setembro 30, 2025

Inteligência emocional e inteligência artificial: o que as duas têm em comum na tomada de decisão

Um novo treinamento sobre IE na era da IA

O tema do episódio também é o foco de um novo treinamento da Conexão IE, oferecido inicialmente ao Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul e ao Ministério Público de Goiás. A proposta é discutir como a inteligência artificial está mudando a forma como entendemos nossos sentimentos, processamos informações emocionais e nos relacionamos com outras pessoas. Em alguns casos, ela funciona como tradutora da nossa inteligência emocional; em outros, aparece como apoio ou até como tentativa de substituição.

Herbert Simon, o elo entre emoções, decisões e IA

Marcelo resgata um autor que a dupla usava nos primeiros treinamentos de inteligência emocional para lideranças: Herbert Simon, Nobel de Economia em 1978, que estudou o papel das emoções na tomada de decisão e inspirou Daniel Kahneman. O que muitos não sabem é que Simon também é considerado um dos precursores da inteligência artificial. Nos anos 1950, ele participou da criação dos programas Logic Theorist e General Problem Solver, que tentavam reproduzir a forma humana de resolver problemas e conseguiram provar boa parte dos teoremas do clássico Principia Mathematica. Simon também ajudou a formular o conceito de racionalidade limitada: como temos limites para processar informações, lembrar experiências e analisar contextos, ele previa o surgimento de ferramentas que complementassem a inteligência humana. Na origem, a IA não foi pensada para executar tarefas operacionais, e sim para apoiar decisões.

Decisões em meio ao excesso de informação

Alessandra observa que muitas pessoas já usam a IA para organizar grandes volumes de informação antes de decidir, justamente porque nosso sistema de raciocínio está sobrecarregado. Marcelo lembra o trabalho de Kahneman, com o sistema 1, rápido e intuitivo, e o sistema 2, lento e racional, e o livro Ruído, sobre as distorções nos julgamentos. Assim como os humanos, a IA pode ser enviesada: se recebe dados de baixa qualidade, entrega respostas de baixa qualidade. E, como foi criada para imitar o raciocínio humano, reproduz também os nossos vieses.

Emoções também contêm informações

O primeiro paralelo proposto por Marcelo vem de David Caruso, um dos criadores do teste MSCEIT: as emoções contêm informações que podem apoiar ou prejudicar uma decisão. Uma emoção intensa sobre a mesa pode enviesar a escolha. Por isso, tanto a IA quanto a inteligência emocional podem ajudar a decidir melhor, e ambas podem ser enviesadas.

O que é, afinal, inteligência

Alessandra recorre a Howard Gardner, autor da teoria das inteligências múltiplas, para quem inteligência é a capacidade de processar informações. Ela dá o exemplo da inteligência musical: alguém ouve uma melodia assobiada e consegue tocá-la no piano. Para ela, ser mais inteligente é ter consciência de quais informações se está processando e com que finalidade. Marcelo complementa que decisões simples, como otimizar uma estrutura em um projeto de engenharia, podem ter respostas corretas. Já decisões complexas, que envolvem valores e crenças, não têm certo ou errado, e é por isso que empresas contam com conselhos: diferentes olhares, como na parábola dos sábios cegos e do elefante, ajudam a chegar a um denominador comum. Usar análises da IA sem perceber essas nuances aumenta o risco de escolher um caminho ruim.

A IA não sabe dizer “não sei”

Alessandra conta que escreveu recentemente o artigo “Crônica de um cotidiano sem IA”, um desafio pessoal de produzir um texto inteiro sem assistente, depois de meses usando a ferramenta para revisar seus rascunhos. No artigo, ela fala sobre as alucinações da IA, como quando a ferramenta inventou artigos científicos inexistentes durante as pesquisas do mestrado de Marcelo. Para ela, o maior viés da IA é não saber dizer “não sei”: ela sempre tenta responder, mesmo com dados insuficientes, reproduzindo uma espécie de arrogância humana. Marcelo acrescenta que a IA tende a espelhar o usuário, suas crenças e buscas anteriores, oferecendo respostas confortáveis e raramente confrontadoras. Uma pessoa com outro ponto de vista, ao contrário, pode discordar e ampliar a análise. Por isso, conselhos existem desde a Grécia Antiga e em diversas culturas.

Compensar os próprios vieses

Marcelo lembra das estratégias de compensação ensinadas por Caruso: quem tem um viés mais crítico, que enxerga primeiro os riscos, pode perder oportunidades e deve buscar alguém com um olhar mais otimista antes de decidir. Ele e Alessandra fazem isso entre si. Para a dupla, a IA deve trazer dados, históricos e diferentes versões, mas não pode eliminar a troca entre pessoas. E nenhuma decisão será perfeita, com ou sem tecnologia.

Decisões sem emoção geram arrependimento

Com base em sua experiência como mentora executiva, Alessandra observa que o arrependimento aparece com frequência nas carreiras. Ela menciona estudos segundo os quais as pessoas se arrependem mais de decisões tomadas apenas com dados e fatos do que de decisões tomadas também com base no que sentiam, mesmo quando essas últimas deram errado. Para ela, o arrependimento está menos ligado ao resultado e mais à ausência de uma base emocional na escolha. Como ensinava Kahneman, decidimos com a emoção e justificamos com a razão. Quem ignora o próprio mundo emocional não decide: é carregado pela decisão. Por isso, é essencial reconhecer as emoções envolvidas, seja desejo, aversão, culpa, medo ou tristeza. Alessandra sugere ainda que hoje existe um terceiro elemento, o ruído do excesso de informação, em que ninguém decide de fato e as pessoas são levadas por algoritmos e efeito manada.

Cenários e a escolha que continua humana

Marcelo traz um exemplo do planejamento estratégico: quem está eufórico tende a projetar cenários otimistas, e quem está pessimista projeta o pior. Tirar a média não resolve. A IA pode ajudar a construir diferentes cenários, mas escolher o mais provável, apostar nele e fazê-lo acontecer continua sendo uma tarefa essencialmente humana.

Um guia para humanos pensantes

Alessandra compartilha o livro que está estudando para os novos cursos: Artificial Intelligence: A Guide for Thinking Humans, de Melanie Mitchell, disponível em inglês. A autora desmonta o mito de que a IA pensa como a mente humana: os sistemas reconhecem padrões estatísticos, mas não têm senso comum, intuição nem a percepção do que Jung chamava de espírito da época. Podem cometer erros absurdos, ser facilmente enganados e performar inteligência sem ser inteligentes. Para Mitchell, o maior perigo não é uma superinteligência, e sim a má aplicação da IA em áreas sensíveis como justiça, saúde e trabalho. Alessandra cita o recrutamento como exemplo: currículos gerados por IA analisados por outras IAs. Técnicas básicas de entrevista, como pedir que a pessoa descreva sua rotina em um emprego citado, ou perguntar qual foi o maior problema que ela já resolveu, ajudam a separar a experiência real da inventada.

Quando a IA suaviza demais

Alessandra conta que a filha, ao ser tratada com grosseria durante um estágio, buscou consolo na IA, que respondeu que talvez a outra pessoa estivesse em um dia ruim. Nesse caso, o conselho pode ter sido bom. Mas ela questiona: e quando a IA desestimula a assertividade e o estabelecimento de limites? Marcelo acrescenta que tirar conclusões a partir de pedaços de informação, sem contexto, é outra armadilha.

O que só a mente humana faz

A dupla compara as duas formas de processamento. A IA analisa muitas perspectivas em paralelo e em alta velocidade. A mente humana é mais lenta, mas tem uma capacidade única de conectar elementos aparentemente sem relação e dar a eles significado pessoal. Alessandra brinca que, se pedisse a uma IA para relacionar a cortina do estúdio, o terno de Marcelo e o logo do Arena ao seu momento de vida, a ferramenta ficaria perdida. Na psicologia analítica, conectar unidades de sentido é fundamental para a saúde emocional, porque ajuda a trazer à consciência conteúdos que estavam na sombra. Marcelo alerta para quem está no pico da ignorância descrito pelo efeito Dunning-Kruger: turbinado pela IA, pode acreditar ter encontrado a sabedoria suprema.

Nenhuma competência é boa em excesso

Mitchell aponta a inteligência emocional como diferencial humano, por envolver autoconsciência, empatia, compromisso ético e autenticidade. Alessandra concorda, mas faz uma ressalva: até a autoconsciência, em excesso, pode afastar da felicidade e está associada à depressão. Por isso, nenhuma competência deve ser analisada isoladamente. Ela cita o ESCI, avaliação de Daniel Goleman e Richard Boyatzis usada pela Conexão IE, que mede 12 competências e é interpretado a partir da relação entre elas. Alessandra lembra ainda de uma conversa com um professor de métodos quantitativos da FGV, durante uma pesquisa com o MSCEIT: segundo ele, uma variável comportamental explica, no máximo, cerca de 40% do que uma pessoa faz. O comportamento humano depende de inúmeros fatores de contexto que nenhum teste captura por completo.

O estado emocional muda a pergunta e a resposta

Marcelo propõe uma reflexão: fazer a mesma pergunta a uma IA em um estado eufórico ou deprimido muda o prompt, a resposta e, principalmente, a forma como interpretamos essa resposta. Alessandra lembra que, nas mais de 40 turmas de liderança e inteligência emocional que a dupla conduziu na Unisinos, ensinava que as emoções influenciam a leitura da realidade, as interpretações, as decisões e os comportamentos. O mesmo vale para a interação com a IA.

A média das pessoas com quem convivemos

Alessandra supõe que, ao fazer a mesma pergunta a uma IA e a cinco pessoas, as respostas humanas teriam mais variação, já que a IA tende a entregar uma média genérica. Marcelo provoca: depende de quem são essas pessoas. Ele lembra que Simon se impressionava com mestres enxadristas capazes de vencer dezenas de partidas simultâneas, graças à experiência acumulada, mas que esses mesmos mestres não seriam necessariamente bons conselheiros de carreira. Se a IA parece dar respostas melhores do que as pessoas ao redor, talvez seja hora de escolher melhor com quem conversar. Alessandra recorda a máxima atribuída a Jim Rohn de que somos a média das cinco pessoas com quem mais convivemos, e alerta: hoje, convivemos também com algoritmos, o que dilui a experiência acumulada e nos expõe a visões extremas, catastrofistas ou utópicas.

IA como apoio emocional

No mês do Setembro Amarelo, a dupla também comenta o uso da IA como apoio emocional. Alessandra cita um número mencionado em um programa de TV, sem fonte confirmada, sobre milhões de brasileiros que estariam usando IA como terapia. Diferentemente de muitos colegas, ela não vê isso como algo necessariamente ruim: a curiosidade sobre o que se sente é sempre positiva, e cada pessoa busca o apoio que consegue acessar, financeira, cognitiva ou emocionalmente. Ela compara a situação ao preconceito que já existiu com os livros de autoajuda. Marcelo pondera que ter formação em psicologia não garante preparo para todos os casos, e que a mente humana ainda é pouco compreendida. Para os dois, a IA funciona como um espelho que reflete o que conseguimos ver, mas não substitui a troca humana. Na mentoria, por exemplo, o papel não é dar respostas, e sim ajudar a pessoa a perceber o que sozinha não perceberia, algo que a IA pode até dificultar ao reforçar padrões já existentes.

Mais compaixão com a condição humana

Alessandra conclui que não saiu do episódio amando nem detestando a IA, mas mais compassiva com a condição humana e com as possibilidades que a tecnologia oferece para nos tornarmos pessoas melhores. Marcelo resume: a IA complementa, organiza e ajuda, mas não substitui a tomada de decisão nem o aprendizado que nasce da interação com outras pessoas.

Perguntas frequentes

O que a inteligência emocional e a inteligência artificial têm em comum?

As duas processam informações e podem apoiar melhores decisões, mas ambas estão sujeitas a vieses: a IA reproduz padrões dos dados e do usuário, e as emoções podem distorcer a leitura da realidade.

Quem foi Herbert Simon?

Economista e cientista, vencedor do Nobel de Economia em 1978, que estudou a tomada de decisão, formulou o conceito de racionalidade limitada e foi um dos pioneiros da inteligência artificial.

Por que a IA alucina?

Segundo o episódio, a IA tende a sempre oferecer uma resposta, mesmo com dados insuficientes, em vez de admitir que não sabe. Por isso, suas respostas precisam ser verificadas.

A IA pode substituir a conversa com outras pessoas ou com profissionais?

Não. Ela pode ajudar a organizar ideias e informações, mas tende a espelhar o usuário. Pessoas e profissionais qualificados trazem outros pontos de vista e ajudam a perceber o que sozinhos não enxergamos.

Onde assistir ao episódio completo?

No canal da Conexão IE no YouTube, dentro da série de podcast Arena IE.

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Este artigo foi produzido a partir do episódio do Arena IE apresentado por Alessandra Gonzaga e Marcelo do Carmo Rodrigues. Se você está passando por um momento difícil, procure apoio de um profissional de saúde mental ou ligue para o CVV, no número 188.

Assista ao episódio completo: ▶ Assista ao episódio completo no YouTube

Continue a jornada: conheça a Academia IE e o livro Conectados: Competências Socioemocionais na Era do Caos.