dezembro 15, 2021

A grande reflexão

Momentos de virada trazem consigo as típicas reflexões sobre o que conseguimos alcançar, quanto avançamos na vida, o que esperamos atingir a seguir. As experiências desse balanço são às vezes difíceis de relembrar e quase sempre trazem a incômoda questão “para que mesmo tudo isso?”.

Mergulhada nessa reflexão, reli o clássico livro Em Busca de Sentido, de Viktor Frankl, e percebi que ainda fazia uma ideia errada do que o autor considera uma vida com sentido. Descobri também que é muito interessante se estudar o sentido, ainda mais em um final de ciclo. Havia lido Frankl há muitos anos e tinha guardado a dimensão de sua sabedoria ao falar do sofrimento humano, mas havia me esquecido do seu pragmatismo em relação às grandes questões existenciais. Refletindo sobre elas, entrelaço nesse artigo os gigantes Viktor Frankl, Manfred Kets De Vries e Carl Jung.

Hoje, no meio empresarial, muito se fala sobre a necessidade de produção de sentido, ou sensemaking. Sentido em si é uma palavra muito ampla, tão vasta quanto as formas de explicá-lo. No dicionário existem para ela dezenas de definições, das quais destaco primeiramente três: propósito, compreensão e significado. Como propósito, entende-se sentido como algo a se realizar, o alvo, o objetivo pelo qual se vive. Como compreensão, nossa capacidade de dar sentido à experiência, de percebermos as coisas com nossa razão. E como significado, a possibilidade de entregar um contexto determinado ao que se faz, ou seja, uma unidade de sentido.

Há ainda um quarto jeito de entender sentido, que nos faz bem em momentos assim: o de orientação para um movimento, por exemplo quando dizemos “sentido norte” ou “sentido horário”. Uma vida com sentido traz norteamento, força que nos move a uma determinada direção.

Exatamente o que está faltando a muita gente. Conversando com vários clientes ao longo do tempo, se pudesse resumir um estado de espírito recorrente, eu diria que, após tantos desafios e sofrimentos de ordem pessoal e profissional, muitas pessoas estão com extrema dificuldade em continuar a fazer qualquer coisa em que não encontrem sentido. Esse processo é natural em nosso desenvolvimento como pessoa e parece ter sido agravado por períodos de isolamento, intercambialidade de vida pessoal e profissional e a percepção da brevidade da vida. De que ela se vai como um sopro.

Manfred Kets De Vries, psicólogo, psicanalista e coach de lideranças, em seu excelente livro Sexo, Dinheiro, Felicidade e Morte, explora as principais questões existenciais que rondam a cabeça das lideranças. São aqueles questionamentos que, quando não respondidos de forma satisfatória, roubam a atenção de executivos e executivas enquanto deveriam estar envolvidos em questões como planejamento estratégico, reuniões de resultados e demais arranjos da vida corporativa. A esse processo ele chama de busca por autenticidade:

“A autenticidade implica fazer coisas que tenham sentido para nós e que façam com que nos sintamos úteis. Infelizmente, muitas pessoas passam pela vida sem identificar nela qualquer sentido e sem conseguir perceber nela um senso de utilidade. Eles são como sonâmbulos, mesmo quando estão ocupados fazendo coisas que julgam serem importantes.”

E eis que aqui, no andar de nossos dias, nos deparamos com muitas coisas sem sentido, em qualquer tradução do termo. E isso não se resume apenas à vida corporativa. Por exemplo, por que pessoas postam fotos felizes se, em seu íntimo, estão confusas e tristes? Por que montamos árvores de Natal com neve se vivemos em um país tropical? E por aí vai.

Na criatividade dos memes de internet, reproduz-se um sujeito com uma camiseta que diz: “sobrevivi a mais uma reunião que podia ter sido um e-mail”. E eis aqui a falta de sentido que mais tenho presenciado: o excesso de interação, a sobrecarga de contato e comunicação, sem que haja sentido no que se faz, com quem se faz, por que se faz. Para muitos executivos, a maior parte do tempo se divide entre reuniões para definir o que fazer (sem que efetivamente sobre tempo para fazer as coisas combinadas), rolagem de timelines em redes “sérias” ou vídeos triviais, notícias aleatórias. É um pouco um espetáculo non sense. Mas não precisa ser assim.

Vejamos os atuais meetings, antes tão somente reuniões. A piada é antiga, do mundo antes da aceleração digital. Já se falava de “matrizes de reuniões” como prática de destaque em auditorias de gestão, e brincava-se que elas alimentavam um “programa de milhagem de reuniões”, fazendo alusão aos programas de fidelidade das companhias aéreas.

Eis que, anos depois e com muita tecnologia acumulada, multiplicamos as bases de acesso às pessoas: agora podemos encontrá-las pelo WhatsApp, chat corporativo, e até o velho e-mail. No entanto, a ansiedade da busca pela tarefa permanece, e substituímos a angústia do isolamento por horas de videochamada e áudios de dez minutos no final do dia. Segue a sina das reuniões sem sentido. E não é raro que algum gestor, tão ocupado em sua semana, venha com outra piada: “desculpa que nessa reunião não posso ir, porque nessa hora estarei trabalhando”.

Mesmo com o excesso de possibilidades de conexão, nesse mundo digital cada vez mais online e on-time, nos sentimos repletos de reuniões e tentativas de contatos que não seriam necessárias, envoltas que são em tentativas de controle, sentimentos de falta de confiança e falta de autonomia. E isso ficou ainda mais exposto quando, em certos períodos, tais compromissos invadiram nossos lares, nossas horas de descanso, nossos finais de semana. É um paradoxo: mesmo com todo o grau de conexão que a tecnologia nos permite, nos sentimos cada vez mais desconectados e, sim, confusos. Sobre isso fala Kets De Vries:

“Uma vida desprovida de significado é uma vida vazia. Precisamos transcender os sentimentos de tédio, desconexão e alienação, tão familiares nessa era de conveniências e abundância. Conseguimos chegar à transcendência quando formamos um elo de ligação com algo maior do que nós mesmos.”

Nesse momento, busco novo fôlego com Viktor Frankl. O que mais aprecio na visão dele é que o sentido, ou significado da vida, não é algo que se encontre pelo pensamento ou argumentação lógica, tampouco com modelos mentais de construção da realidade. O sentido é algo concreto, que encontramos única e exclusivamente por nossas ações, a partir das decisões e direção que tomamos. Mais especificamente, o sentido pode ser encontrado a cada passo de nossa estrada, e não em alguma montanha sagrada. Não está no alto da escalada, e sim na mais ordinária das rotinas. Diz ele:

“A rigor, nunca e jamais importa o que nós ainda temos a esperar da vida, mas sim exclusivamente o que a vida espera de nós.”

E complementa:

“Em última análise, viver não significa outra coisa que não arcar com a responsabilidade de responder adequadamente às perguntas da vida, pelo cumprimento das tarefas colocadas pela vida a cada indivíduo, pelo cumprimento da exigência do momento.”

Assim é que nosso desafio é tirar o melhor de cada situação, fazendo nossa parte, entregando de nós o que é possível, o que é lógico, o que é necessário. Do que se extrai que, mais importante que achar respostas para o sentido da vida, é encontrarmos uma vida com sentido, especialmente em meio às dificuldades.

Carl Jung, em seu livro Memórias, Sonhos e Reflexões, nos presenteia com o entendimento de seu papel como psicanalista e da importância da busca por sentido e autenticidade:

“Enquanto médico, sempre me pergunto que mensagem traz o doente, o que significa ele para mim. Se nada significa, não tenho um ponto de apoio. O médico só age onde é tocado. ‘Só ferido cura.’ Mas quando o médico tem uma persona, uma máscara que lhe serve de couraça, não tem eficácia. Levo os meus doentes a sério, talvez me encontre muitas vezes exatamente como eles: diante de um problema.”

E em momentos de fechamento de ciclo, qual é a maneira emocionalmente inteligente de produzir sentido? Ao que tudo indica, pela pausa, pela troca ausente de telas. Jung também lembra da importância de podermos conversar com alguém sobre nossas dúvidas e aflições. Mesmo terapeutas têm supervisão de terceiros, para que possam ver diferentes pontos de vista sobre um problema.

“Tenham também um confessor, homem ou mulher! As mulheres são muito bem-dotadas para isso. Elas possuem uma intuição muitas vezes excelente, uma crítica pertinente, e podem perceber o jogo dos homens e às vezes também as intrigas de sua anima. Elas descobrem aspectos que o homem não vê.”

Reforça-se também aí a importância de amizades e amores longevos. Somos seres que precisam de conversas significativas e funcionamos muito melhor quando podemos contar com testemunhas para nossa jornada.

Dito tudo isso, meu palpite: não fuja das reflexões de final de ciclo. É preciso finalizar para recomeçar. Desligar, para ganhar energia para o novo. É o tempo certo para rever rotinas, rodar o ciclo de aprendizado, papear sem pressa, limpar as gavetas e se preparar para o desconhecido território que vem a seguir. Fica o desejo de um pouco mais do melhor tempo de todos, o off-line. Que possamos todos nós produzir, pelo experimentar da vida, um pouco mais de sentido.

Termino esse artigo com mais uma frase de Carl Jung:

“A mais ínfima coisa dotada de um significado tem mais valor na vida que a maior de todas as coisas sem sentido.”

Este artigo foi originalmente publicado no LinkedIn por Alessandra Gonzaga, Ph.D., cofundadora da Conexão IE.

Leia o artigo original: https://www.linkedin.com/pulse/grande-reflex%C3%A3o-alessandra-gonzaga-ph-d-/ Continue a jornada: conheça a Academia IE e o livro Conectados: Competências Socioemocionais na Era do Caos.

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