outubro 9, 2026

Empreender não é individual: Ubiratã Rezler e a sucessão que se constrói em comunidade

O mestre de ofício dos dias de hoje

Marcelo abre a conversa contando que a pauta original era sobre indústria, inovação e inteligência artificial, mas mudou depois de ler um artigo que Bira havia publicado no LinkedIn. Ex-professor de economia, Marcelo lembra das corporações de ofício na transição do feudalismo para o mercantilismo: o mestre dominava a arte de transformar a matéria-prima, dava o sobrenome ao ofício, formava aprendizes, muitas vezes da própria família, e acabava exercendo um papel político na comunidade. Para ele, Bira ocupa hoje um lugar semelhante: sucessor de uma empresa nascida em uma oficina nos anos 1970, à frente de dois negócios e envolvido com a universidade e com as entidades que cuidam do desenvolvimento local.

Quem é Ubiratã Rezler

Bira é diretor da Rezler Indústria de Chavetas e Usinados e da RZB Moldes e Usinagem, e preside a CIC Caxias (Câmara de Indústria, Comércio e Serviços de Caxias do Sul). Médico veterinário formado pela UFSM, com especialização e mestrado na mesma instituição, atua também como vice-presidente da FIERGS, presidiu o Simecs e preside a Fundação Universidade de Caxias do Sul. Ele conta que gosta especialmente de falar sobre sucessão, tema que leva tanto para as empresas quanto para as entidades em que atua.

A decisão de voltar

A empresa da família foi fundada pelo pai em 1972, dois anos antes de Bira nascer, e hoje caminha para os 55 anos. Ele e os irmãos trabalharam no negócio desde cedo: Bira começou aos 12 anos e saiu aos 18 para cursar Medicina Veterinária. Em 2009, morando em São Paulo, decidiu voltar. Ele conta que algo dentro dele dizia que aquele tempo havia passado e que era hora de retornar, movido por gratidão e senso de pertencimento. Foram os investimentos do pai que permitiram sua formação, seu mestrado e sua carreira. Na empresa em que trabalhava, viu a companhia ser fundada, vendida e revendida, e não queria esse destino para o negócio da família.

Capacitar a empresa, não só suceder

Ao voltar, Bira diz que olhou para a empresa não apenas com a lente da sucessão, mas da capacitação. Ele observa que muitos jovens, e também muitos profissionais hoje, olham para o negócio do momento e querem o máximo agora, sem planejamento de futuro. Seu objetivo era tornar a empresa sustentável ao longo do tempo. Para isso, diz, o primeiro passo é não ter vergonha das próprias fragilidades: ninguém sabe tudo, e compartilhar dúvidas e necessidades encurta caminhos. Foi assim que entrou nas associações, entre elas o arranjo produtivo local metalmecânico e automotivo da Serra Gaúcha, que chegou a presidir.

Cada coisa no seu tempo

Bira conta que viveu anos entre dois mundos: o da veterinária, que gostava e não queria largar, e o da empresa. Em vez de abandonar um deles de forma abrupta, pediu ao pai um dia por semana para suas atividades como veterinário. Criou animais, deu aulas na UCS e na FSG e chegou a ser coordenador de curso, sempre conciliando com a empresa e as entidades. Para ele, a decisão pode ter demorado, mas foi tomada no tempo certo e com consciência, não por imposição. Hoje, após o falecimento do pai, a empresa vive uma nova fase de transição, em que é preciso entender o que cada sócio deseja e como o negócio vai evoluir.

Menos herdeiros, menos vontade de suceder

Marcelo apresenta duas observações. A primeira vem de seus anos como professor: no início da carreira docente, a maioria dos alunos pretendia começar a vida profissional como empregada; nos últimos anos, quase todos queriam empreender, muitas vezes com visão de curto prazo. A segunda é demográfica: as famílias ficaram menores a cada geração, o que reduz o número de possíveis sucessores. Somadas, as duas tendências deixam as empresas familiares mais frágeis. Bira confirma: recebe com frequência empresários querendo vender o negócio porque os filhos não querem assumir. Ele lembra ainda que a sucessão nas empresas e nas associações caminha junto: sem empresas prósperas, as entidades que as representam deixam de existir.

Como o negócio é apresentado em casa

Para Bira, a disposição de um jovem para suceder depende muito de como o negócio é apresentado a ele. Ele admite se policiar: trabalha muito, nas empresas e nas entidades, e os filhos pedem que ele pare. Na noite anterior à gravação, estava resolvendo pendências na casa da mãe quando a filha tirou o celular de sua mão e pediu sua presença. Para ele, quando o negócio é apresentado mal, a percepção também é negativa, o que acontece muito com a imagem que os jovens têm da indústria, vista como um lugar sujo, barulhento e insalubre. Por isso, sempre levou os filhos à empresa desde pequenos, nem que fosse por dez minutos aos sábados, com um quadro grande para desenharem, até que passassem a gostar de estar lá. Quando comprou a segunda empresa, disse a eles que fazia isso pensando neles, embora reconheça que o fez também por si mesmo, na esperança de que alguém queira dar continuidade.

E se não houver sucessor?

Bira considera essa uma das grandes preocupações do futuro. A alternativa, segundo ele, está nas parcerias e na colaboração: mesmo sem um sucessor, é possível unir negócios e construir algo maior junto com outros empresários. É nesse ponto que entram as associações e os sindicatos, que ajudam a criar essas pontes.

Não existe microempreendedor individual

Marcelo observa que, embora se diga que as microempresas são a base da economia, falta no Brasil uma cultura de empreendedorismo familiar e coletivo. Bira concorda: quando alguém empreende, a família vai junto, porque é no sábado, no domingo e no almoço de família que o fluxo de caixa é resolvido. O que mais o assusta é o microempreendedor que olha apenas para si, acreditando ser autossuficiente, quando na verdade depende do todo para crescer. Muitos abrem negócios a partir de um dissabor no emprego anterior, sem estrutura financeira, plano de trabalho ou planejamento estratégico. Em Caxias do Sul, lembra, há cerca de 85 mil CNPJs, e pelo menos metade são microempreendedores. Ele destaca o papel dos núcleos da CIC Caxias em apoiar esses empresários, porque nenhum organismo empresarial nasce para estagnar.

Confiança se constrói como um namoro

Marcelo acrescenta a visão da economia comportamental: diante da racionalidade limitada, do oportunismo e da assimetria de informação, estabelecer relações de confiança é o que viabiliza parcerias e sociedades. Sozinho, sempre vai faltar algo: conhecimento, capital ou alguém que abra portas. E essa confiança se constrói como um namoro, não como um casamento às pressas. Núcleos, associações e arranjos produtivos são justamente os espaços onde essas relações amadurecem até virarem negócios.

A solidão de quem decide

Bira compartilha um ponto sensível. Durante a sucessão natural na empresa, com o pai envelhecendo, percebeu que tomava praticamente todas as decisões sozinho. O pai dividia com ele questões de investimento, mas não as estratégicas, e ele se sentia só. Seus apoios de decisão vinham do associativismo. Por isso, estruturou dentro da empresa um programa formal de sucessão, com consultoria, e chamou os irmãos para perto, para decidirem juntos o futuro do negócio. Ele reconhece a dificuldade de separar o emocional do racional em questões familiares, mas considera essencial que quem está à frente de um negócio, homem ou mulher, não olhe para ele com uma visão única. Em sua experiência, quem se fecha não prospera. Ele percebe na serra uma cultura de esconder as coisas por medo de dividir, algo que considera nefasto: a empresa precisa de oxigenação. Para ilustrar, usa uma imagem: quem fica dentro de casa só enxerga o que há ali dentro; é preciso ir até a sacada e olhar a casa de fora.

Dividir a dor para crescer junto

No recado final, Bira reforça a importância da colaboração. Ele conta que sempre atuou como voluntário nas associações de que participou, e que a equipe da vice-presidência da CIC Caxias também é voluntária, reunida já nas primeiras horas da segunda-feira. Seu convite é para que o empresário participe de uma associação e divida com outros empresários experientes suas dúvidas e, principalmente, suas dores, porque é a partir delas que o apoio acontece. Afinal, quando um negócio não evolui, não é só o empreendedor que perde: várias famílias dependem dele. Para ele, o empresário precisa estar inserido em um ecossistema.

Perguntas frequentes

Quem é Ubiratã Rezler?

Empresário de Caxias do Sul, diretor da Rezler Indústria de Chavetas e Usinados e da RZB Moldes e Usinagem, presidente da CIC Caxias e vice-presidente da FIERGS. É médico veterinário de formação, com mestrado pela UFSM.

Por que empreender não é uma jornada individual?

Porque a família acompanha a rotina do negócio e porque nenhum empreendedor tem sozinho todo o conhecimento, o capital e as conexões de que precisa. Associações, sindicatos e arranjos produtivos ajudam a suprir essas lacunas.

Como preparar a sucessão em uma empresa familiar?

Segundo o episódio, reconhecendo as próprias fragilidades, buscando apoio externo, estruturando um programa formal de sucessão com consultoria, envolvendo os demais sócios nas decisões e aproximando as novas gerações do negócio desde cedo, de forma positiva.

E se não houver um sucessor na família?

Bira sugere buscar parcerias e colaborações com outros empresários, de modo que o negócio possa continuar e crescer mesmo sem um sucessor direto.

Onde assistir ao episódio completo?

No canal da Conexão IE no YouTube, dentro da série de podcast Arena IE.

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Este artigo foi produzido a partir do episódio do Arena IE apresentado por Marcelo do Carmo Rodrigues, com a participação de Ubiratã Rezler.

Assista ao episódio completo: https://www.youtube.com/watch?v=rOQPoAwME8o

Conheça a CIC Caxias: https://ciccaxias.org.br/

Continue a jornada: conheça a Academia IE e o livro Conectados: Competências Socioemocionais na Era do Caos.