julho 17, 2026

Carreiras IE: Janaína Koller Martinez e a reconstrução da Vinagres Prinz depois das enchentes

Quem é Janaína Koller Martinez

Janaína é diretora executiva e comercial da Indústria de Vinagres Prinz, fundada em 1925 em Lajeado, onde também atua como sócia-administradora e lidera iniciativas de crescimento, modernização e continuidade do negócio familiar. É formada em Psicologia pela PUCRS, com pós-graduação em gestão de recursos humanos pela City University of London, MBA em gestão empresarial e formação em terapias cognitivas. Conecta gestão empresarial, desenvolvimento humano e sucessão familiar, e participa de discussões sobre liderança, empreendedorismo e perenidade de empresas familiares. Janaína e Camila são amigas, e ela conta que falar publicamente sobre tudo o que viveu não é comum, mas considera importante abrir esse espaço para o empresariado feminino.

Uma investigadora do ser humano

Nascida em Erechim, Janaína se descreve como uma menina curiosa, inquieta e sonhadora, que queria entender por que as pessoas são tão diferentes. Ainda cedo, lia os livros do pai, como os de Dale Carnegie, e poesia. Essa curiosidade a levou a Porto Alegre aos 17 anos, emancipada pelo pai, para cursar Psicologia. Foi na psicologia organizacional que ela encontrou uma ponte com o negócio da família: percebeu que práticas que aprendia nos estágios ainda não existiam na empresa, onde o próprio pai conduzia as entrevistas. A convite dele, começou a estagiar na indústria em Lajeado, enquanto abria um consultório de psicologia clínica, primeiro na abordagem junguiana e depois na cognitivo-comportamental.

A decisão entre duas carreiras

Por anos, Janaína conciliou a clínica e a empresa, aproveitando a psicologia nas relações com as pessoas e na condução de mudanças, já que todos temem perder algo quando algo muda. Ela não acreditava que precisaria escolher. A escolha veio quando os sócios pediram que ela se dedicasse integralmente à sucessão. Para Camila, era uma encruzilhada entre o amor pela clínica e a honra de dar continuidade a um legado centenário. Janaína diz que tinha medo de perder o prazer de ver vidas se transformarem na terapia, um efeito que se espalha para a família e o trabalho de cada paciente. Na empresa, descobriu outro tipo de energia, mais visceral, capaz de transformar a vida de muitas pessoas ao mesmo tempo.

Honrar uma história construída do zero

O que pesou na decisão foi a história do pai. Único filho homem entre cinco irmãs, ele foi o escolhido pela mãe para estudar na cidade, em um internato, porque a família não tinha como pagar os estudos de todos. Construiu sua trajetória sozinho, começou no negócio de vinagres em Erechim e, depois, reergueu a Prinz em Lajeado. Janaína percebeu que tinha recebido muito mais do que ele e que o caminho dela seria amparado. Decidiu, então, honrar essa história ao lado da irmã, Jonia, que também quis suceder. Casada e mãe de dois filhos, fechou o consultório, porque trocar de papel entre a clínica e a empresa tinha se tornado difícil demais.

Modernizar uma empresa centenária

A Prinz era saudável e bem administrada, mas funcionava de forma tradicional, sem RH estruturado nem área jurídica. Ao voltar de Londres, Janaína estruturou todo o RH e, depois do MBA, começou a preparar a empresa para exportar, o que exigia ampliar a capacidade fabril, profissionalizar a gestão e renovar rótulos, embalagens e site. As mudanças encontraram resistência: uma mulher jovem, cheia de ideias, propondo entrevistas estruturadas, testes psicológicos e novas áreas. Ela admite que incomodava e que isso a incomodava, mas seguiu avançando aos poucos, com o apoio do pai, que sempre financiou seus estudos e lhe deu espaço para decidir.

Ser mulher em um mundo de negócios ainda masculino

Janaína relata que, no início, recebia metade da remuneração porque trabalhava de forma híbrida, alguns dias em Lajeado e outros em Porto Alegre, onde vivia com a família. Na época, antes da pandemia, estar presente no endereço da empresa valia mais do que as entregas. Para ela, um executivo precisa estar em vários lugares, como no chão de fábrica, em feiras e em visitas a clientes, e também precisa de tempo sem interrupções para pensar. Muitas de suas ideias nasceram durante a hora e pouco que passava dirigindo até a fábrica, um momento de silêncio que a motivava. Aos poucos, marketing, RH e jurídico passaram para sua responsabilidade. Por fim, ela pediu ao pai para assumir também o comercial, até então concentrado nele.

Um time comercial e 20% de crescimento

Ao assumir o comercial, Janaína lembrou de Alex, que havia começado na empresa como jovem aprendiz, crescido até o RH e saído para buscar novas experiências, com a promessa de que um dia voltariam a trabalhar juntos. Ele havia seguido carreira na área comercial e aceitou o convite na hora. Com a nova equipe e uma estratégia de expansão, a empresa, que vinha estacionada em crescimentos de 1% ou 2%, cresceu 20% naquele ano.

A separação das empresas e a confiança do pai

Ao mesmo tempo, as questões de sucessão ficavam mais difíceis. O pai de Janaína dividia duas empresas com um sócio da família, e os estilos de gestão estavam em conflito. Uma proposta de sucessão profissional não avançou, e Janaína conta que também pesava a dificuldade de aceitar mulheres liderando os filhos do sócio. A saída foi separar as empresas, e a família de Janaína ficou com a Prinz. Em um dia especialmente difícil, ela pediu ao pai que confiasse nela e na irmã, porque juntos os três tinham tudo o que era preciso, inclusive um time que gostava deles. O pai confiou, e a família reestruturou a empresa inteira.

A primeira enchente

Com a Prinz reorganizada, veio a primeira grande enchente do Rio Taquari, em setembro de 2023. A fábrica fica à beira do rio, mas a água nunca havia entrado. Naquela noite, a chuva não parou e a água subiu três metros dentro da empresa, atingindo a linha de produção e os escritórios. Portões de ferro se romperam, e o estoque foi levado pela correnteza. Na manhã seguinte, para surpresa e orgulho de Janaína, todos os funcionários estavam lá, de botas, luvas e pás, prontos para limpar.

Palavras em meio ao caos

Um gestor da indústria alertou que a equipe precisava ouvir a família. O pai estava muito abalado, e a irmã, mais reservada, não gosta de falar em público. Coube a Janaína falar, justamente quando sua vontade era sentar em um canto e chorar. Depois da bênção de um padre, com todos de mãos dadas, ela lembrou que o essencial estava ali: ninguém havia perdido a vida, e o trabalho e a união daquele time já tinham construído a empresa uma vez e iriam reerguê-la. Janaína diz que fechar nunca foi uma opção, porque havia cerca de 60 famílias envolvidas, algumas que tinham perdido a própria casa. O pai reforçou que desistir não era possível e que quem quisesse seguiria com eles. Todos ficaram.

Reconstruir, e reconstruir de novo

Cerca de um mês depois, com tudo reconstruído, veio a segunda enchente. A equipe limpou tudo de novo, e apenas dois funcionários saíram. Mesmo assim, a empresa fechou o ano com crescimento de 2% e manteve todos os clientes. Foi então que o pai, que antes considerava inviável tirar uma fábrica centenária do lugar, aceitou a mudança. A família buscou um novo terreno e conseguiu uma linha de crédito para construir a nova sede, com o apoio de outras empresas do Vale do Taquari. Em maio de 2024, porém, veio a enchente mais devastadora: seis metros de água, paredes e telhados derrubados e dois imóveis de escritório que nunca mais puderam ser usados. Dessa vez, a empresa já tinha um plano de contingência e não perdeu estoque, mas Janaína diz que ali entendeu que não havia como controlar nada.

Uma empresa antifrágil

A partir dali, o propósito passou a ser reerguer a Prinz em um lugar mais alto e muito maior. A nova fábrica fica em Estrela, a cerca de dez minutos de Lajeado. Inspirada no livro Antifrágil, de Nassim Taleb, Janaína vê a tragédia como uma oportunidade: pela primeira vez, a empresa assumiu uma dívida, e isso exigia vender muito mais. Ela instalou um mapa do Brasil em sua sala e combinou com o time comercial que cada venda fechada em um novo estado seria marcada com um alfinete e comemorada. Hoje, a Prinz está em quase todos os estados, e um contrato com uma grande distribuidora deve completar o mapa. O antigo projeto de preparar a empresa para exportar, finalmente, ganhou todo o sentido.

Cuidar de si para cuidar dos outros

A nova fase exigiu mais viagens e mais estudo, e também trouxe um burnout em 2025. Janaína conta que aprendeu a se dar tempo: não responde mais mensagens à noite, faz retiros com amigas e viaja com o marido e os filhos, apoiada também na espiritualidade. Para ela, quem não está bem não consegue cuidar dos outros.

Uma conexão em plena tragédia

No fim da conversa, Camila relembra um episódio de maio de 2024. Ela atuava como voluntária junto à Defesa Civil quando um bombeiro que vinha de Brasília perguntou como chegar a Lajeado, onde a família dele estava ilhada. Minutos antes, Janaína havia ligado desesperada, procurando alguém que pudesse acompanhá-la até a fábrica. Camila conectou os dois, que enfrentaram cerca de quatro horas de estrada sob tempestade, com rotas bloqueadas e comunicação instável. O bombeiro conseguiu resgatar a família de barco, e Janaína permaneceu cerca de um mês em Lajeado ajudando na reconstrução. Para as duas, a história resume o episódio: conexão é tudo. Os detalhes da terceira enchente ficaram para um próximo episódio.

Perguntas frequentes

Quem é Janaína Koller Martinez?

Psicóloga, sócia-administradora e diretora executiva e comercial da Indústria de Vinagres Prinz, com pós-graduação em gestão de recursos humanos pela City University of London e MBA em gestão empresarial.

O que é a Vinagres Prinz?

Uma indústria de vinagres fundada em 1925 em Lajeado (RS), administrada pela família Koller, que após as enchentes do Vale do Taquari decidiu transferir sua fábrica para Estrela, em uma área não alagável.

Como a psicologia ajuda na sucessão e na gestão de empresas familiares?

Segundo Janaína, a psicologia ajuda a compreender a resistência natural às mudanças, a lidar com as relações entre pessoas e a sustentar o time emocionalmente em momentos de crise.

O que significa ser uma empresa antifrágil?

É uma empresa que não apenas resiste às crises, mas sai delas mais forte. No caso da Prinz, as enchentes motivaram a construção de uma fábrica maior e a expansão das vendas para quase todo o Brasil.

Onde acompanhar os próximos episódios do Carreiras IE?

No canal da Conexão IE no YouTube, dentro da série de podcast Arena IE.

—

Este artigo foi produzido a partir do episódio do quadro Carreiras IE, apresentado por Camila Defaveri, com a participação de Janaína Koller Martinez.

Assista ao episódio completo: ▶ Assista ao episódio completo no YouTube

Continue a jornada: conheça a Academia IE e o livro Conectados: Competências Socioemocionais na Era do Caos.