janeiro 19, 2022

A abstinência de verdade

“Eu sou um ser humano. Nada do que é humano me é estranho.” — Terêncio (poeta romano)

Aconteceu certa vez, em um treinamento de inteligência emocional, um fato que me marcou. Estava apresentando duas histórias, que serviam de base para nossas práticas. Na primeira, os personagens vivenciavam um conflito e a turma precisava analisar causas e consequências do ocorrido, prevendo possíveis medidas de contenção e mitigação de danos. Na segunda história, teríamos de promover ou demitir pessoas, com base em suas competências socioemocionais. Em ambos os casos, meus alunos, gestores em diferentes organizações, foram unânimes em encontrar seus preferidos, pelos quais sentiam uma estranha simpatia: os personagens que, se analisados fora do contexto, seriam considerados “os vilões”.

Não me entendam mal, não é que fossem personagens malvados. Apenas certamente não passariam no crivo de “bons moços”. Eram absolutamente diretos em suas colocações, um tanto até grosseiros, para os ouvidos mais sensíveis. Mas comprometidos, engajados, íntegros em suas atitudes. Sabia eu que os personagens mais assertivos tinham sim suas qualidades. A escolha de temática era proposital.

Questionei aquela preferência, provocando uma reflexão a respeito. Como assim eles preferiram justamente os mais “desbocados”? Onde estava o valor das soft skills? O que estávamos fazendo ali, falando de habilidades emocionais? Ao que um deles, entendendo a provocação, explicou: “pelo menos eles diziam a verdade”.

Aquele argumento já havia despontado em outras turmas anteriormente. Mas nunca de forma tão uníssona. Faz sentido. Pontuei para a turma o valor do que estava sendo dito. A necessidade que estava por trás daquela identificação. A falta que podia não ser da turma, nem mesmo apenas de nossos exemplos, mas sintoma do tempo em que vivemos.

Estamos todos expostos a um mundo em que as pessoas se acostumam a presenciar performances, atuações em torno do que deveria ser dito ou feito. Existe uma imposição do culturalmente correto, do socialmente aceitável, do publicamente esperado. Avançamos nas mídias e estratégias de comunicação, mas nem sempre fazemos com intento, nem sempre expressamos o que, de verdade, gostaríamos de expressar. Lembre-se de sorrir, pois você está sendo filmado!

Desenvolvemos sim um certo temor sobre como, onde e para quem podemos expressar nossas opiniões. A cultura do cancelamento, a permanência dos rastros das redes sociais e a possibilidade de uma declaração ser tirada do contexto nos oprime. Nas empresas, escrevemos valores e compromissos virtuosos e inclusivos que, na prática, as pessoas nem sempre conseguem fazer valer.

É parecido com a imposição de felicidade de algumas plataformas, em que o excesso de beleza entorpece os sentidos. Mas o que fazer com a feiura, se nos dói nos olhos? Será que os comportamentos merecem também filtros e maquiagens, para que se tornem palatáveis?

Como sempre, me parece que a palavra de apoio é equilíbrio. Certamente desejamos que as pessoas respeitem umas às outras, que sejam capazes de ouvir opiniões que discordem, que aceitem que somos diferentes em nossas perspectivas de mundo. Precisamos de empatia, pelo bem de nossos relacionamentos. Por outro lado, queremos também pessoas verdadeiras, que sentem raiva e pedem desculpa ao se exceder, que sentem medo e demoram a se encorajar, que sofrem por suas perdas e fazem o melhor que podem para voltar a se alegrar. Precisamos aceitar nossa humanidade, para só então elevarmos nossas intenções.

Em paralelo, a confiança está na base dos relacionamentos saudáveis. Sua ausência é a primeira, e mais importante, das disfunções de uma equipe de trabalho. A falta de confiança leva ao medo de nos engajarmos em conflitos saudáveis, necessários para o aprimoramento de produtos, serviços, processos e estratégias. Com medo dos conflitos, não temos colaboração efetiva e deixamos de pensar no time para focar em defender nossos próprios interesses caso as coisas deem errado. Viramos máquinas de oferecer justificativas ou nos tornamos caçadores de bruxas e fantasmas.

O comportamento que chamou minha atenção já é velho conhecido da indústria do entretenimento. Franquias de heróis, séries e filmes de personagens enraivecidos exploram há tempos a figura de protagonistas cheios de defeitos, pessoas “quase normais”, que cometem seus deslizes enquanto também realizam boas ações. Eles costumam ganhar aprovação por seu carisma e por apresentarem sentimento, e propósito, nos seus movimentos.

O sucesso de bilheteria desses blockbusters se deve a um processo de catarse, cuja definição é “experimentar a liberdade em relação a alguma situação opressora, tanto psicológica quanto cotidiana”. Nos projetamos como personagens desses filmes e nos sentimos aliviados, tomando emprestado um sentimento de autenticidade que cada vez mais nos é negado no mundo real.

Assim é que comportamentos emocionalmente inteligentes não podem se apartar da verdade, ou se transformam em protocolos de etiqueta que ninguém deseja seguir e manuais de bons costumes que não combinam com a dureza do dia a dia. Em tempos tão confusos e por vezes tão tensos, precisamos de pessoas que transmitam sinceridade em seu olhar, que sejam generosas, desde que com exemplos reais, e capazes de proferir palavras de afeto apenas quando assim sentirem em seus corações.

Este artigo foi originalmente publicado no LinkedIn por Alessandra Gonzaga, Ph.D., cofundadora da Conexão IE.

Leia o artigo original: https://www.linkedin.com/pulse/abstin%C3%AAncia-de-verdade-alessandra-gonzaga-ph-d-/ Continue a jornada: conheça a Academia IE e o livro Conectados: Competências Socioemocionais na Era do Caos.

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