setembro 16, 2025

Carreiras IE: Camila Defaveri e a coragem como escolha do amor

Quem é Camila Defaveri

Camila é formada em Direito, com especialização em direito público e intercâmbio na Inglaterra. Ingressou na Polícia Civil em 2009 e atuou em diferentes frentes: foi titular da Delegacia do Turista durante a Copa do Mundo de 2014, esteve à frente da divisão administrativa do DEIC, liderou a proteção a crianças e adolescentes no DECA e hoje é diretora da divisão de relações institucionais e assuntos legislativos. Pratica yoga desde 2008, estuda filosofia e é mãe de dois filhos. Alessandra, que é colega de Camila em atividades físicas, destaca que sua trajetória combina com as carreiras do novo milênio: híbridas, multifacetadas e cheias de transições.

Corpo, mente e respiração

Camila se descreve como alguém muito agitada desde a infância. Foi por meio do esporte, do acompanhamento psicológico, da filosofia e do yoga que aprendeu a perceber o próprio corpo, a mente e a forma como age com as pessoas. Isso é essencial em sua profissão, porque quem chega a uma delegacia, seja vítima, autor ou testemunha, está vivendo um momento difícil, e os próprios policiais lidam com energias muito pesadas. Alessandra observa que, mesmo durante a conversa, Camila usa a respiração para se ancorar sempre que o raciocínio acelera.

Do Direito a Londres, e de volta

Na metade da faculdade de Direito, depois de alguns estágios, Camila já não se via na área. Aceitou o convite de uma amiga para morar em Londres, onde passou um ano e meio trabalhando em restaurantes, lojas e bares e aprendendo inglês. Em uma de suas idas e vindas, em 2005, chegou à cidade no dia dos atentados ao sistema de transporte e precisou arrastar a mala até em casa, sem trens, ônibus ou táxis. Alessandra, que também morou em Londres, lembra que, sem celular nem mapas digitais, era preciso encarar o desconhecido apenas com um endereço anotado em um papel. Para Camila, isso tornava tudo mais simples, porque não havia o ruído e a ansiedade que as redes trazem hoje. Ela compartilha que sempre encontrou pessoas que a ajudaram pelo caminho e comenta uma reportagem sobre a Noruega, que estaria retomando a escrita à mão nas escolas: para ela, a tecnologia ajuda, mas também pode nos tornar mais acomodados e medrosos.

Coragem é amor

Camila conta que sempre foi corajosa e que nunca temeu o crime. Aos 15 anos, sofreu um sequestro-relâmpago em Garopaba, ao lado do então namorado. Enquanto ele estava muito nervoso, ela decidiu acalmar o ambiente: puxou conversa com os criminosos, perguntou se tinham filhos e colocou uma fita de Bob Marley para tocar. Os dois foram deixados na estrada, e o carro foi encontrado no dia seguinte, sem as fitas. Para Camila, existem duas vibrações no mundo, o amor e o medo, e a coragem pertence ao amor: é agir sem hesitar diante do que precisa ser feito. Alessandra se encanta com essa definição, que vê a coragem como o oposto do medo, e lembra que o medo amplifica tudo e gera respostas urgentes. Camila diz que, naquele momento, sua arma foi a comunicação, e que ali percebeu seu dom: o relacionamento. Para Alessandra, sair do medo e da reação de luta ou fuga é o que permite enxergar o outro sem ameaça e aproveitar melhor as trocas humanas.

Técnica, respeito e humildade

Camila afirma que nunca foi ameaçada por um investigado, porque sempre tratou as pessoas bem, sem pessoalizar os casos, fazendo seu trabalho com a maior técnica possível. Ela também faz questão de pedir ajuda a colegas. A cada mudança de área, diz, é como voltar a engatinhar e reaprender a caminhar.

O desafio de proteger crianças e adolescentes

Sua primeira lotação foi uma delegacia especializada no atendimento a crianças e adolescentes no interior do estado. Camila conta que essa é a área que mais a tira do eixo e que é muito difícil atuar nela sem chegar ao esgotamento. Os números oficiais não refletem a realidade, porque muitos casos acontecem dentro de casa, envolvem pessoas de confiança e permanecem em silêncio por anos. As denúncias podem ser feitas de forma anônima pelo Disque 100, que também recebe fotos, vídeos e documentos. Camila explica que a investigação conta com perícias psicológicas feitas por profissionais muito qualificados, além de perícias físicas e de aparelhos celulares. Ela alerta ainda para denúncias falsas usadas em disputas familiares, que mobilizam equipes e recursos.

Celular não é para crianças sem supervisão

Camila e Alessandra fazem um alerta às famílias: celulares e jogos online sem supervisão abrem um canal direto entre criminosos e crianças. Camila é contra o uso do aparelho por crianças e recomenda cautela até mesmo na adolescência, lembrando casos que atendeu de exposição de imagens íntimas entre adolescentes, com consequências graves como automutilação e tentativas de suicídio. Alessandra reforça a importância do tema no Setembro Amarelo.

Tornar-se gestora sem formação para isso

Camila observa que, em carreiras públicas como a de delegado, a pessoa passa no concurso e se torna gestora sem preparação específica. Durante a pandemia, quando atuava em um departamento de combate a organizações criminosas com 13 delegacias, decidiu cursar uma pós-graduação online em gestão de pessoas com ênfase em competências comportamentais. O curso a ajudou a desenvolver o que já trazia de forma natural: empatia, gosto pelo trabalho em equipe e facilidade para enxergar as competências de cada policial.

As competências de um bom policial

Para Camila, todo policial precisa de curiosidade, uma das competências abordadas no livro Conectados, e de uma certa desconfiança, a capacidade de duvidar das fontes e ir além. Também precisa de organização para lidar com muitas informações e de habilidade de conversa para obter dados, como em uma cena de crime, onde policiais sem uniforme se misturam aos curiosos. Alessandra acrescenta a perspicácia e a intuição, e Camila completa que tudo fala: o corpo, o local e as reações das pessoas. Para ela, um delegado eficiente é presente, porque isso traz segurança à equipe e desperta o melhor dela. Na gestão de departamentos maiores, há quem goste de trabalhar, quem precise de reconhecimento, quem seja mais discreto e quem finja que trabalha, e, como ela diz, fingir dá o mesmo trabalho que trabalhar. Alessandra lembra que ler o outro, interpretar a linguagem não verbal e regular as próprias emoções são a base da inteligência emocional.

Liderança nas enchentes

Durante as enchentes de 2024, Camila foi cedida por 45 dias ao gabinete do vice-governador e atuou com a Defesa Civil na gestão das doações. Faltavam lideranças para conectar voluntários e população, e um pequeno grupo de delegados assumiu essa função, aprendendo logística na prática. Com o apoio de sindicatos e de profissionais de grandes empresas de transporte, que davam aulas aos sábados, a equipe chegou a descarregar entre 25 e 30 caminhões por dia, com voluntários de todas as áreas, de médicos a mecânicos, e com a ajuda fundamental dos escoteiros. Para Camila, a experiência mostrou que somos capazes de muito mais. Alessandra relaciona o relato a uma história do livro Conectados, sobre um profissional de logística que organizou um centro de acolhimento como voluntário. Para ela, quando o trabalho ganha um valor humanitário, o propósito vai além de qualquer profissão.

Só descobrimos o propósito depois de nos conhecermos

Alessandra percebe uma crise de propósito em profissionais de todas as idades. Camila reconhece que também se questiona se está no caminho certo e resume: só vamos descobrir nosso propósito depois que nos conhecermos. Ela vê muitos jovens angustiados buscando um propósito de forma prematura, como se ele fosse cair no colo, quando na verdade ele vem com o tempo. Camila também fala das vozes dos pais que carregamos: vozes de amor, mas que às vezes aprisionam. Ela lembra que, ao contar ao pai que havia passado na primeira fase do concurso, ele perguntou se era delegada da Receita Federal. Para ela, o comentário veio do medo. Curiosamente, o avô e o tio de Camila foram delegados. Alessandra relaciona a história ao conceito de sombra de Jung, que ela e Marcelo estão estudando: os filhos muitas vezes expressam aspectos que os pais não enxergam em si mesmos. Conhecer essas vozes internas, e saber que elas não são nossa identidade, é parte do autoconhecimento.

Filosofia, mitos e arquétipos

Alessandra conta que, quando conheceu Camila, achou que ela fosse psicóloga, pela facilidade de navegar em temas da alma. Camila revela sua paixão pela filosofia, que a levou a Jung. Na pandemia, começou a ouvir as palestras de Lúcia Helena Galvão, da Nova Acrópole, e hoje escuta podcasts sobre mitologia grega com os filhos durante as viagens. Para ela, os mitos explicam a vida e os medos humanos, e os arquétipos, como a mãe, a bruxa, o monstro e o rei, conectam todos nós à nossa ancestralidade. Ela também se interessa pela filosofia oriental, pela cultura celta e pelas histórias do Rei Artur. Alessandra conta que também está cansada da disputa de egos nas redes sociais, inclusive no LinkedIn, e valoriza conversas verdadeiras, sem crachás.

Autoconhecimento primeiro, coração depois

Na mensagem final, Camila recomenda pensar menos nos resultados, ter menos medo e ouvir menos conselhos alheios. Para ela, o primeiro passo, em qualquer idade, é buscar autoconhecimento. Depois, é seguir o coração.

Perguntas frequentes

Quem é Camila Defaveri?

Delegada da Polícia Civil do Rio Grande do Sul desde 2009, formada em Direito, com especialização em direito público. Atualmente é diretora da divisão de relações institucionais e assuntos legislativos.

Como Camila define coragem?

Como uma expressão do amor, o oposto do medo: agir sem hesitar diante do que precisa ser feito.

Como denunciar violência contra crianças e adolescentes?

Pelo Disque 100, que aceita denúncias anônimas e permite enviar fotos, vídeos e documentos. Em situações de emergência, ligue 190.

Como descobrir o próprio propósito?

Segundo Camila, o propósito só aparece depois do autoconhecimento. Ele vem com o tempo e não deve ser buscado de forma apressada.

Onde acompanhar os próximos episódios do Carreiras IE?

No canal da Conexão IE no YouTube, dentro da série de podcast Arena IE.

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Este artigo foi produzido a partir do episódio do quadro Carreiras IE, apresentado por Alessandra Gonzaga, com a participação de Camila Defaveri. Se você está passando por um momento difícil, procure apoio de um profissional de saúde mental ou ligue para o CVV, no número 188.

Assista ao episódio completo: ▶ Assista ao episódio completo no YouTube

Continue a jornada: conheça a Academia IE e o livro Conectados: Competências Socioemocionais na Era do Caos.