setembro 28, 2026

Lealdade ao sistema e tomada de decisão: o que acontece quando mudar de ideia custa pertencimento

A carga emocional das conversas difíceis

Estamos a poucos dias das eleições e, mais uma vez, tenho sido abordado por pessoas curiosas em saber como vou me decidir. Isso não chega a ser novidade para mim. Nas últimas eleições, eu ainda atuava como professor universitário e era frequentemente desafiado por meus alunos a discutir posições políticas em sala de aula.

Nunca foram conversas fáceis. Havia, naturalmente, os limites éticos impostos pela própria atividade docente: diferentes posições políticas precisavam encontrar espaço para serem apresentadas e debatidas. Mas havia também outro componente, muito mais difícil de administrar: a carga emocional que rapidamente se instalava. Às vezes, bastava um aluno apresentar uma posição com mais intensidade para que outro respondesse no mesmo tom. E, uma vez iniciado esse movimento, manter a conversa em uma linha aberta, ponderada e genuinamente interessada em compreender o outro se tornava progressivamente mais difícil.

Modelos mentais e ideologias

Como professor de Economia, eu tentava aproveitar esses momentos para discutir o próprio fenômeno que estávamos vivendo. Entre os autores que gostava de trazer estava Douglass North, laureado com o Nobel de Economia em 1993. Em sua conferência do Nobel, North questiona alguns dos pressupostos tradicionais de racionalidade da teoria econômica e destaca o papel que crenças, modelos mentais e ideologias exercem sobre nossas escolhas.

Para North, nossas decisões não são tomadas a partir de uma leitura objetiva e completa da realidade. Construímos modelos mentais para interpretá-la. E, quando esses modelos passam a ser compartilhados por grupos, temos aquilo que ele chama de ideologias: estruturas compartilhadas de modelos mentais que fornecem não apenas uma interpretação do ambiente, mas também uma prescrição sobre como esse ambiente deveria ser organizado.

Isso me ajudava a explicar parte do que eu via em sala de aula, mas permanecia uma pergunta: por que nos apegamos tanto a determinados modelos de mundo, mesmo quando somos confrontados com informações que poderiam nos levar a revisá-los?

Outras lentes para a mesma pergunta

Nos últimos anos, comecei a olhar para essa questão também por outra perspectiva. Um ano depois das últimas eleições presidenciais, deixei a docência universitária e iniciei uma nova transição de carreira, que me levou a cursar mais um mestrado, dessa vez em Psicologia Organizacional. O contato mais próximo com teorias psicológicas, relacionais e sistêmicas acrescentou outras possibilidades de interpretação a questões que, durante muito tempo, eu havia observado principalmente pela Economia e pela teoria da decisão.

Há um motivo particular para eu trazer algumas dessas ideias justamente agora. As discussões políticas não acontecem apenas nas redes sociais, nos debates ou nas campanhas eleitorais. Elas entram dentro das casas. Entram nos grupos de WhatsApp da família. Aparecem no almoço de domingo. Alteram conversas entre pais e filhos, irmãos, amigos de décadas. Em alguns casos, produzem afastamentos que ultrapassam em muito a divergência sobre determinado candidato ou determinada política pública.

É justamente aí que algumas teorias desenvolvidas originalmente para compreender famílias e grupos podem oferecer lentes interessantes para pensar a tomada de decisão.

Faço aqui uma ressalva importante: não estou sugerindo que teorias da terapia familiar expliquem a polarização política de uma sociedade, muito menos que todos os autores que apresentarei pertençam à mesma escola teórica. Não pertencem. Estou usando conceitos de diferentes tradições da terapia familiar, da teoria sistêmica e da psicanálise de grupos como lentes para formular uma pergunta muito mais específica: o que acontece com nossa capacidade de decidir quando uma escolha deixa de envolver apenas argumentos e passa a envolver também pertencimento?

Lealdades invisíveis

Um dos autores que ajudam a pensar essa questão é Ivan Boszormenyi-Nagy, um dos fundadores da terapia familiar contextual, que desenvolveu o conceito de lealdades invisíveis.

Nossos vínculos carregam compromissos, reciprocidades, obrigações e lealdades que nem sempre percebemos claramente. Fazemos parte de redes relacionais nas quais dar, receber, pertencer e reconhecer o outro têm enorme importância. Uma pessoa pode, portanto, sustentar determinados comportamentos não apenas porque, examinados isoladamente, eles lhe pareçam os melhores, mas porque agir de outra forma pode ser vivido como uma ruptura de fidelidade com pessoas importantes.

Isso não significa que a lealdade seja um problema, muito pelo contrário. Lealdade sustenta confiança, continuidade, identidade, história familiar e comunidade. Grande parte da nossa segurança psicológica depende da sensação de que pertencemos a alguma coisa e de que algumas relações continuarão existindo apesar das circunstâncias.

O problema para a tomada de decisão aparece quando reexaminar uma crença começa a representar também um risco relacional. Nesse momento, a pessoa já não está simplesmente comparando alternativas. Talvez esteja avaliando, consciente ou inconscientemente: o que acontece comigo e com minhas relações se eu mudar de opinião?

Ou, em uma formulação ainda mais incômoda: até que ponto escolhemos determinada posição porque acreditamos nela e até que ponto continuamos acreditando nela porque ela nos mantém pertencendo?

Essa me parece uma pergunta muito mais interessante do que simplesmente concluir que as pessoas são irracionais. Porque talvez não exista apenas um problema de racionalidade envolvido. Existe um possível custo de pertencimento. Mudar de ideia pode significar contrariar pessoas que admiramos. Pode criar desconforto dentro da família. Pode nos afastar de um grupo no qual construímos amizades. Pode nos obrigar a revisar afirmações que defendemos publicamente durante anos. Em determinadas situações, revisar uma crença significa revisar também uma parte da nossa própria narrativa.

O sistema prefere permanecer reconhecível

Outra ideia clássica das abordagens sistêmicas familiares é a de homeostase. Ao longo do tempo, sistemas relacionais desenvolvem padrões que lhes dão certa estabilidade. Esses padrões não precisam ser necessariamente os melhores para cada integrante do sistema. Precisam apenas ser suficientemente conhecidos e previsíveis para manter determinado funcionamento. O conceito foi posteriormente criticado e refinado dentro da própria tradição sistêmica, e alguns autores preferem falar em coerência, justamente para evitar a impressão de que famílias ou grupos possuam uma vontade própria de voltar ao equilíbrio.

Se a lealdade ajuda a compreender o vínculo, a homeostase ajuda a compreender a estabilidade. Com o tempo, grupos constroem histórias, símbolos, papéis, explicações, códigos, heróis, antagonistas e formas próprias de interpretar acontecimentos. É assim nas famílias. É assim também em equipes e organizações.

Quando alguém altera significativamente sua posição, portanto, não muda apenas uma opinião. Pode provocar uma perturbação na maneira como os demais integrantes reconhecem aquela pessoa e até mesmo na narrativa que o próprio grupo construiu sobre si. Isso cria uma hipótese importante para quem se interessa por tomada de decisão: algumas pressões para conservar uma posição podem nascer menos das evidências disponíveis e mais da necessidade de preservar a coerência das relações.

Diferenciação do self

Aqui entra outro autor muito importante da teoria sistêmica familiar: Murray Bowen. Um de seus conceitos centrais é a diferenciação do self. Simplificando bastante, diferenciação é a capacidade de permanecer emocionalmente conectado a outras pessoas sem precisar pensar, sentir e agir exatamente como elas.

Famílias e outros grupos exercem diferentes graus de pressão por conformidade. Da mesma forma, pessoas diferem em sua capacidade de manter clareza sobre suas próprias posições quando estão diante da aprovação, da desaprovação ou da ansiedade dos outros.

E aqui aparece uma ideia que considero particularmente importante para quem estuda decisões: a qualidade de uma decisão não depende apenas da nossa capacidade de raciocinar, mas também da nossa capacidade de suportar emocionalmente a possibilidade de discordar do próprio grupo. Quanto maior a carga emocional de uma situação e quanto maior nossa necessidade de aprovação e pertencimento, mais difícil pode se tornar distinguir o que eu penso do que nós pensamos.

Diferenciação é conseguir continuar em relação mesmo diante da diferença. Talvez essa seja uma competência particularmente necessária em tempos de polarização: conseguir dizer “eu penso diferente” sem que isso necessariamente se transforme em “eu não pertenço mais a vocês”. Confesso que lembrar disso também me provoca alguns calafrios de antecipação quando penso nas reuniões familiares que se aproximam com as festas de fim de ano.

Quando a pergunta deixa de ser “o que faz sentido?”

Para fechar essa reflexão, saio da teoria sistêmica familiar e entro mais propriamente na psicanálise de grupos, com Wilfred Bion. Ele diferenciava o que chamou de grupo de trabalho de certos estados emocionais coletivos organizados em torno de pressupostos básicos. Entre eles estão dependência, pareamento e luta-fuga. No estado de luta-fuga, o grupo passa a operar emocionalmente como se houvesse uma ameaça diante da qual fosse necessário lutar ou fugir.

Não quero transformar Bion em uma explicação da polarização política contemporânea. Seria uma extrapolação grande demais de uma teoria construída para compreender a dinâmica de grupos. Mas considero o conceito uma lente provocadora para pensar situações nas quais grupos estão submetidos a elevada ansiedade e percebem aqueles que estão fora deles como uma ameaça.

No grupo de trabalho, precisamos tolerar dúvida, complexidade, evidência contraditória, negociação e limites. Precisamos admitir, inclusive, a possibilidade de estarmos errados. Sob uma lógica de luta-fuga, porém, a pergunta pode mudar. Ela deixa de ser “qual alternativa faz mais sentido?” e passa a se aproximar de “de que lado você está?”.

E isso altera profundamente a natureza de uma decisão. Uma escolha que poderia ser avaliativa passa a funcionar também como sinalização de pertencimento. Aceitar um argumento do outro lado pode parecer fraqueza. Reconhecer um erro pode parecer capitulação. Revisar uma posição pode parecer traição. Quando toda decisão se transforma em uma declaração de identidade, mudar de opinião deixa de ser apenas uma revisão racional e pode parecer uma deserção.

Decidir sem deixar de pertencer

Talvez algumas das decisões mais difíceis que tomamos não sejam simplesmente aquelas em que precisamos escolher entre A e B. São aquelas em que mudar de ideia significa mexer em quem acreditamos ser e na maneira como imaginamos que seremos reconhecidos pelas pessoas às quais pertencemos.

Vista dessa forma, a polarização pode ser pensada como uma situação em que aumenta o custo psicológico e relacional de atravessar a fronteira entre posições. Quanto maior esse custo, mais difícil se torna explorar genuinamente a dúvida. E dúvida é matéria-prima de uma boa decisão. Às vezes usamos nossa capacidade de raciocinar para proteger aquilo em que já acreditamos, especialmente quando aquela crença nos conecta a outras pessoas e ajuda a sustentar uma identidade que construímos ao longo do tempo.

O desafio passa a ser desenvolver suficiente diferenciação para continuar pertencendo sem entregar ao grupo a responsabilidade de pensar por nós. E, ao mesmo tempo, reconhecer que aqueles que pensam diferente também estão inseridos em suas próprias histórias, vínculos e sistemas de pertencimento.

Isso significa preservar uma condição fundamental para qualquer decisão de qualidade: a possibilidade de continuar pensando mesmo quando pensar produz desconforto. Porque pertencer é uma necessidade humana. Pensar também. E talvez uma das formas mais maduras de convivência seja não exigir que uma delas aconteça às custas da outra.

Perguntas frequentes

O que são lealdades invisíveis?

É um conceito de Ivan Boszormenyi-Nagy, da terapia familiar contextual, que descreve os compromissos e as obrigações que carregamos em nossos vínculos, muitas vezes sem perceber, e que influenciam nossos comportamentos e escolhas.

O que é diferenciação do self?

Conceito central de Murray Bowen, é a capacidade de permanecer emocionalmente conectado a outras pessoas sem precisar pensar, sentir e agir exatamente como elas.

Como o pertencimento afeta a tomada de decisão?

Quando revisar uma posição representa também um risco relacional, a decisão deixa de ser apenas uma comparação entre alternativas e passa a envolver o custo de contrariar pessoas e grupos importantes para nós.

O que é o estado de luta-fuga em grupos?

É um dos pressupostos básicos descritos por Wilfred Bion, em que o grupo passa a operar emocionalmente como se houvesse uma ameaça diante da qual é preciso lutar ou fugir. Nesse estado, a pergunta sobre qual alternativa faz mais sentido tende a ser substituída pela pergunta sobre de que lado cada um está.

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Artigo de Marcelo do Carmo Rodrigues, MSc e MA, cofundador da Conexão IE.

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