setembro 2, 2025

A tempestade perfeita: como atravessar um tempo de incerteza, excesso de informação e exaustão

O risco de não fazer nada

Alessandra conta que a expressão “tempestade perfeita”, usada para descrever eventos em que vários fatores negativos se somam, surgiu enquanto escrevia o artigo “O risco de não fazer nada”, publicado em seu LinkedIn. No texto, ela observa que muitas pessoas e empresas estão paradas, à espera de alguma definição, seja da tecnologia, dos recursos ou do cenário político, enquanto a combinação de fatores deixa todos confusos, ansiosos ou exaustos.

O respiro que não chega

Marcelo lembra que reclamar dos tempos difíceis sempre fez parte da nossa cultura, e que a vida costuma alternar fases boas e ruins. A diferença, segundo ele, é que agora o respiro entre uma crise e outra está demorando mais para chegar, ou não chega para todos. As expectativas de crescimento de poucos anos atrás deram lugar a uma soma de preocupações: eleições no ano seguinte, tensões geopolíticas, ameaças econômicas e o avanço da inteligência artificial.

Incerteza política e econômica

Alessandra aponta o cenário político e econômico como a primeira camada da tempestade. Mesmo empresas pouco expostas às sanções comerciais sentem o nervosismo de um mercado incerto. A polarização também pesa, porque afeta a percepção de uma realidade administrável. Ela confessa que sempre gostou de acompanhar notícias, mas que ultimamente não tem conseguido, e Marcelo concorda: tentar acompanhar tudo acaba deprimindo.

O Brasil já passou por apertos

A dupla lembra outras fases difíceis do país. Alessandra recorda que, na infância, nos anos 1980, sua família anotava preços em listas para enfrentar a inflação. Marcelo relembra o Plano Collor, em 1990, que bloqueou o dinheiro das contas e desorganizou o comércio, que dependia de cheques pré-datados. Para ele, o brasileiro costuma se adaptar aos poucos, como o sapo na água que esquenta devagar, até chegar a um choque. Alessandra vê nessa história uma prova de que somos um povo muito resiliente, mas observa que existe sofrimento por trás. Ela conta que publicou fotos do pôr do sol em Porto Alegre com uma mensagem simples, lembrando que a vida não é só pagar contas, e recebeu muitas mensagens de pessoas dizendo que precisavam ler aquilo. No Rio Grande do Sul, lembra Marcelo, somam-se ainda os efeitos das enchentes, um inverno rigoroso e o endividamento no campo, gerando uma sensação de desamparo.

Redes sociais e o fim dos ciclos

A segunda camada da tempestade são as redes sociais. Alessandra comenta como a vida profissional virou um conjunto de grupos de WhatsApp, em que as tarefas nunca terminam, e compara a sensação ao mito de Sísifo, condenado a empurrar uma pedra morro acima todos os dias. Para Marcelo, o maior impacto é a perda da noção de ciclo. Antes, o fim do expediente e o fim de semana davam a sensação de virar a página. Hoje, as notificações continuam em casa e nas folgas. Os algoritmos disparam preocupações, e os grupos de mensagens trazem demandas que poderiam esperar, como em um jogo de batata quente que nunca acaba.

Cuidar do corpo

Alessandra percebe um movimento positivo: mais pessoas buscando cuidar do corpo como forma de cuidar da mente, com grupos de corrida, academias cheias inclusive de pessoas com mais de 50 anos, alimentação mais natural e redução do consumo de álcool. Marcelo reforça que, se esperar ter tempo, ninguém vai à academia. É preciso colocar esses hábitos na agenda. Ele sugere também reaprender a cozinhar com ingredientes pouco processados e conta que ele e Alessandra passaram a cozinhar receitas de um livro de culinária sírio-libanesa, em homenagem à ascendência dela.

Educar o algoritmo

Como não é possível simplesmente abandonar as redes, Marcelo recomenda treinar o algoritmo: em vez de apenas rolar a tela, marcar que não tem interesse nos conteúdos indesejados. Ele faz isso pelo menos uma vez por mês e segue apenas cerca de 180 contas, o que mantém seu feed mais próximo de quem realmente escolheu acompanhar. Alessandra lembra que pesquisas mostram o crescimento de usuários silenciosos, que não curtem nem comentam, mas cujo comportamento ainda alimenta o algoritmo: o tempo em uma publicação, o que salvam e o que compartilham. Por isso, ela passou a seguir apenas o que realmente lhe faz bem. Marcelo alerta ainda para as listas de assuntos mais comentados, que podem prender por horas.

Ninguém está ficando louco

Para Alessandra, não é que o mundo esteja enlouquecendo: estamos vendo coisas demais. Ela lembra que loucura, em uma definição básica, é não conseguir compartilhar a realidade que os outros compartilham. Por isso, muitas pessoas acompanham tudo com medo de ficar de fora. Ela relata ter ouvido, durante uma caminhada, duas pessoas conversando sobre medo de rejeição e abandono, e acrescenta o medo de ser julgado. Para ela, as redes podem ser a volta na praça, mas é preciso ter também uma vida real de qualidade, com algumas pessoas que nos conheçam fora do trabalho e tempo para espiritualidade e estudos.

O que colocar no lugar

Marcelo sugere retomar a leitura, algo que a dupla tem feito por causa da pós-graduação em psicologia analítica. Ele lembra que apenas proibir não funciona: é preciso colocar algo no lugar, como a academia, uma caminhada ou um livro. Alessandra acredita que muitas pessoas estão se afastando da gritaria virtual e percebe, inclusive nas tendências de decoração, um desejo maior por espaços simples, com tons terrosos e plantas, onde se possa tomar um chá olhando pela janela. Ela conta ter ouvido de uma gestora de marketing que o LinkedIn se tornou uma das redes mais tóxicas, cheia de disputas por atenção, textos genéricos escritos com IA e gente tentando vender cursos.

Angústia de carreira e a corrida pelo ouro digital

A terceira camada da tempestade é a angústia de carreira. Alessandra percebe que consegue contribuir mais com pessoas que desejam se compreender do que com quem quer aprender algo apenas para ensinar outros, no ciclo de fazer um curso para vender um curso. Ela conta que hoje sente orgulho de ser professora, porque teve muitos alunos reais e porque ela e Marcelo seguem aprendendo sempre. Quanto mais estudam, mais percebem o pouco que sabem. Ela relaciona isso ao efeito Dunning-Kruger, segundo o qual quem sabe menos sobre um tema tende a superestimar o próprio conhecimento. Marcelo compara essa busca por sucesso rápido ao mito de Ícaro e à estratégia de quem repete sempre a mesma abordagem porque ela funcionou uma vez. Alessandra entende que existe uma necessidade econômica por trás disso: durante a pandemia, a aparente riqueza de influenciadores criou uma corrida pelo ouro digital.

Competências que um negócio exige

Marcelo compara essas aventuras digitais à de quem usa o fundo de garantia para abrir um pequeno negócio sem preparo, lembrando que estatísticas do Sebrae mostram alta mortalidade de pequenas empresas nos primeiros anos. Saber cozinhar, por exemplo, não significa saber administrar custos, cumprir exigências sanitárias ou entender o algoritmo de um aplicativo de entregas. Ele conta que a Conexão IE existe desde 2008, a partir de uma escola de treinamento iniciada em 2003, e que, mesmo com equipe e assessoria, a dupla segue aprendendo e enfrentando dificuldades, inclusive no ambiente digital. Alessandra reconhece que a abertura ao risco é essencial para empreender, mas observa que falta raciocínio analítico: colocar as ideias em uma planilha, fazer orçamento, calcular o retorno mínimo e considerar prazos mais longos.

Calma, ponderação e pausas

Para Alessandra, as competências que a tempestade perfeita exige são diferentes das que a pandemia pediu. Agora, é preciso calma, ponderação, tempo para as coisas acontecerem e pausas. Marcelo lembra que, em um trabalho recente com uma equipe, quase ninguém tinha perfil analítico ou planejador: todos estavam no modo “vamos que vamos”. Para ele, é preciso desenvolver essas habilidades.

Os quatro perfis na tempestade

A dupla retoma os quatro perfis do Profiler, trabalhados em profundidade no Lab da Conexão IE: comunicador, executor, planejador e analista. Alessandra observa que o mundo vem valorizando muito o perfil comunicador, associado aos influenciadores, mas que ele sozinho não gera ação contínua. O executor dá movimento, mas ninguém aguenta ficar nesse ritmo o tempo todo. O planejador pondera, deixa as discussões esfriarem e avança pelas beiradas. O analista, muitas vezes visto como o chato de plantão, é quem pergunta quanto custa a aventura e se ela vai dar certo. Marcelo lembra que o pensamento analítico aparece entre as competências mais valorizadas nos relatórios do Fórum Econômico Mundial.

Sem tempo infinito, não dá para contar com o acaso

Marcelo recorda uma analogia de um professor de cálculo: um macaco digitando aleatoriamente, com tempo infinito, acabaria escrevendo as obras completas de Shakespeare. Alessandra, que estuda psicologia analítica, diz que discorda da ideia de que tudo seja obra do acaso. Ela cita o trabalho do professor Waldemar Magaldi e de sua esposa, que relacionam o caos atual à falta de sentido e de conexão com o sagrado. Marcelo esclarece que a analogia fala da grandeza do infinito, capaz de abrigar até o acaso. Seu ponto é que, na tempestade perfeita, os recursos são escassos, e não há tempo infinito para esperar que as coisas deem certo por acaso. Por isso, é preciso desenvolver pelo menos um pouco de análise crítica e planejamento, mesmo que as emoções ligadas a esses perfis sejam menos agradáveis, e mesmo sob a pressão social de quem confunde prudência com acomodação.

O caos como possibilidade

Alessandra acrescenta a última camada da tempestade: a inteligência artificial, que em algumas tarefas lê a realidade melhor do que nós e gera sensação de impotência e insuficiência. Diante da complexidade, é comum sentir que não se consegue mais ligar causas e efeitos, e isso gera ansiedade. Mas ela propõe outra leitura do caos, inspirada no livro que está estudando: em vez de ausência de ordem, ele pode ser visto como uma grande massa de possibilidades, o caldo de onde nasce o novo. Para encerrar, Alessandra retoma seu artigo: o maior risco é deixar de olhar para a realidade e seguir à deriva. Analisar os próprios medos, tristezas e indignações pode ser desconfortável, mas ajuda a encontrar um fio que oriente o caminho.

Perguntas frequentes

O que é a “tempestade perfeita” discutida no episódio?

É a soma de fatores que vem gerando ansiedade e exaustão: incerteza política e econômica, excesso de informação, redes sociais sem pausa, angústias de carreira e o avanço da inteligência artificial.

Como lidar com o excesso de informação das redes sociais?

Segundo o episódio, vale educar o algoritmo, seguir apenas contas que fazem bem, colocar outras atividades no lugar, como leitura, exercícios e caminhadas, e manter relações reais fora do ambiente digital.

O que é o efeito Dunning-Kruger?

É um viés cognitivo em que pessoas com pouco conhecimento sobre um tema tendem a superestimar a própria competência.

Quais competências ajudam a atravessar momentos de incerteza?

Para a dupla, calma, ponderação, planejamento e pensamento crítico, equilibrando a energia de ação e comunicação com a capacidade de parar, analisar e planejar.

Onde assistir ao episódio completo?

No canal da Conexão IE no YouTube, dentro da série de podcast Arena IE.

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Este artigo foi produzido a partir do episódio do Arena IE apresentado por Alessandra Gonzaga e Marcelo do Carmo Rodrigues.

Assista ao episódio completo: ▶ Assista ao episódio completo no YouTube

Continue a jornada: conheça a Academia IE (academiaie.com.br) e o livro Conectados: Competências Socioemocionais na Era do Caos.