setembro 23, 2025
Comportamento cooperativista: as competências socioemocionais que os líderes de cooperativas precisam desenvolver
O Conexão Café e o e-book para RHs cooperativistas
No Ano Internacional das Cooperativas, a Conexão IE promoveu o primeiro Conexão Café, um encontro online com profissionais de RH ligados a cooperativas de diferentes regiões, com o tema das competências socioemocionais para líderes cooperativistas. Para o evento, a dupla preparou um e-book gratuito que reúne tendências, desafios do setor e cases construídos a partir de avaliações comportamentais realizadas nos últimos anos, buscando entender quais comportamentos estão presentes e quais são desejados no universo das cooperativas.
O futuro não é mais como era antes
Marcelo conta que um relatório recente da Aliança Cooperativa Internacional, publicado em julho, também identifica instabilidade econômica e política em escala global, o que a Conexão IE descreve no livro Conectados como a era do caos. Ele lembra a canção Índios, da Legião Urbana, que Alessandra usou em um treinamento, para resumir o cenário: o futuro já não será como antes. Por isso, a competência em destaque passou a ser a adaptabilidade. Se no auge da pandemia todos falavam em resiliência, com a esperança de que a crise passaria, hoje está claro que não haverá volta ao que era.
O que muda quando as competências estão em uma cooperativa
Alessandra explica que, em cooperativas, as competências comportamentais ganham um recorte próprio: precisam estar em sintonia com valores coletivos, vínculos comunitários e a geração de impacto social positivo. Isso reforça a importância da colaboração, da confiança e do propósito compartilhado. Ela recorda estudos divulgados durante a pandemia, com contribuições de Richard Boyatzis e Daniel Goleman, segundo os quais equipes de saúde que se conectavam ao propósito de salvar vidas enfrentavam melhor os sintomas de adoecimento psíquico.
A pandemia mental entre líderes e liderados
Alessandra apresenta dados de um levantamento da The School of Life divulgado pelo Valor Econômico, que mostra a saúde mental ainda como tabu nas organizações. Segundo a pesquisa, 52% dos líderes e 59% dos liderados usam medicação para lidar com estresse, ansiedade ou burnout. Para ela, a pandemia deixou uma segunda pandemia: a da saúde mental.
Por que a pressão é maior nas cooperativas
Marcelo explica que, quando o planejamento estratégico começou a se popularizar no Brasil, nos anos 1980 e 1990, olhar para as tendências da sociedade e para o negócio do cliente parecia inovador. Nas cooperativas, essa visão é natural: como existem para o bem comum e têm os cooperados como parte do negócio, não é possível se descolar da realidade da comunidade. Por isso, quando setores enfrentam demissões, quando o agronegócio passa por dificuldades ou quando o crédito agrícola é afetado, quem lidera uma cooperativa absorve essa carga de forma ainda mais intensa. Ele acrescenta que, no Brasil, esse peso é maior por causa da escassez de recursos em comparação com as grandes economias, especialmente diante das recentes tensões comerciais com os Estados Unidos.
Pequenas mudanças, grandes impactos
Alessandra propõe olhar o outro lado: em uma economia com menos riqueza acumulada, qualquer melhoria faz uma grande diferença, e o potencial de crescimento é enorme. Marcelo relaciona essa ideia às experiências de microcrédito que ganharam força a partir dos anos 1990, em que pequenos valores, como o necessário para comprar uma bicicleta e levar a produção à feira, transformavam a vida de famílias inteiras, muitas vezes com o crédito direcionado às mulheres. Alessandra lembra o filme O Menino que Descobriu o Vento. Para os dois, é a mesma lógica das cooperativas de crédito: fomentar a comunidade local faz todos ganharem. Nas cooperativas, pensar em comunidade e em crescimento coletivo é a base do comportamento das lideranças.
Os quatro perfis comportamentais
A análise do e-book usa o Profiler, da Sólides, ferramenta baseada na metodologia DISC que a dupla valoriza pelo equilíbrio entre simplicidade e profundidade. Alessandra explica os quatro perfis. O executor tem predisposição à ação, energia intensa e foco em resultados. O comunicador tem facilidade para interação, relacionamentos e articulação humana. O planejador é mais ponderado, observador e empático, ideal para funções de suporte e escuta. O analista tem olhar minucioso, facilidade para avaliar riscos e é mais organizado e detalhista. Ninguém é apenas um perfil: todos são combinações.
Adaptabilidade é saber qual perfil acionar
Para Alessandra, pessoas com alta inteligência emocional ajustam o comportamento à situação. Diante de uma meta com prazo curto, a energia do executor é essencial, como a de um cão de caça focado no alvo. Mas, em cenários de incerteza, com pessoas estressadas e recursos limitados, é preciso parar para planejar, analisar se as ferramentas ainda funcionam e pedir ajuda à equipe. Ela alerta que os RHs, e ela se inclui nisso, às vezes agem como quem só tem um martelo e trata todo problema como prego.
Onde estão os planejadores e os analistas?
Marcelo compartilha o resultado da análise estatística dos perfis das lideranças avaliadas pela Conexão IE nos últimos dois anos: os perfis planejador e analista praticamente desapareceram, e predominam o comunicador e o executor. Para explicar o fenômeno, ele compara dois contextos. Em uma mentoria individual, Alessandra aciona fortemente a escuta, a análise e o planejamento para ajudar a pessoa a produzir sentido. Já em uma sala de aula com 50 alunos, prazos, conteúdo e avaliações, o professor tende a desligar esses modos e operar no ritmo do fazer e do empurrar. Quanto maior a sobrecarga de metas, liderados, tarefas e reuniões, mais os líderes abandonam a análise e o planejamento e entram em modo de sobrevivência, ou de brigada de incêndio.
Três desvios no desenvolvimento de pessoas
Alessandra aponta caminhos tortos que tem visto nos programas de desenvolvimento. O primeiro é o treinamento no estilo influenciador, com palestrantes que prometem fórmulas mágicas e criam um efeito catártico que se esgota em menos de uma hora. Isso tem valor como sensibilização, mas não gera desenvolvimento. O segundo é separar teoria e prática, com aulas remotas expositivas de um lado e vivências cheias de dinâmicas sem reflexão do outro. Para ela, toda experiência de aprendizagem duradoura precisa combinar engajamento e reflexão, como propõe o ciclo de aprendizagem de David Kolb. Marcelo compara essas soluções ao Mandrake, personagem de quadrinhos que usava ilusionismo e hipnose: podem impressionar, mas não resistem à realidade. O terceiro desvio é trabalhar competências genéricas ou temas da moda, como um cardápio misturado, com facilitadores de abordagens muito diferentes e sem uma jornada clara. Isso gera soluços de desenvolvimento e ansiedade nas pessoas, que não entendem o que se espera delas. Para Alessandra, qualquer ferramenta que promova autoconhecimento e reflexão já oferece uma boa base para orientar o desenvolvimento.
Empatia: um recurso de conhecimento
A primeira das cinco competências destacadas por um levantamento da Korn Ferry é a empatia. Marcelo explica que ela permite compreender por que o outro pensa como pensa, mesmo sem concordar. Ignorar o ponto de vista alheio é desperdiçar um repertório que pode ser tão ou mais valioso que o próprio, e é do repertório que nasce a inovação. Alessandra comenta um vídeo sobre um desafio da geração Z: falar com estranhos. Ela lembra que, quando morou em Londres, precisava pedir informações na rua, algo comum na época. Hoje, um jovem no primeiro emprego se vê cercado de estranhos e espera ser procurado, muitas vezes pelo celular. Para ela, empatia é escutar o suficiente para compreender a realidade do outro antes de julgar. Ela acrescenta que a pandemia reduziu as conversas sem compromisso, que exercitam essa habilidade, e que rótulos entre as pessoas acabam nos fechando para contribuições valiosas.
Pensamento crítico: questionar, não criticar
A segunda competência é o pensamento crítico, essencial para produzir sentido, projetar cenários e avaliar as próprias ideias antes de se posicionar com assertividade. Alessandra observa que muitas pessoas confundem pensamento crítico com julgar os outros ou opinar nas redes sociais, onde as opções se resumem a amar ou odiar. Para Marcelo, trata-se de questionar pressupostos e considerar diferentes pontos de vista, stakeholders e horizontes de tempo. Alessandra lembra que usamos pensamento crítico sempre que definimos prioridades, e que a ansiedade faz perder esse senso: ela conta como, trabalhando em casa em um dia de enxaqueca, ia à cozinha buscar uma coisa e voltava com outra, algo que muitos vídeos sobre TDAH retratam como um estado de confusão mental comum hoje. Sem pensamento crítico, a procrastinação encontra espaço em tarefas intermediárias.
Colaboração: o senso de nós
A terceira competência é a colaboração, profundamente ligada à ideia de cooperativa. Marcelo lembra que o planejamento operacional surgiu justamente para integrar áreas que otimizavam apenas seus próprios indicadores. Em crises, pessoas e organizações tendem a pensar apenas em si, mas isso cobra um preço mais adiante, porque juntos se conquista mais. Ele cita o absurdo de a área de vendas receber bônus enquanto a produção não recebe, quando uma não existiria sem a outra. Alessandra acrescenta que colaborar faz bem a quem oferece e a quem recebe, porque ajuda a curar duas feridas emocionais humanas, o abandono e a rejeição, ao comunicar aceitação e a promessa de que ninguém está sozinho.
Comunicação: ir e voltar
A quarta competência é a comunicação, que, segundo Marcelo, não se resume a falar ou influenciar. Ela envolve escuta ativa, monitoramento do processo e trocas contínuas, integrando características do comunicador, do planejador e do analista.
Adaptabilidade: a competência do novo tempo
A quinta competência, que conecta todas as outras, é a adaptabilidade. No e-book, ela aparece definida como a capacidade de lidar com mudanças e incertezas, ajustando estratégias sem perder o rumo. Nas cooperativas, isso inclui responder às variações de mercado, às mudanças regulatórias e às novas tecnologias. Marcelo destaca que as cinco competências são integradas: a escolha é se adaptar aos trancos e barrancos ou com empatia, pensamento crítico, colaboração e comunicação. A dupla observa ainda que quase todas elas estão mais ligadas aos perfis planejador, analista e comunicador do que ao executor, justamente os perfis que estão em falta.
Menos impulsividade, mais sentido
Alessandra deixa um pedido a quem trabalha com RH e desenvolvimento humano: menos imediatismo e busca por soluções mágicas. Efeitos catárticos passam, e focar apenas na meta do mês ou do trimestre impede de chegar ao fim do ano e contribui para os colapsos que vêm acontecendo. Marcelo alerta que, nesse cenário, as organizações podem perder justamente as pessoas mais sensatas, que ainda têm o olhar analítico e o planejador e podem ser as primeiras a sair. Para encerrar, ele recomenda não buscar soluções mágicas, valorizar a produção de sentido e conhecer o perfil comportamental das lideranças para ajudar a equilibrá-lo. Alessandra resume: é preciso um pouco mais de calma, de pensamento e de sentimento para fazer as coisas acontecerem.
Perguntas frequentes
Quais competências são essenciais para líderes de cooperativas?
Segundo o episódio, com base em um levantamento da Korn Ferry, as cinco principais são empatia, pensamento crítico, colaboração, comunicação e adaptabilidade.
Por que o contexto cooperativista exige competências específicas?
Porque as cooperativas estão ligadas a valores coletivos, vínculos comunitários e impacto social, o que exige colaboração, confiança, propósito compartilhado e atenção constante à realidade dos cooperados.
O que é o Profiler?
É uma ferramenta de avaliação comportamental da Sólides, baseada na metodologia DISC, que identifica quatro perfis: executor, comunicador, planejador e analista.
Por que programas de desenvolvimento baseados apenas em dinâmicas ou palestras motivacionais não bastam?
Porque geram sensibilização momentânea, mas o desenvolvimento real exige combinar engajamento e reflexão dentro de uma jornada com objetivos claros.
Onde assistir ao episódio completo?
No canal da Conexão IE no YouTube, dentro da série de podcast Arena IE.
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Este artigo foi produzido a partir do episódio do Arena IE apresentado por Alessandra Gonzaga e Marcelo do Carmo Rodrigues.
Assista ao episódio completo: ▶ Assista ao episódio completo no YouTube
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