agosto 26, 2025
Carreiras IE: Osmar Pedrozo e a liderança que aprende junto com a inteligência artificial
Um grupo de líderes ávido por inteligência emocional
Alessandra conheceu a equipe de Osmar em 2021, em plena pandemia, quando a Softdesign se preparava para crescer e formar uma nova camada de lideranças intermediárias. Ela lembra que foi um dos grupos mais interessados em inteligência emocional com que já trabalhou, algo que chamou sua atenção em uma área muitas vezes cética em relação às competências humanas. Osmar conta que aquele período foi de introspecção e aprendizado: sem deslocamentos, havia mais tempo, e as pessoas mergulhavam nas formações. Muitos daqueles líderes seguem na empresa e evoluíram muito em inteligência emocional, que ele considera um dos pilares da liderança, especialmente a empatia e a autorregulação.
Menos conexão física, mais necessidade de regulação
Hoje, a maior parte da equipe da Softdesign segue em trabalho remoto, e Osmar vai ao escritório duas vezes por semana. Ele conta que tem reforçado, nas conversas quinzenais com toda a empresa, a importância das conexões presenciais para a saúde mental, não apenas para a carreira. Aos 50 anos, diz, chegou a questionar quais relações ainda faziam sentido em sua vida. Alessandra observa que, se na pandemia as pessoas se refugiavam no trabalho e nas séries, hoje parecem estar fugindo da própria vida, sem um lugar de refúgio e sempre tentando performar para manter o que conquistaram.
De Santo Ângelo a Porto Alegre
Alessandra descobre uma coincidência: Osmar chegou a Porto Alegre em junho de 1995, ano em que ela também se mudou para a cidade. Natural de Santo Ângelo, ele já era programador, havia começado em 1992 com Cobol e cursava análise de sistemas na URI. Em Porto Alegre, passou a trabalhar com bancos de dados Oracle, uma das grandes novidades tecnológicas da época. Com 21 anos, seu sonho era simplesmente trabalhar em uma grande empresa de tecnologia. A dupla reflete sobre a geração que começou a carreira nos anos 1990: sem redes sociais para se comparar com o mundo, o desejo era crescer e ter uma vida melhor do que a dos pais. Para Alessandra, essa geração, que começou sem saber exatamente o que sonhava, mas com vontade de construir algo, tem muito a contribuir neste momento.
A contabilidade que mudou a empresa
Osmar foi pai aos 21 anos e seguiu o conselho da mãe, que sempre lhe disse para estudar. Formou-se em Ciências Contábeis pela UFRGS e, depois, fez mestrado em Administração. Ele conta que, antes da contabilidade, vendia tecnologia sem saber se estava ganhando ou perdendo dinheiro. Ao aprender a calcular custos e organizar a empresa, a Softdesign começou a crescer, especialmente a partir de 2006 e 2007, com planejamento estratégico e foco na geração de riqueza. Ele costuma dizer que a TI lhe deu muito, mas a contabilidade lhe deu tudo. Alessandra valoriza essa visão: saber o que vale a pena continuar e o que está consumindo tempo e energia sem retorno também é uma competência emocional. Osmar programou até 2008, quando decidiu se dedicar à gestão. Em suas palavras, a empresa perdeu um bom programador e ganhou um péssimo gerente, que precisou se desenvolver como líder.
Inovação exige organização e conhecimento profundo
Alessandra conta que está cansada de discursos vagos sobre pensar fora da caixa e prefere começar por uma caixa real. Osmar concorda e cita o professor Paulo Zawislak, da UFRGS, para quem a inovação está no limite do conhecimento. Em 30 anos de carreira, diz, nunca viu uma inovação bem-sucedida nascer apenas de inspiração: mesmo que comece bagunçada, ela precisa ganhar organização, conhecimento profundo, pesquisa e experimentação contínua. Tudo o que aprendeu na graduação, na pós e no mestrado, ele aplicou na empresa. Alessandra relaciona essa ideia ao seu artigo “O risco de não fazer nada”, inspirado em um cliente que cogitava interromper um processo de mudança. Osmar alerta que iniciativas pontuais, sem continuidade, dificilmente se recuperam, como voltar à academia depois de muito tempo parado.
Gestão e liderança
Para Osmar, gestão é número, indicador, boas práticas e melhoria de processos. Liderança é orquestrar e inspirar pessoas para que façam o que a gestão precisa que seja feito, e é aí que entram emoção, empatia e autoconhecimento. Afinal, as pessoas podem não estar bem em determinado dia, na vida ou não ter o conhecimento necessário, e cabe ao líder perceber isso e apoiá-las. Alessandra diz que nunca tinha ouvido um resumo tão claro da diferença. Ela lembra também que, nas formações online, sente falta das câmeras abertas, porque sem ver as reações não consegue saber se está alcançando as pessoas. Osmar concorda: a comunicação vai muito além das palavras.
Segurança psicológica para inovar
Alessandra recorda que, nas formações de 2021, os líderes da Softdesign eram muito participativos, e Osmar equilibrava bem sua presença, trazendo sua visão sem sufocar o grupo. Para ele, a liderança é solitária, e o ponto de partida para um ambiente participativo é tirar o medo do processo e construir confiança. Quando as pessoas se sentem seguras para errar e opinar, a inovação acontece. Ele percebe, em muitas empresas que visita, lideranças com excesso de protagonismo, em que só uma pessoa fala e tem razão. Alessandra relaciona isso ao conceito de segurança psicológica de Amy Edmondson, a disposição de correr riscos interpessoais, como expor uma dúvida ou discordar, e observa que muitos líderes também não estão se sentindo seguros diante da tempestade perfeita atual: mudanças tecnológicas, várias gerações convivendo e incertezas geopolíticas e econômicas.
As competências que fizeram a diferença
Osmar destaca primeiro o autoconhecimento. Ao entender como funciona, ele consegue reconhecer em seus liderados ambições e comportamentos parecidos com os seus, abrir espaço e orientá-los, com empatia, mas sem tomar todas as dores para si. Ele conta que a Softdesign tem uma cultura que não favorece super-heróis: se alguém precisa sê-lo, o processo está errado. As outras competências são adaptabilidade e resiliência, porque na tecnologia o que se sabe hoje não garante o amanhã. Por isso, é preciso estar sempre aprendendo, e hoje existem inúmeras formas de fazer isso.
A empresa ambidestra
Para Osmar, cultura de inovação é cultura de aprendizado contínuo. Ele cita o conceito de empresa ambidestra, que mantém a operação atual enquanto explora novidades que vão mudar sua oferta no futuro. Na metáfora da padaria, parte da equipe entrega o pão enquanto outra parte cria um novo cardápio.
Quando a IA virou ameaça
Osmar conta que, cerca de três anos atrás, percebeu nos eventos de tecnologia que a inteligência artificial ocupava cada vez mais espaço, até dominar a pauta. Em mais de três décadas de carreira, ele nunca tinha se sentido ameaçado. Sempre acreditou que, se tudo desse errado, poderia voltar a programar. Há cerca de dois anos e meio, sentiu-se ameaçado como pessoa, como profissional e como empresa. Viveu esse período com angústia, compartilhada apenas com o time de inovação, que ele colocou para aprender a conviver com a IA, usá-la no trabalho e preparar a mudança na oferta da empresa. Depois de um ano e meio, decidiu envolver todos: a IA passou a fazer parte dos planos de desenvolvimento individual de todas as áreas, e o tema entrou nas conversas quinzenais com toda a empresa, com a mensagem de que o trabalho vai mudar e todos precisam aprender, sem pânico, mas com atenção. A conclusão, segundo ele, é tranquilizadora: a IA potencializa e aumenta nossa capacidade, mas não nos substitui. Ele compara a tecnologia a um cavalo xucro: depois de domado, nos leva mais longe e mais rápido. Alessandra lembra que a repetição, como no aprendizado das crianças, e as pausas são essenciais para que o cérebro aprenda novos caminhos.
Saber pedir é o nosso diferencial
Osmar lembra que, quando os buscadores surgiram, nos anos 1990, ninguém encontrava nada porque não sabia pesquisar. Quem aprendeu a pedir saiu na frente, e com a IA será igual. Ele conta que a tecnologia transformou o desenvolvimento de software: designers ganharam tempo para testes de usabilidade, programadores contam com apoio em testes e simulações, e o que levava três meses para uma primeira versão hoje pode levar um mês, permitindo mais ciclos de experimentação com os usuários. A IA também está sendo aplicada nos negócios dos clientes, em temas como previsão de estoque e análise de crédito. Alessandra conta que usa a IA para pensar dinâmicas de desenvolvimento e para analisar comportamentos sob diferentes lentes teóricas, mas ressalta que é preciso saber pedir e saber criticar. Osmar dá um exemplo: a ferramenta citou um trecho de lei que não existia. Para ele, a experiência e a profundidade de quem entrega bem o seu trabalho não são substituíveis.
Conselhos para conviver com a IA
Osmar recomenda incluir a IA no plano de desenvolvimento individual: estudar os conceitos, e um pouco de matemática e estatística para quem quiser entender como ela funciona; praticar; fazer a mesma pergunta para diferentes ferramentas; participar de grupos que discutem o tema; e incorporar o uso ao dia a dia, como pedir revisões e validações. Com o tempo, o medo diminui, e a pessoa percebe que a IA também erra, inclusive inventando referências. Ele faz um alerta importante sobre governança: não colocar dados da empresa em modelos abertos e preferir versões contratadas com garantia de privacidade.
O que a IA não alcança
Hoje, Osmar dedica seu tempo a entender o uso da IA em marketing e vendas e lê muito sobre tecnologia, política e economia, buscando focar no que pode mudar dentro da empresa e com as pessoas ao seu redor. Para ele, não adianta gritar contra a mudança: empresas que não começarem ou que pararem no caminho vão ficar para trás, enquanto as que transformarem sua oferta com a IA estarão à frente. Ele conclui que as habilidades humanas, como conexão, empatia e capacidade de aprender, são mais necessárias do que nunca em um mundo conectado, cheio de informação e com pouca empatia. Alessandra completa: a IA não tem corpo, não tem um coração que dói nem um estômago que sente o peso das situações, e essa corporalidade continua sendo um diferencial humano.
Perguntas frequentes
Quem é Osmar Pedrozo?
CEO da Softdesign, empresa de tecnologia com mais de 25 anos de atuação. Começou como programador, é formado em Ciências Contábeis pela UFRGS e tem mestrado em Administração.
Qual a diferença entre gestão e liderança, segundo o episódio?
Gestão envolve números, indicadores e processos. Liderança é orquestrar e inspirar pessoas para que realizem o que a gestão precisa, o que exige empatia, autoconhecimento e inteligência emocional.
O que é uma empresa ambidestra?
É uma empresa que mantém sua operação atual enquanto explora e desenvolve inovações que vão transformar sua oferta no futuro.
Como se preparar para a chegada da inteligência artificial no trabalho?
Segundo Osmar, incluindo a IA no plano de desenvolvimento individual, praticando com diferentes ferramentas, aprendendo a fazer boas perguntas e cuidando da governança dos dados da empresa.
Onde acompanhar os próximos episódios do Carreiras IE?
No canal da Conexão IE no YouTube, dentro da série de podcast Arena IE.
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Este artigo foi produzido a partir do episódio do quadro Carreiras IE, apresentado por Alessandra Gonzaga, com a participação de Osmar Pedroso.
Assista ao episódio completo: ▶ Assista ao episódio completo no YouTube
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