fevereiro 4, 2022

A saída para “a vida é agora”

Chamaram de grande resignação, ou great quit, a saída em massa das pessoas de seus empregos nos Estados Unidos, um movimento que se intensificou desde o começo da pandemia, quando milhões de pessoas escolheram deixar seus empregos. Um grande “pede para sair” que afetou os setores de hospitalidade, comércio, restaurantes e construção civil. Mas as mudanças foram estruturais e chegaram a outras camadas do mundo do trabalho, incluindo o mercado brasileiro. Cabe aqui analisarmos as bases afetivas desse tipo de movimento.

Vamos primeiro aos dados daquele momento. Especialistas apontavam que na massa de pessoas fora do mercado formal estavam pelo menos três grupos distintos: profissionais mais velhos, próximos da aposentadoria, que optavam por se aposentar precocemente de carreiras formais; entrantes no mundo do trabalho de gerações mais jovens, que em seus vinte e poucos anos já renunciavam a seus primeiros empregos; e aqueles que descobriram a possibilidade de atuar de forma remota, em contratos informais ou formas autônomas de prestação de serviço.

Nas duas primeiras categorias, embora as faixas etárias fossem as mais distantes, aparecia a motivação por um estilo de vida desacelerado e desvinculado da carga horária típica de trabalho. Entre os mais jovens, empregos com horários alternativos e menor carga horária tendiam a ter mais apelo, e entre os mais velhos percebia-se um êxodo para cidades menores, combinando maior contato com a natureza, custo de vida mais baixo e um jeito de viver mais tranquilo.

O terceiro grupo é o que mais trazia inspirações para nós aqui no Brasil. De acordo com dados do Bureau of Labour Statistics dos EUA, antes da pandemia, um em cada 60 trabalhadores norte-americanos atuava de maneira remota. Naquele momento, era um em cada sete.

Embora faltassem estatísticas equivalentes por aqui, entendia-se que essas tendências já chegavam ao Brasil. E quais seriam as razões existenciais e afetivas desse movimento de saída? A questão é que a pandemia trouxe para muitos profissionais da era do conhecimento uma dolorosa jornada de lucidez, uma espécie de despertar para a vida além do trabalho. De repente, percebemos que era possível trabalhar dentro de casa, ainda que não fosse fácil. A exposição ao risco iminente e as notícias de pessoas adoecendo ou falecendo trouxeram uma noção de “a vida é agora” muito forte, assim como a vontade de se fazer algo que tenha sentido, de trabalhar em torno do que nos motiva a sair da cama de manhã. Nesse sentido, o retorno ao trabalho se tornou um desafio para muitos RHs, empenhados em garantir a interação entre mundos presencial, remoto e híbrido, e ainda a motivação para continuar.

Vejamos o exemplo da interação remota. Entre clientes da Conexão IE, vemos os mais diversos protocolos para reuniões. Desde o incentivo a abrir a câmera, entre os gestores mais afetivos, ao incentivo a não abrir a câmera, para aqueles com muitas reuniões virtuais no dia. Mas numa coisa todos concordam: é possível sim trabalhar de forma remota, e muitos dos deslocamentos que tomavam tempo e dinheiro deixaram de ser necessários.

De fato, as vantagens potenciais de um mundo de trabalho à distância são sedutoras para os dois lados do balcão: tanto para os profissionais, que podem desenhar melhor suas carreiras, compatibilizando-as com outras áreas de interesse pessoal, quanto para empresas, que podem expandir a possibilidade de captação de talentos, indo além dos limites do mercado de trabalho local, e ainda economizar em diversos recursos e instalações.

No entanto, essa não é uma opção disponível para todas as pessoas e empresas, e por muito tempo ainda convivemos com formas tradicionais de contratos de trabalho, principalmente em setores mais tradicionais de prestação de serviços ou em processos industriais.

O desafio, então, passa a ser promover uma convivência harmoniosa entre diferentes realidades laborais, buscando aliar o que cada uma traz de melhor. Enquanto expandimos a colaboração por meio do uso da tecnologia, precisamos garantir o bom uso das competências socioemocionais, as soft skills, que se mostram cada vez mais necessárias para promover relações harmoniosas e de confiança, contribuindo para um ambiente de trabalho acolhedor.

Este artigo foi originalmente publicado no LinkedIn por Alessandra Gonzaga, Ph.D., cofundadora da Conexão IE, como análise do movimento “Great Resignation” nos Estados Unidos e suas possíveis repercussões no mercado de trabalho brasileiro, em fevereiro de 2022.

Leia o artigo original: https://www.linkedin.com/pulse/sa%C3%ADda-para-vida-%C3%A9-agora-alessandra-gonzaga-ph-d-/ Continue a jornada: conheça a Academia IE e o livro Conectados: Competências Socioemocionais na Era do Caos.

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