novembro 11, 2025
Coragem para mudar: como o autoconhecimento orienta a transição de carreira
Ficar, se qualificar ou mudar?
Marcelo abre a conversa lembrando que as carreiras têm um prazo de validade cada vez mais curto, principalmente as consideradas ameaçadas pela inteligência artificial. Quem está em uma dessas áreas se pergunta se deve insistir, buscar qualificação para se diferenciar ou começar uma transição. Para ele, a jornada profissional é feita de escolhas, e talvez a mais difícil seja justamente a de mudar. Nesse momento, dois conhecimentos fazem diferença: o de si mesmo, para saber para onde ir, e o do mercado, para entender o que se pode oferecer.
As âncoras de carreira, revisitadas
Para aprofundar o tema, a dupla recorre ao modelo de âncoras de carreira de Edgar Schein, recentemente revisado. Alessandra ressalta que não se trata de um teste vocacional que aponta uma profissão, e sim de uma forma de identificar o estilo de trabalho que ancora a pessoa, ou seja, o tipo de caminho que combina com seus valores e seu perfil emocional e no qual ela consegue florescer.
Quando todos os motivadores viram dinheiro
Alessandra compartilha duas observações recentes. A primeira, de um amigo empreendedor: as pessoas não querem mais percorrer jornadas, e sim sair de qualquer experiência transformadas ou com a solução pronta. A segunda: o dinheiro parece ter se tornado o primeiro, o último e o do meio entre os motivadores. Ela lembra que, entre as âncoras clássicas, não havia uma âncora de dinheiro, e que um instrumento de motivadores que conheceu em sua especialização em psicologia de carreira diferenciava claramente segurança de dinheiro. Quem busca segurança aceita ganhar menos em troca de salário e horário certos; quem é movido por dinheiro aceita trabalhar em finais de semana, de madrugada ou em condições difíceis, desde que seja bem pago. Hoje, observa Alessandra, parece que qualquer escolha precisa, antes de tudo, gerar dinheiro.
Carreira externa e carreira interna
Marcelo explica uma distinção central de Schein. A carreira externa é aquela que aparece no LinkedIn: formação, empresas, experiências, competências e recomendações. A carreira interna é o que se conecta ao conjunto de competências, aos aprendizados de vida, aos valores e aos motivadores de cada um. É nela que se deve buscar as respostas para uma decisão de transição.
Por que cada geração corre atrás do dinheiro
Para Marcelo, a busca por dinheiro pode ter um componente geracional. A geração X cresceu acreditando que bastava estudar, entrar em uma empresa e se esforçar, sacrificando parte da vida pessoal, para colher o sucesso lá na frente. Quem chega agora não aceita esse sacrifício e quer tudo imediatamente, estimulado por redes sociais que mostram um “tudo” muito maior e inatingível. A dupla resume assim: na geração Z, a motivação vem da pressa e de expectativas muito elevadas; na geração Y, do cansaço e do medo de perder a vez para quem chega depois; e na geração X, da percepção de que muitas promessas não se sustentaram, a ponto de muitos já não acreditarem na aposentadoria.
A estrada menos percorrida
Alessandra traz o poema “The Road Not Taken”, de Robert Frost, em que um viajante diante de duas estradas lamenta não poder seguir ambas, escolhe a que parece menos percorrida e conclui que isso fez toda a diferença. Ela se identifica com a imagem: nos anos 2000, ela e Marcelo deixaram carreiras tradicionais e combinaram áreas aparentemente desconectadas, em um modelo conhecido como carreira sem fronteiras, e foram chamados de malucos e sem foco. Para Alessandra, hoje as bifurcações se multiplicaram. Somam-se a isso as pastas de caminhos não percorridos que todos acumulamos, como listas de podcasts nunca ouvidos, filmes nunca vistos, livros nunca abertos e posts salvos nunca revisitados, e que ajudam a explicar a exaustão atual.
Um sim representa muitos nãos
Marcelo relê o poema estrofe por estrofe. Lamentar não poder percorrer os dois caminhos é o retrato do nosso tempo: em meio à incerteza, queremos abraçar tudo, seja mais de uma formação, um emprego e um negócio próprio ou carreira e vida pessoal. O resultado costuma ser fracassar por tentar tudo ao mesmo tempo ou ficar estagnado esperando um sinal, enquanto as contas continuam chegando. Por isso, a primeira dificuldade é saber do que abrir mão. Alessandra reforça que existe um tempo entre plantar e colher, que exige disciplina para cuidar do que foi plantado. Promessas de sucesso rápido costumam ser golpes, e nem tudo pode ser acelerado: não se forma um engenheiro em um ano. A IA pode substituir partes operacionais do trabalho, mas não um ser humano completo, e basta lembrar como é frustrante ser atendido por um robô quando se precisa de uma pessoa.
Carreira em ciclos
Para Marcelo, é hora de abandonar a ideia de uma única profissão para a vida inteira. A carreira passa a ser feita de ciclos de aprendizado e de profissões, com uma capacidade crescente de aprender com as próprias experiências, reconhecendo o que funcionou, em que fomos bons e quais competências podemos levar adiante. Ele dá como exemplo a própria Alessandra, cuja formação em jornalismo aparece tanto no podcast quanto nas mentorias executivas. Alessandra devolve: a engenharia, primeira formação de Marcelo, aparece até quando ele busca lógica na subjetividade das emoções.
Clareza é poder
Alessandra cita uma ideia apresentada por Yuval Noah Harari no Fronteiras do Pensamento: em um mundo inundado de informações irrelevantes, clareza é poder. Para ela, clareza passa a ser o novo oposto do caos. Voltando ao poema, Alessandra lembra das trilhas que fazia na infância, em Alegrete: um caminho pouco pisado também pode ser mais perigoso, porque é fácil se perder. Ou seja, o viajante escolheu o caminho de maior risco. Hoje, não existem mais sinalizadores de segurança. Nem um concurso público nem um diploma garantem estabilidade, e é justamente por isso que o autoconhecimento se torna essencial para reduzir riscos.
O que é a grama mais verde para você
Marcelo propõe uma leitura das âncoras a partir do poema: o que faz a grama parecer mais verde varia de pessoa para pessoa. Para alguns, é o desafio; para outros, a autonomia, a criatividade, a liderança ou a dedicação a uma causa. Alessandra detalha as âncoras do modelo: empreendedora; desafio; autonomia, para quem não quer ninguém definindo como, quando e onde trabalhar; competência técnica, que atrai cada vez menos gente em um cenário em que a IA se destaca; estilo de vida, para quem prioriza tempo com a família, viagens ou academia; estabilidade, que costuma cobrar um preço no longo prazo; serviço, típico de quem atua em enfermagem, organizações sociais ou educação; e gerência geral, uma carreira que já teve muito glamour e hoje enfrenta falta de interessados. Ninguém tem uma âncora só: todos têm combinações, com algumas muito fortes e outras que rejeitam completamente.
Carreiras proteanas
A dupla lembra o Proteanos, programa de mentoria de carreira que realizaram durante a pandemia e que pode voltar. O nome vem da carreira proteana, conceito do pesquisador Douglas Tim Hall inspirado em Proteu, deus grego que mudava de forma. Nesse modelo, a carreira se reconfigura continuamente, guiada pelos aprendizados da própria pessoa: quem descobre que gosta de falar em público pode virar palestrante e, depois, criar uma comunidade a partir da rede que construiu.
Autonomia tem preço
Marcelo usa a trajetória do casal como exemplo. Muitas pessoas admiram a rotina dos dois, que trabalham juntos, definem seus horários e podem nadar em uma quarta-feira. O que nem todos veem é que projetos têm começo, meio e fim, que há períodos de sobrecarga e outros sem contratos, e que os pagamentos nem sempre chegam no fim do mês. A carreira deles combina autonomia e estilo de vida com uma grande abertura ao risco e à reinvenção, e é tudo, menos estável. Conhecer as próprias âncoras evita escolhas que não combinam com a carreira interna. Marcelo reconhece, por exemplo, que não teria perfil para o serviço público, embora essa seja exatamente a carreira certa para muita gente.
Antes das âncoras, posicione-se no mundo
A principal novidade da versão revisada do modelo, segundo Marcelo, é propor que a pessoa se posicione antes de identificar suas âncoras: mapear as pessoas que importam, os relacionamentos que a fortalecem ou a desgastam, em linha com o trabalho de Richard Boyatzis, e conhecer o próprio perfil emocional. O modelo amplia as ferramentas de avaliação, porque quanto mais autoconhecimento, melhores são as decisões de transição.
Por onde começar
Alessandra propõe simplificar: quem está com dificuldade para pagar as contas precisa, antes de tudo, de um emprego. Marcelo complementa que é possível construir uma transição sustentável enquanto se trabalha, sem esperar ser o último a apagar a luz. Se o trabalho já está insuportável, o primeiro passo é olhar a carreira externa. Alessandra cita uma executiva em sofrimento cujo LinkedIn estava abandonado, sem publicações havia meses e com foto antiga. Depois, é hora de olhar para a carreira interna. Marcelo ressalta que ninguém precisa esperar uma demissão nem estar infeliz para buscar autoconhecimento, e lembra a lição do seu primeiro mentor para uma turma de trainees: todos teriam carreiras brilhantes, desde que não tentassem construí-las no mesmo lugar e na mesma função. No fim das contas, a mudança traz mais oportunidades do que riscos. Alessandra encerra com seus conselhos: comece a fazer algo em vez de analisar demais, limite o tempo nas redes sociais, pare de se comparar com vidas editadas, desconfie de promessas de dinheiro fácil e reserve pausas para ganhar perspectiva. Como o viajante do poema, não dá para passar a vida lamentando o caminho que não se percorreu.
Perguntas frequentes
O que são âncoras de carreira?
É um modelo de Edgar Schein que identifica os estilos de trabalho que mais combinam com os valores, as competências e os motivadores de cada pessoa, como autonomia, estabilidade, desafio, serviço, estilo de vida, competência técnica, gerência geral e empreendedorismo.
Qual a diferença entre carreira externa e carreira interna?
A carreira externa é a trajetória visível, como formação, empresas e cargos. A carreira interna reúne competências, aprendizados, valores e motivações, e é nela que se encontram as respostas para uma decisão de transição.
O que é uma carreira proteana?
É uma carreira que se reconfigura continuamente ao longo da vida, guiada pelos aprendizados da própria pessoa, em vez de seguir uma trajetória linear.
Preciso estar insatisfeito para repensar minha carreira?
Não. Segundo o episódio, é possível e recomendável investir em autoconhecimento e construir uma transição sustentável mesmo estando bem no trabalho atual.
Onde assistir ao episódio completo?
No canal da Conexão IE no YouTube, dentro da série de podcast Arena IE.
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Este artigo foi produzido a partir do episódio do Arena IE apresentado por Alessandra Gonzaga e Marcelo do Carmo Rodrigues.
Assista ao episódio completo: ▶ Assista ao episódio completo no YouTube
Continue a jornada: conheça a Academia IE e o livro Conectados: Competências Socioemocionais na Era do Caos.