setembro 30, 2026
O terreno pantanoso do tanto faz: quando sentimos tudo ao mesmo tempo
O que emoções têm a ver com negócios
Quem diria que a psicologia evolutiva poderia nos ajudar a compreender o momento que estamos vivendo? A pergunta me ocorreu em uma aula para executivos na última semana, quando abríamos uma jornada de desenvolvimento com integrantes de empresas familiares e seus sucessores de gestão. A disciplina? Justamente Inteligência Emocional.
Em programas como esse, sempre paira uma pergunta importante: afinal, o que estudar emoções tem a ver com negócios e tomada de decisão? Tem muito. Organizações são sistemas de decisão, relacionamento e adaptação. E decisões, relações e respostas a ameaças nunca acontecem fora da nossa experiência emocional. Ou, como costumamos dizer, o comportamento e os relacionamentos ocorrem do campo intrapessoal para o interpessoal, de dentro para fora. Por isso, qualquer aprendizagem socioemocional começa pelo autoconhecimento e pela literacia emocional.
A flor das emoções
Naquele encontro, uma das imagens que mais mobilizou o grupo foi a roda das emoções de Robert Plutchik, um modelo que parte de uma perspectiva evolucionista: emoções cumprem funções adaptativas.
[Inserir aqui a imagem da Flor de Emoções de Plutchik — Conexão IE, 2026]
Para ler a flor, como os alunos costumam chamá-la, é preciso olhar para o meio de cada pétala. Assim, em sentido horário e começando pelo medo, seguimos para surpresa, tristeza, nojo, raiva (ou irritação), ansiedade (ou antecipação), alegria, e fechamos na confiança. Cada uma dessas emoções traz uma diferença de intensidade, na extensão de cada pétala, que se amplia em direção ao centro, modulando nossa resposta.
Essa mesma intensidade modifica a experiência: a apreensão pode se transformar em medo e chegar ao terror; o aborrecimento pode crescer até virar pura ira; a aprovação pode virar admiração. A flor ainda entrega diversas camadas de interpretação: as polaridades entre emoções, como alegria e tristeza, e as combinações entre pétalas, como o remorso, que nasce entre a tristeza e o nojo. E dá início aos mapas de famílias emocionais, desenvolvidos a partir do trabalho de Paul Ekman e imortalizados no filme Divertidamente, da Pixar. Muitas formações da Conexão IE exploram toda essa literacia emocional.
De volta a Darwin
Essa conversa sobre os motivos por trás das nossas respostas emocionais me levou de volta a Darwin e a *A expressão das emoções no homem e nos animais*, de 1872, primeiro livro sobre comportamento e expressão emocional, que tenho aqui ao meu lado na edição comemorativa dos 200 anos de seu nascimento.
É incrível como as descrições que ele fez das expressões emocionais, antes mesmo de o mundo entrar na revolução industrial, seguem valendo para a nossa era, em que máquinas são ensinadas a compreender nossos sentimentos e as respostas que eles geram. Que lições podemos tirar? As mais importantes dizem respeito ao mundo emocional como base do nosso comportamento, das nossas decisões e das nossas respostas nas interações.
Emoções fazem parte de uma longa história de adaptação. Ajudaram nossos ancestrais a perceber ameaças, aproximar-se, afastar-se, proteger, atacar, buscar apoio e escolher caminhos. Elas oferecem rotas adaptativas para os contextos da vida e nos ajudam a lidar com perdas, injustiças e dificuldades de toda sorte. Por isso valem para qualquer era da humanidade.
Em outro artigo, “Como búfalos, não hienas”, escrevi sobre o valor de encarar os perigos da vida com firmeza, preparação e determinação. Lá, a metáfora estava na capacidade de avançar em grupo em direção à tempestade, em vez de prolongar indefinidamente a fuga ou reagir nervosamente a ela. Desta vez, considerando nosso imbróglio político, institucional e econômico, existe um problema mais complexo do que sentir medo, raiva ou apatia diante de uma ameaça: o que acontece quando sentimos tudo ao mesmo tempo? O que acontece quando estamos atolados em tantas respostas emocionais que fica difícil se movimentar?
O pântano que estamos atravessando
Extremos ocupam nossa paisagem nacional há alguns meses. Discussões políticas, insegurança institucional, incertezas econômicas, conflitos sociais, excesso de informação, mudanças tecnológicas que avançam rápido demais. Aqui no Rio Grande do Sul, nossa relação com o clima e as chuvas é de sofrimento e volatilidade constante para milhares de pessoas. Em uma semana, passamos por calor intenso, tempestades, granizo e frio congelante.
Individualmente, até conseguimos identificar o caleidoscópio de emoções envolvidas: ansiedade, apreensão, insegurança. E também raiva, desgosto ao ouvir autoridades, tristeza diante das perdas. O problema é quando tudo parece vir junto, como água de enxurrada. E não há vazão, porque os problemas se acumulam.
Quando medo, indignação, cansaço, desprezo, impotência e antecipação começam a falar juntos, as emoções deixam de cumprir a função de bússola. É quando já sentimos tanto que não é mais possível distinguir o que vem primeiro.
Sentimento demais, clareza de menos
Brené Brown dedica uma parte de *Atlas of the Heart*, de 2021, a uma palavra que explica bem esse excesso do sentir: overwhelmed, que podemos traduzir simplesmente como estar tomado de emoções. Esse sentimento vai além de se perceber estressado e diz respeito a uma intensidade emocional e cognitiva tão grande que a capacidade de funcionar, de se mover diante dos estímulos, fica comprometida. Uma das descrições que ela apresenta é especialmente boa: em uma escala de zero a dez, a intensidade das emoções pode estar em dez, nossa atenção a elas em cinco e nossa compreensão do que sentimos em dois. Há sentimento demais e clareza de menos, como se estivéssemos atolados no centro da flor de Plutchik.
Uma imagem específica ajuda a explicar esse estado: Brown associa a sensação a estar próximo de areia movediça. Pensando em ecossistemas brasileiros, poderíamos aproximá-la da experiência de caminhar em meio a um pântano. O pântano explica bem o excesso de emoções estagnadas e também serve de metáfora para outro nome que se dá a isso, especialmente em interpretações psicanalíticas: angústia. Tanto no pântano quanto na angústia, falta estabilidade para cada passo, falta base para sustentar o avanço na vida. Em ambos, os transbordamentos dificultam a orientação, e pode ser difícil respirar, encontrar referência, sustentar posição.
O terreno pantanoso do tanto faz
Esse terreno parece indiferença, serenidade ou adaptação, mas na verdade é saturação. Tanto faz qual notícia. Tanto faz qual conflito. Tanto faz quem disse. Tanto faz se é verdade. Tanto faz se é grave. Tanto faz se me afeta. Não porque nada importe, mas porque coisas demais importaram ao mesmo tempo, durante tempo demais. E não sabemos mais o que fazer com tudo isso. Aliás, quem somos nós, cidadãos comuns, diante de ameaças tão grandes e poderosas?
Isso muda também a ideia de segurança e até de inteligência emocional. Engana-se quem acha que uma pessoa emocionalmente inteligente vive uma existência em que medo, tristeza, raiva, angústia ou impotência estão proibidos de entrar. É justamente a alta capacidade de leitura e regulação emocional que permite permanecer presente quando os convidados mais infames chegam para dar más notícias a respeito da nossa leitura de mundo. É preciso coragem para perceber o caos do mundo sem abandonar a experiência. A recompensa é, pelo reconhecimento do terreno e pela licença para respirar, encontrar algum chão interno. Para só então escolher como se movimentar.
Não matemos as mensageiras
Meu episódio mais recente da Travessia da Escuta, sobre aceitação emocional, fala de forma um pouco mais gentil sobre tudo isso. E lembra que emoções funcionam como informação. Então não vamos matar as mensageiras.
Antes de perguntar “o que eu faço com isso?”, é preciso conseguir responder “o que é isso que estou sentindo?”. Emoções que não recebem nome não deixam de agir: elas apenas agem no escuro, fora do alcance da nossa consciência. A aceitação emocional é esse movimento anterior à ação, e diz respeito a nomear, aceitar e validar cada camada dos nossos sentimentos, para só então criar espaço para qualquer movimento de transição.
Como capivaras, porque é preciso continuar
Entre tantas notícias avassaladoras sobre as brigas entre autoridades, me deparei com uma que serviu de alívio cômico. Minha torcida e minha atenção foram totalmente direcionadas para uma capivara do Pantanal. A cena ocorreu na Transpantaneira, em Poconé, e foi registrada pelo empresário e fotógrafo Felipe Campos. Ele contou que outras lagoas da região já estão secas por causa do calor e que aquela tinha bastante água, o que pode ter atraído muitos animais, incluindo garças e jacarés. E nos oferece exatamente o espaço pantanoso do qual estávamos falando.
Os jacarés são muitos e cercam toda a área pantanosa do lago. A capivara segue plena. Não transforma nenhum deles em planta aquática, não se associa a eles, nem os confunde com as garças. Não pensa positivo sobre a situação. Não fecha os olhos para o risco do terreno. E, principalmente, também não paralisa.
Ela bebe sua água, percebe o risco e ajusta o trajeto. Sua travessia é profundamente inteligente. O foco é atravessar o pântano, sem que seja preciso acreditar que ele é seguro. A adaptação consiste em preservar movimento suficiente para atravessar o pior.
Dar nome devolve margens
Sair do pântano implica distinguir emoções, não deixar de sentir. Isto é medo, e me faz ver nuvens cinzas no horizonte. Isto é raiva, e me provoca a defender o que acredito. Isto é tristeza, e me permite chorar minhas perdas. Isto é exaustão, e me pede para dormir antes da resposta. Isto é impotência, que me isola e diz que tenho menos valor do que gostaria. Dar nome devolve margens ao que havia transbordado. Oferece direção.
Distinguir emoções é recuperar uma perspectiva ampla para a paisagem, sem se deixar atolar pelo excesso. Com visão e sentido, o jacaré volta a ser jacaré, a água volta a ser água e o lugar desejado é estável e seco.
Nessa reflexão, a capivara é o totem perfeito para a resiliência diante do terreno pantanoso da atualidade. No imaginário contemporâneo, ela se tornou essa figura simpática, associada à calma, à convivência e à adaptação. Ao mesmo tempo, ela não é ingênua. Na cena do Pantanal, não ignora os jacarés. Ela não escolhe o tanto faz. Isso sim seria estar totalmente entregue aos perigos, desistir ali mesmo de sobreviver e continuar.
Com um longo suspiro, porque ainda há meses de incerteza e angústia à frente, penso que é para momentos como esse que estudo e ensino Inteligência Emocional. Os jacarés vão continuar nos cercando, e o pântano não vai se tornar um lugar seguro. Mas, de alguma forma, reconhecer o terreno que habitamos implica distinguir o que estamos sentindo. Só assim é possível recuperar alguma capacidade de escolha.
Perguntas frequentes
O que é a roda das emoções de Plutchik?
É um modelo criado por Robert Plutchik que organiza as emoções a partir de uma perspectiva evolucionista, mostrando oito emoções básicas, suas variações de intensidade, suas polaridades e as combinações entre elas.
O que significa estar “tomado de emoções”?
É o estado que Brené Brown descreve como overwhelmed: uma intensidade emocional e cognitiva tão grande que compromete a capacidade de funcionar e de se mover diante dos estímulos. Há muito sentimento e pouca clareza sobre o que se sente.
Ser emocionalmente inteligente é não sentir medo, raiva ou tristeza?
Não. É justamente a capacidade de leitura e regulação emocional que permite permanecer presente quando essas emoções chegam, em vez de evitá-las.
O que é aceitação emocional?
É o movimento anterior à ação: nomear, aceitar e validar cada camada do que se sente, para só então criar espaço para qualquer transição. Emoções que não recebem nome continuam agindo, mas fora do alcance da consciência.
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Artigo de Alessandra Gonzaga, PhD, cofundadora da Conexão IE, mentora executiva e professora.
Ouça o episódio sobre aceitação emocional na Travessia da Escuta: https://open.spotify.com/show/033YynA3k6d16XxOQgIm8O
Continue a jornada: conheça a Academia IE e o livro *Conectados: Competências Socioemocionais na Era do Caos*.