outubro 9, 2026

Carreiras IE: Felipe Karasek e a escrita como reduto do que é nosso

Uma trajetória que não começou pela filosofia

Felipe Karasek é psicanalista, professor, doutor e mestre em Filosofia pela PUCRS, com pós-doutorado em filosofia, psicanálise e processos de subjetivação. Atua na interface entre filosofia, psicanálise, linguagem, escrita e cultura contemporânea, com trabalhos também na área de argumentação.

Ele conta que a filosofia não entrou em sua vida como uma escolha deliberada. Concluiu o ensino médio aos 16 anos, em 1997, em uma época em que os livros ainda eram a principal ancoragem e a biblioteca, com ficha de leitura, o caminho natural. Alessandra lembra de outro movimento comum naquele tempo: o apaixonamento por uma área do conhecimento a partir de um professor que cativava. Foi assim que Felipe escolheu sua primeira graduação: física. Três anos depois, migrou para a fisiologia humana e a fisiologia do exercício, formou-se e atuou como cientista de laboratório.

Quando a física encontra a filosofia

Alessandra observa que física e filosofia estiveram juntas desde o início. Felipe confirma: os chamados pré-socráticos, considerados os primeiros filósofos na tradição europeia, mostram que filosofia, física, química, biologia e as especulações sobre o mundo exterior surgem ao mesmo tempo. A sistematização das ciências particulares começa com Aristóteles. “Está tudo junto nesse começo”, resume ele. A física tem parentesco com a filosofia, e também com as questões da psique. Na época, ele não pensava assim: só descobriria isso depois.

A dupla também desfaz uma falsa dicotomia: a ideia de que quem pensa não calcula e quem trabalha com métricas não flui. Na prática, são dimensões complementares.

Da ciência dura à psicanálise

Trabalhando com pesquisa em laboratórios de fisiologia, Felipe buscou uma especialização que tinha cadeiras de filosofia da ciência. Ali aconteceu um apaixonamento pela filosofia mais pura, que ele desejou seguir como continuidade de seus estudos, sem pretender mudar de profissão. Acabou cursando uma especialização em filosofia e ensino de filosofia, escolhida simplesmente por ser a primeira disponível. Mas foi ali que veio a virada: terminou a especialização com um convite para ingressar no mestrado, em 2009, e passou a receber convites para palestras, cursos e disciplinas, inclusive para lecionar na turma seguinte da própria especialização. Fez o mestrado e as disciplinas da graduação em filosofia ao mesmo tempo.

A psicanálise apareceu nesse mesmo período. A PUCRS sempre teve uma linha de pesquisa e um corpo docente interessados na conexão entre filosofia e psicanálise. Entre 2007 e 2009, Felipe assistiu a palestras e cadeiras como ouvinte, até começar a estudar formalmente essa relação, no campo metapsicológico e teórico. Por volta de 2011, preparando-se para o doutorado, passou a buscar associações de psicanálise e grupos de estudo que o levassem a um campo que a universidade não oferecia: o clínico.

Toda formação é sempre um começo

Perguntado sobre a obra que fundou esse desejo, Felipe faz uma reflexão sobre o próprio percurso. Ele prefere não chamar essas mudanças de errâncias, porque não são. Uma formação continuada é sempre um começo: vamos estudar enquanto estivermos vivos, e não precisamos acreditar que exista uma linha precisa e já acertada. Alessandra concorda e lembra como é aterrorizante o discurso de que se escolhe, na adolescência, uma profissão para sempre. Os dois comentam ainda um problema atual: a vontade de aprender tudo com profundidade cada vez menor, o que só aumenta a angústia, porque não se dá tempo de mergulhar e aprender, inclusive, coisas que não serão usadas.

E aqui vem uma inconstância curiosa: Felipe começou pela leitura de Lacan, não de Freud.

Por que a linguagem?

Para explicar Lacan a quem está ouvindo, Felipe propõe começar um passo antes. Nos anos 1950 e 1960, a França vivia uma virada linguística a partir dos estudos de Saussure e dos jogos da linguagem. Quando Lacan formula sua premissa maior, de que o inconsciente é estruturado como uma linguagem, ele coloca na palavra falada e na palavra escutada um poder que não havia sido destacado daquela maneira.

Ele amplia o sentido de linguagem para além da linguística: a palavra falada, escutada e escrita, mas também a linguagem dos símbolos, a matemática e, como acrescenta Alessandra, a linguagem do corpo. É esse alargamento que torna o campo tão amplo.

E é aí que entra a argumentação. Como diz Felipe, o que a linguagem faz é colocar o poder na palavra. É impressionante como uma construção de palavras com ideias muito parecidas, mas organizadas de forma diferente, pode se tornar acusatória, depreciativa ou, ao contrário, acolhedora. Às vezes queremos construir a mesma ideia e, na nossa concepção de palavras, acabamos ferindo.

Palavras ferem? Também, responde ele. Mas não só. A palavra é um significante, aquilo que pode nos tocar e produzir uma afecção. E essa afecção pode vir como um atravessamento de dor, mas também como ressignificação, reelaboração e estruturação. Alessandra, jornalista de primeira formação, lembra das aulas sobre signo, significante e significado, e propõe um exemplo simples: uma coisa é escrever a palavra maçã, outra é ver uma maçã, e outra é construir um significado para ela, associando-a ao pecado original. É assim que, pelas palavras, se abre a teia de significados da mente humana.

Nietzsche, Schopenhauer e Freud

Sobre as obras que o marcaram, Felipe conta que desenvolveu seus principais trabalhos de pesquisa sobre Nietzsche e que foi um texto de uma coletânea sobre filosofia e psicanálise, aproximando Nietzsche, Schopenhauer e Freud, que despertou seu interesse. O que une os três é o conceito de pulsão, que em algumas traduções aparece como instinto.

Ele lembra que Freud desconfia das filosofias que se apresentam como sistemas fechados e prontos, nas quais vê algo de delirante, e valoriza as que convergem para a abertura, o processo, a diferença e a multiplicidade, como as de Schopenhauer e Nietzsche. Para Felipe, a leitura conjunta de *O nascimento da tragédia*, dos estudos sobre a sabedoria trágica e de *O mal-estar na cultura* foi o que o moveu em direção ao encontro entre filosofia, psicanálise e o desejo de clínica. Alessandra comenta que, para fazer essa triangulação, é preciso construir uma mente capaz de navegar em profundidades, e não de chegar rápido a algum lugar. Exatamente o oposto do nosso mal-estar atual.

Por que o mal-estar na cultura segue atual

Escrito no período entre guerras, o texto de Freud permanece atual, segundo Felipe, porque ainda estamos dentro do pacto civilizatório, com dificuldades às vezes maiores, às vezes menores. Dito de forma simples: para que possamos viver em sociedade, precisamos abrir mão de parte do que desejamos como satisfação pulsional, e isso causa mal-estar.

Ele chama atenção para a profundidade dessa renúncia, que não se resume a querer tudo para si. Está incluída aí a necessidade de não projetar no outro e no mundo a agressividade, a perversão e o desejo de eliminação do outro, elementos que também fazem parte da composição humana. A pergunta de Freud é o que mantém isso contido. Quando a cultura abre fissuras para que esses conteúdos irrompam, perde-se parte do pacto civilizatório.

Alessandra lembra de um trecho do texto que a impactou a ponto de precisar interromper a leitura: aquele em que Freud trata das tentativas de evitar o mal-estar, como o homem que cuida do próprio jardim. Felipe vê nesses gestos tentativas de cuidado de si, que podem funcionar como vias sublimatórias. Se encontrássemos sempre caminhos sublimatórios em vez de destrutivos, o cenário seria muito bom, mas nem sempre é isso que acontece. Por isso, com Freud, ele prefere ser menos otimista e organizar melhor o pessimismo, com a ajuda de Schopenhauer e do próprio Nietzsche.

A escrita como reduto

Alessandra traz a inteligência artificial para a conversa, lembrando que se fala hoje em soberania cognitiva: a capacidade de olhar para um texto e reconhecer o que nos representa e o que não é mais nosso. Ela pergunta como as mudanças tecnológicas atravessam alguém com essa densidade de pensamento.

Felipe responde que talvez estejamos diante de uma transformação no próprio significado de escrever, e que ainda não sabemos dizer qual é. Sobre as IAs, ele reconhece que, para alguns trabalhos burocráticos, podem ser ótimas e nos devolver horas no dia. Mas, para a produção criativa, que é o que mais importa para ele, a escrita é um reduto que ninguém vai invadir.

Para ele, escrever é uma relação com o tempo. Em um mundo acelerado, o texto criativo é um lugar de reencontro com um tempo interno, que resiste à pressa e produz na lentidão que a escrita exige. Uma atividade contemplativa, quase um reduto de cuidado, com uma ética que não se deixa atravessar. Há coisas que só se pensa enquanto se escreve, e às vezes é preciso deixar um parágrafo em aberto e viver um dia até que ele se resolva.

Alessandra se reconhece nessa descrição e lembra de *A louca da casa*, da escritora Rosa Montero, em que a autora fala do estranho ofício de passar anos isolada conversando com seres que não existem, e também da imagem do ovinho, a ideia ainda embrionária que se anota para puxar depois. A dupla conversa ainda sobre o livro mais recente de Alessandra, *O que cabe na sua bolsa*, sobre símbolos do feminino, e sobre como uma boa escrita faz esquecer as horas.

Satisfatório não é o mesmo que bom

Nesse ponto, Felipe faz uma distinção importante: o que é satisfatório não precisa ser bom. A escrita envolve uma relação existencial completa, e a existência não é só boa. Ela é angustiante, traz dúvidas, momentos de paralisia, de atividade e de passividade. Alessandra conta que chorou copiosamente ao escrever o desfecho de um de seus livros, e que foi justamente essa profundidade do sentir que tornou a experiência satisfatória. Para Felipe, trata-se de reconhecer uma outra epistêmica, a do sentir, que não precisa ser exclusivamente a do conhecimento racional.

Subjetivação e singularização

Felipe acabou de lançar *Um salto no vazio: sensibilizações psicanalíticas*, uma coletânea de ensaios sobre o significado da escrita, a escrita psicanalítica e os diferentes sentidos de sintoma.

Ele explica o que entende por subjetivação em camadas. Na primeira, somos, como sujeitos, o resultado daquilo que a cultura fez conosco: a moral, a lei, a família, o ambiente, todos os lugares que nos formaram. Alessandra acrescenta uma definição que ouviu de seu orientador de doutorado: a cultura é o caldo em que somos cozidos.

Em algum momento, porém, pode-se entrar em uma segunda camada, quando essa mochila organizada por outros começa a pesar demais. O que, de fato, é meu aqui dentro? O que eu não gostaria mais de carregar? Esse movimento, que Felipe chama de singularização, pensando com Guattari, é uma posição ativa: deitar a mochila no chão, abrir e tirar o que não se quer mais levar. Se a subjetivação é ver-se como resultado de tudo isso, a singularização é desejar revisitar e escolher como se quer viver daqui para frente. E há ainda outra camada: a de levar afeto e sensibilidade para que outras singularizações aconteçam, na docência, na clínica ou em uma conversa.

Para falar disso, Felipe cita a imagem de Deleuze sobre o arqueiro que lança flechas por trás de uma montanha, onde estão os alvos. Ele nunca vê onde a flecha cai nem sabe se acertou. Seu interesse está na motivação de lançar.

A folha em branco tem um rascunho ao lado

Alessandra se diverte com a coincidência: seu livro percorre objetos de uma bolsa e o que eles simbolizam, como a carteira vermelha, ligada à relação com o dinheiro, e o blush alaranjado de quem tenta parecer algo em uma entrevista de emprego. São sete mulheres, cada uma associada a uma cor, todas lidando com o peso da sociedade. E o livro termina com uma folha em branco, como o arqueiro que segue lançando flechas sem enxergar o alvo.

No recado final, Felipe retoma essa imagem. A singularização pode acontecer ou não, porque cada vida é uma vida: se há vontade de mexer nisso, que se mexa; se não há, talvez ainda não seja o tempo. Mas a folha em branco só chega ao lado de outra folha, aquela que ficou cheia de rasuras depois que a mochila foi colocada no chão. Lembrando Derrida, ele observa que às vezes a força do que foi apagado deixa na folha uma marca maior do que o que estava escrito antes.

Somos nossa história inteira, e não há por que negá-la. Um dia carregamos aquela mochila cheia; agora é possível escolher algumas coisas e viver com um pouco mais de leveza. Não é preciso começar do zero, porque a folha em branco tem um rascunho ao lado, com o que funcionou em algum tempo. E, quando deixa de funcionar, não se trata de uma perda, e sim de uma transfiguração, a possibilidade de algo outro.

Perguntas frequentes

Quem é Felipe Karasek?

Psicanalista, professor e pesquisador, doutor e mestre em Filosofia pela PUCRS, com pós-doutorado em filosofia, psicanálise e processos de subjetivação. Atua na interface entre filosofia, psicanálise, linguagem, escrita e cultura contemporânea.

O que significa dizer que o inconsciente é estruturado como uma linguagem?

É a premissa central de Lacan, que atribui à palavra falada e escutada um poder que até então não havia sido destacado dessa forma na psicanálise, ampliando o sentido de linguagem para além da linguística.

Por que *O mal-estar na cultura* ainda é atual?

Porque, segundo Felipe Karasek, seguimos dentro do pacto civilizatório, que exige a renúncia a parte da satisfação pulsional para que a vida em sociedade seja possível. Essa renúncia é justamente a fonte do mal-estar.

Qual a diferença entre subjetivação e singularização?

Subjetivação é perceber-se como resultado da cultura, da família e do ambiente que nos formaram. Singularização é a posição ativa de revisitar essa herança e escolher o que se deseja carregar daqui em diante.

A inteligência artificial pode substituir a escrita criativa?

Para Felipe, não. Ele reconhece a utilidade das ferramentas em tarefas burocráticas, mas entende a escrita criativa como uma relação com o tempo e um reduto de cuidado que não se entrega.

Onde acompanhar os próximos episódios do Carreiras IE?

No canal da Conexão IE no YouTube, dentro da série de podcast Arena IE.

—

Este artigo foi produzido a partir do episódio do quadro Carreiras IE, apresentado por Alessandra Gonzaga, com a participação de Felipe Karasek.

Assista ao episódio completo: https://www.youtube.com/watch?v=jX9sI0Dc-oI

Conheça o livro *Um salto no vazio: sensibilizações psicanalíticas*: https://isasul.com.br/lancamentos/um-salto-no-vazio-sensibilizacoes-psicanaliticas.html

Continue a jornada: conheça a Academia IE e o livro *Conectados: Competências Socioemocionais na Era do Caos*.