agosto 28, 2026
A coragem de permanecer humana: escrita, escuta e o que decidimos que importa
Quando robôs ainda eram ficção
Escrita e escuta sempre estiveram conectadas na minha trajetória. Nunca imaginei que, três décadas após iniciar o curso de Jornalismo na UFRGS, aqueles saberes sobre as bases da comunicação se integrariam com tanta naturalidade ao meu trabalho atual, a ponto de me levarem a pensar sobre coragem. Nos anos 1990, vale lembrar, robôs respondendo de forma humanoide só existiam em cenários futuristas e apocalípticos, no estilo de Blade Runner.
Pensando nisso, inclusive na sensibilidade possível das máquinas, decidi escrever sobre produção autoral e o valor da escuta. E também sobre as implicações, para o nosso eu real, dessa estranha persona digital que todos nós igualmente somos. Para isso, pedi emprestadas à minha mente algumas memórias de experiências vividas. Algo, aliás, bem humano.
Um bloco de notas e uma tarde para conhecer um estranho
Por volta de 2001, no início da carreira de jornalista, parte do meu trabalho era escrever uma coluna semanal no jornal ABC Domingo sobre histórias de vida de pessoas que se destacavam por sua contribuição à comunidade: professores, físicos, historiadores, diretoras de escola. Na época, não havia uma caixa de busca para reunir dados iniciais, muito menos um chat de IA para ajudar na produção do texto. Tudo o que eu tinha era um bloco de notas feito de folhas brancas unidas por cola vermelha e uma caneta. Esse material precisava ser suficiente para escrever cerca de 3.500 palavras sobre um completo estranho, com apenas uma tarde de entrevista para ouvir sua história. Às vezes, menos que isso.
Em uma das fotos que compõem a capa deste artigo, estou entrevistando um chapa para uma reportagem sobre os desafios dos caminhoneiros, ao lado da linha do Trensurb, debaixo de chuva. Ele, embrulhado em um saco plástico, segurando minha sombrinha. Eu, tentando salvar o texto das gotas e equilibrando o bloco de notas.
Ouvir histórias como método
Mais de 17 anos depois dessa foto, capturada pelo meu parceiro de reportagens, o fotógrafo Claiton Dornelles, a paixão por ouvir sobre vidas humanas me encontrou de novo no doutorado, em 2018. Dessa vez, pela metodologia de história de vida, que usei para investigar transições de carreira de mulheres. Os relatos daquela época ainda me fazem pensar nos desafios, muito presentes, da liderança feminina nas organizações, e seguem ecoando nas mentorias coletivas e nos grupos de mulheres que tenho facilitado. Mais recentemente, já com o olhar da psicologia analítica, parte dessas histórias ganhou releitura no meu livro mais recente, *O que cabe na sua bolsa*, sobre símbolos das mulheres, lançado no início deste ano.
Neste segundo semestre, abraço a Travessia da Escuta, projeto que nasce da parceria entre a Conexão IE, as empresas do Coletivo Workspace e a Atitus Educação, com a proposta de compreender e praticar a escuta no contexto do trabalho e ampliar a percepção da experiência humana nas organizações. Em seus primeiros movimentos, já rendeu episódios do podcast homônimo, em que percorro competências socioemocionais do livro *Conectados* e teço paralelos com autores de referência. Já estão no Spotify os episódios sobre calma, compaixão, adaptabilidade e autoestima. E estamos apenas começando.
A palavra pouco tecnológica que conecta tudo
Mas voltemos ao propósito deste artigo: a produção autoral que traduz a realidade percebida, a sensibilidade das máquinas e a persona digital. Onde elas se entrelaçam? A conexão pode estar em uma palavra nada tecnológica: importância.
Escrever, escutar e construir uma presença no mundo exigem escolhas sobre aquilo que consideramos digno de atenção. O que merece ser registrado? O que merece ser compreendido? O que merece ser dito? O que merece ser revisto? Importar-se é, antes de tudo, recusar a indiferença diante da própria experiência e da experiência do outro.
A tecnologia pode ampliar nossa capacidade de organizar, produzir, lembrar e até responder com aparente sensibilidade. Mas também torna muito fácil construir versões mais rápidas, limpas e editadas de nós mesmos, substituindo nosso entendimento sobre a realidade e agindo como um impostor ou usurpador do direito de julgar o que é relevante. É aí que a produção autoral deixa de ser apenas uma questão sobre quem elaborou um texto. Ela passa a ser também uma resposta à pergunta sobre o que realmente importa e sobre a autoria da própria vida.
Escrever é cortar palavras
Quando orientava trabalhos de conclusão de curso, como professora de Comportamento Organizacional, os alunos sempre perguntavam como se começa a escrever. Nunca mais recebi essa pergunta, e me parece que as IAs encerraram o dilema. Mas, tentando responder, o que recordo são os ensinamentos do professor Sérgio Capparelli, autor de mais de 30 livros, que tive o privilégio de acompanhar na disciplina de Laboratório de Textos, em 1998.
Vencedor do Prêmio Jabuti em Ciências Humanas, Capparelli dizia a nós, jovens ávidos por testar nossas habilidades de produção textual, que é preciso ter coragem de refazer as próprias ideias. Daí que um texto bom é aquele editado muitas vezes. Sem fecho de ouro, sempre tento honrar essa, mestre, e sem começo formal. Fluido, leve. Como um pensamento que, quase sem querer, encontra as palavras suficientemente certas. E, por fim, nossas mãos, que lhes dão forma e lugar, sem que tenhamos muito controle sobre como tudo isso acontece.
Chega aqui uma primeira coragem: a de não ter certeza de nada. A de se reeditar e se reescrever, na vida e nas palavras. A de ter disposição para destruir uma página inteira de escritos, respirar fundo e começar de novo, com um suspiro e um mantra ao fundo. Escrever é se desorganizar, reorganizar e avançar na imaginação, essa completa desvairada sem noção.
Abro aqui uma janela mental para *A louca da casa*, da fenomenal Rosa Montero, que nos autoriza a aceitar a insanidade das ideias criadas inteiramente em nossas mentes. Possibilidade que ela aprofunda em *O perigo de estar lúcida*, outra catarse maravilhosa para quem adora ler, criar e escrever. Uma licença para continuarmos humanos, nostálgicos e analógicos.
Mas onde tudo isso se conecta com a escuta? Para responder, precisamos voltar àquele bloco de folhas brancas com cola vermelha.
A escuta sem contorno prévio
Nas mentorias executivas, muitas vezes, por milhares de horas talvez, me deparei com falas desconexas ou desorganizadas. Descrições da rotina de trabalho, lamentações sobre alguma injustiça percebida, proposições de agenda, reflexões sobre estratégia, relacionamentos, vida pessoal e sentido existencial. Os temas não cabem em poucas categorias.
A única coisa que sempre me norteou, e na qual acredito: organizar conteúdos internos ajuda a clarear o caminho e orienta a vida presente e cotidiana. E sim, é preciso contrapor, pedir esclarecimento e, eventualmente, sugerir possibilidades. Embora essa última seja a menos eficaz, porque qualquer ideia que vem pronta já soa descartável.
Na dimensão do desenvolvimento humano, a escuta que mais importa é aquela que transforma quem fala e, sem querer, quem ouve. A ponto de a teia de sentidos construída ali não ter autoria clara, podendo render um diálogo ou simplesmente uma reflexão que não termina ao final da conversa.
Em cada uma dessas conversas, um hábito do jornalismo me acompanha, e por isso peço licença ao cliente nas primeiras sessões: escrevo o que ouço. Assim, me distancio da palavra do outro e mergulho, justamente por isso, na realidade dele, não na minha.
Por que não conversar só com a IA?
Alguém poderia perguntar: se é para um falar e o outro interpretar, por que não conversar com a minha IA? Aí é que vem o pulo do gato.
As IAs podem, sim, ser muito úteis para nos organizar. Mas muito se fala que são propensas à bajulação e ao espelhamento empático tático, ou seja, a dizer o que queremos ouvir. Uma escuta humana permite, em última análise, que tenhamos contrapartidas sobre como soamos ao outro, esse que sente e experimenta o mundo no mesmo contexto que nós. Ela também abre espaço para a curiosidade sincera, de uma alma humana tocando outra.
E permite que tenhamos coragem de ouvir a própria voz explicando os desconfortos da vida e, quem sabe, de responder a provocações tão difíceis como “e como isso te faz sentir?” logo em seguida, sem pensar muito na resposta.
Entre replicantes, caçadores e apenas humanos
É impossível não pensar, em um tempo em que máquinas mais inteligentes que nós já são realidade, no clássico Blade Runner, de 1982. São muitas as frases icônicas, quase proféticas, dessa ficção científica. Uma delas, em especial, resume tão bem a dor inerente à condição humana que, se um extraterrestre me perguntasse quais falas do cinema melhor explicam nossos dilemas existenciais, ela estaria certamente entre as primeiras: o monólogo final do replicante Roy Batty, em que ele fala sobre momentos que se perdem no tempo como lágrimas na chuva.
Dito sob um temporal, com sangue escorrendo pelo rosto, por um robô dotado de consciência, esse monólogo trata da impermanência que atravessa nossas vidas e, por que não, os milhares de posts, vídeos, brigas e desabafos digitais que acompanhamos no imaginário coletivo e rolamos, um a um, como gotas, ou lágrimas, na chuva.
Pessoas não precisam ser coerentes
A validade de uma escuta humana reside justamente no fato de que, na versão persona digital de nós mesmos, vivemos em um espaço-tempo completamente difuso, projetado, irreal e ideal. Enquanto isso, na experiência imediata, nossos corpos sentem cansaço, nosso emocional pede validação e nossas percepções não conversam bem com a agenda do dia. Quem poderia imaginar que aquele robô nos soaria tão humano, assim como hoje uma IA pode, em certos momentos, soar mais empática do que nós, seres que sentem, hesitam e se contradizem?
Uma persona digital precisa parecer coerente, e é desejável que ajude o algoritmo a dizer a que veio. Uma pessoa, não. Ainda bem. Nós, pessoas reais, podemos mudar de ideia, hesitar, descobrir ambiguidades, desejar coisas incompatíveis com nossa realidade e nos deparar com o fato de que não sabemos mais o que queremos da vida. Podemos viver, como diz a canção de Caetano Veloso, aquilo que há de doloroso e de delicioso em ser quem somos.
A coragem de permanecer humana
Ter coragem de permanecer humana implica interesse pelas mudanças que nos atravessam e pela percepção do sofrimento que nos conecta às outras pessoas. A todas elas. Quem sabe na busca por diminuir a carga que todos estamos sentindo, em tempos de certezas algorítmicas. É preciso coragem para sustentar nossa humanidade, em toda a complexidade de nossa experiência, enquanto tudo ao nosso redor muda e se reconfigura.
E isso já abre caminho para o próximo episódio da Travessia da Escuta: “Quantas coragens existem?”, disponível no Spotify.
Perguntas frequentes
Por que a escuta humana não pode ser substituída pela IA?
Porque as ferramentas de IA tendem à bajulação e ao espelhamento do que queremos ouvir. A escuta humana devolve como soamos para alguém que sente e experimenta o mundo no mesmo contexto que nós, e abre espaço para a curiosidade sincera.
O que é produção autoral, segundo o artigo?
Mais do que definir quem escreveu um texto, é a escolha sobre o que merece atenção, registro e compreensão. Ou seja, é uma forma de assumir a autoria da própria vida.
O que é a persona digital?
É a versão editada e coerente de nós mesmos que construímos no ambiente digital. Diferentemente dela, pessoas reais podem hesitar, mudar de ideia e se contradizer.
O que é a Travessia da Escuta?
Um projeto da Conexão IE, em parceria com as empresas do Coletivo Workspace e a Atitus Educação, dedicado a compreender e praticar a escuta no contexto do trabalho. Tem um podcast homônimo, disponível no Spotify, que percorre as competências socioemocionais do livro *Conectados*.
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Artigo de Alessandra Gonzaga, PhD, cofundadora da Conexão IE, mentora executiva e professora.
Ouça o podcast Travessia da Escuta no Spotify: https://open.spotify.com/show/033YynA3k6d16XxOQgIm8O
Continue a jornada: conheça a Academia IE e o livro *Conectados: Competências Socioemocionais na Era do Caos*.