precisando dominar temas contábeis e jurídicos.
Aprender sempre, com todos
Jean resume seu caminho em uma palavra: aprendizado. Ele conta que teve muitos tutores dentro das empresas, fez uma formação em engenharia da qualidade e, ao empreender, percebeu que fazia 15 anos que não voltava à sala de aula. Foi então que cursou um MBA em gestão empresarial, em busca de visão de negócio, networking e conhecimento nas áreas que lhe faltavam. Na transição para TI, estudou desenvolvimento de software e plataformas de BI; na área tributária, dedicou-se à legislação e às normas fiscais e jurídicas. Ele também destaca o aprendizado que vem dos próprios clientes em cada negociação. Para Jean, diante de mudanças tecnológicas em ritmo exponencial, quem não estiver aberto a aprender, escutar e debater terá muito mais dificuldade.
A síndrome do impostor e o poder das perguntas
Marcelo lembra que, em grandes empresas, é comum terceirizar o desenvolvimento da carreira para os programas corporativos. Ao sair, a pessoa precisa assumir essa responsabilidade e, muitas vezes, enfrenta a síndrome do impostor: a sensação de não ter todas as competências para o novo desafio. Ele compartilha uma história do início de sua carreira como consultor: contratado para implantar uma norma de qualidade automotiva que quase ninguém conhecia no Brasil, estudou a norma, listou suas dúvidas e visitou uma empresa que já a havia implantado. Para sua surpresa, os anfitriões não tinham resposta para a maioria das perguntas. Mesmo assim, ele saiu de lá elogiado como muito inteligente, justamente pela qualidade das perguntas. Foi quando percebeu que o pensamento crítico e a coragem de expor dúvidas demonstram comprometimento, algo que depois passou a destacar para seus alunos. Jean concorda e lembra que, sem as ferramentas de hoje, muitas decisões precisavam ser tomadas com base no instinto, e nem sempre davam certo.
Errar faz parte do aprendizado
Marcelo relembra o modelo de liderança situacional: o líder começa orientando de perto, depois capacita, dá autonomia e, por fim, assume um risco calculado de deixar a pessoa errar. Para ele, o ciclo de aprendizagem só se completa quando alguém erra e se recupera. Jean acrescenta que os erros ficam na memória para sempre, justamente para não serem repetidos.
O frio na barriga
Jean admite que suas mudanças de rota foram bruscas e trouxeram angústia, noites mal dormidas e preocupação financeira. O que o sustentou foi o apoio da família, incluindo a carreira estruturada da esposa, que deu segurança para arriscar. Ele destaca que todas as suas transições foram voluntárias, o que aumenta o peso da decisão: é diferente de ser demitido e precisar recomeçar do que deixar uma posição estável e bem remunerada para buscar o novo. Marcelo observa que a responsabilidade pelo sustento da família costuma ser a origem de muitos medos e leva muitas pessoas a aceitar situações desconfortáveis.
CLT, empreendedor ou PJ?
Jean compara os três modelos que viveu. A CLT continua sendo um caminho viável, que depende do perfil de cada pessoa: ele tem colegas que se aposentaram na mesma empresa depois de 35 ou 40 anos. No empreendedorismo, a despesa é certa e a receita não. Houve meses em que os sócios adiaram o próprio pró-labore para priorizar a folha de pagamento e os fornecedores, e ele conhece muitos empreendedores que operam com empréstimos. Na pejotização, cada vez mais comum, a vantagem é a autonomia para definir o próprio ritmo, embora a cobrança pessoal continue alta. Em compensação, a renda oscila: especialmente em vendas, quem não vende não recebe. Marcelo acrescenta que a estabilidade da CLT pode ser ilusória diante de cortes inesperados, enquanto ter vários clientes permite diversificar os riscos, já que, mesmo em crises, alguns setores prosperam.
Adaptabilidade vai além do técnico
Marcelo relata que o tempo entre prospectar um cliente, fechar o contrato, emitir a nota fiscal e receber o pagamento vem aumentando a cada crise. Se no início dos anos 2000 alguns clientes chegavam a antecipar pagamentos, hoje são comuns prazos de 40 dias após o fechamento do mês. Jean compartilha um exemplo: um pagamento previsto para o dia 5 foi remarcado para o dia 10 na véspera, por uma regra interna do cliente. Para ele, a adaptabilidade envolve não só o trabalho técnico, mas também o modelo de atuação, a estrutura familiar e as finanças.
A falta que fazem os vínculos
Quando Marcelo pergunta sobre as relações humanas, Jean confessa que essa foi sua maior perda. Nos tempos de indústria, ele passava horas por dia com os colegas, inclusive no ônibus da empresa, e criou amizades que duram até hoje. Um grupo de cerca de 120 ex-colegas mantém contato há três décadas, e o encontro anual mais recente reuniu 60 pessoas. Como empreendedor e depois como PJ, ele passou a se sentir quase uma ilha. Para Jean, associações e entidades de classe ajudam, mas não substituem a convivência diária, os eventos da associação de funcionários e as amizades entre famílias. Aceitar que esses momentos passam também é uma forma de adaptabilidade.
Olhando para frente
Jean não pretende mudar muito mais de rota, mas diz que nunca está fechado a novas mudanças. Ele cita a reforma tributária, a instabilidade política e econômica, as dificuldades do agronegócio e o avanço da inteligência artificial como fatores que podem exigir novos movimentos. Por isso, procura manter uma visão de médio e longo prazo.
O que aprender para os próximos anos
Como conselho para quem está no mercado, Jean destaca a atualização tecnológica. Ele lembra que é da época em que estagiários enviavam telex para fornecedores na Ásia e que procurou acompanhar cada etapa da digitalização. Também ressalta o aprendizado por meio da conversa, o valor de escutar pessoas mais experientes e o equilíbrio entre trabalho, vida pessoal e convívio familiar. Para ele, o etarismo nas empresas também prejudica os mais jovens, que perdem a chance de aprender com a bagagem dos mais experientes.
Demitido: novo emprego ou empreender?
Diante de alguém em dúvida entre buscar um novo emprego ou empreender após uma demissão, Jean recomenda, antes de tudo, não decidir sozinho. Ele tomou sua primeira decisão em família e, na segunda, buscou aconselhamento. Sugere conversar com familiares, amigos, empresas especializadas e pessoas que já passaram por experiências parecidas, e fazer uma autorreflexão honesta. Ele conta que, mesmo tendo se desenvolvido muito na Icotron, sabia que seu estilo não combinava com a carreira corporativa, enquanto colegas da mesma época construíram longas trajetórias por lá, um deles chegando à presidência da empresa. Para Jean, só faz sentido aconselhar a partir do que se viveu.
Um conselho para o jovem Jean
Se pudesse falar com o estudante de engenharia que foi, Jean diria para se preparar, porque o caminho seria duro, com muitos aprendizados e desafios profissionais e familiares. Ele acredita que os jovens de hoje, como sua filha, estudante de psicologia, enfrentam escolhas ainda mais difíceis, porque as carreiras já não são tão desenhadas: antes, o estágio levava ao emprego, e a empresa conduzia o desenvolvimento. Hoje, as possibilidades são muito mais amplas, e os jovens são mais desapegados de bens e de modelos tradicionais, muitas vezes permanecendo mais tempo na casa dos pais. Jean encerra agradecendo pela experiência inédita de participar de um podcast, mais uma transição em sua carreira.
Perguntas frequentes
O que é uma carreira proteana?
É um conceito de Douglas Tim Hall que descreve carreiras marcadas por mudanças sucessivas de profissão e competências, guiadas pelos aprendizados e escolhas da própria pessoa.
Como lidar com a síndrome do impostor em uma transição de carreira?
Segundo o episódio, buscar conhecimento, aprender com pessoas mais experientes e ter coragem de fazer boas perguntas ajuda a ganhar segurança. A qualidade das perguntas demonstra comprometimento, não fragilidade.
Quais as diferenças entre CLT, empreendedorismo e PJ?
A CLT oferece mais previsibilidade financeira. O empreendedorismo envolve despesas certas e receitas incertas. O modelo PJ traz mais autonomia, mas com renda variável e dependência dos prazos de pagamento dos clientes.
Como decidir entre um novo emprego e empreender após uma demissão?
Jean recomenda não decidir sozinho: conversar com a família, buscar aconselhamento, ouvir quem já passou pela mesma situação e refletir sobre o próprio perfil.
Onde acompanhar os próximos episódios do Carreiras IE?
No canal da Conexão IE no YouTube, dentro da série de podcast Arena IE.
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Este artigo foi produzido a partir do episódio do quadro Carreiras IE, apresentado por Marcelo do Carmo Rodrigues, com a participação de Jean Nurkim.
Assista ao episódio completo: ▶ Assista ao episódio completo no YouTube
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