julho 24, 2026
Carreiras IE: Thamis Zeni e a integração entre vida, carreira e liderança humanizada
Quem é Thamis Zeni
Thamis é psicóloga com MBA em gestão estratégica de pessoas. Construiu sua carreira em recursos humanos, do recrutamento e seleção a posições executivas de pessoas e cultura, com experiência em operações nacionais e globais. Liderou iniciativas de transformação organizacional, desenvolvimento de liderança, cultura, governança e inovação, e participou de conselhos ligados à gestão de pessoas. Alessandra a conheceu em 2019, em um programa de desenvolvimento de lideranças, quando Thamis dava seus primeiros passos como líder. Ela lembra do módulo sobre desenvolvimento de times como uma verdadeira catarse.
Da avaliação psicológica ao RH
Formada em Psicologia pela PUCRS, Thamis teve uma graduação que abria espaço para as áreas clínica, organizacional, escolar e comunitária. Gostou de tudo, mas se encantou especialmente pela avaliação psicológica: por mais de três anos, participou de grupos de pesquisa e ambulatórios hospitalares em Porto Alegre, com foco em avaliação infantil, inclusive em internação psiquiátrica. Com o tempo, percebeu que gostava da clínica, mas não se via o tempo todo em um consultório. Precisava de algo mais dinâmico. Por isso, fez o último estágio em recrutamento e seleção em um hospital, com grande volume de testagens e candidatos entregando currículos em papel.
Recrutamento em volume e a primeira grande virada
Depois de formada, Thamis voltou para Caxias do Sul, um polo industrial, para se dedicar à psicologia organizacional. Começou em uma consultoria de recrutamento e seleção, por volta de 2011, quando ainda não existiam as plataformas digitais de hoje. O sonho, porém, era entrar em uma grande empresa para entender o que acontece com as pessoas depois da contratação. A oportunidade veio em uma indústria de Caxias, em uma vaga para cuidar do RH das unidades fora do Brasil. Ela faz questão de reforçar que só entrou porque falava inglês.
Aprender o RH na prática
A nova função exigia muito mais do que recrutamento: envolvia os demais subsistemas de RH, como avaliação, desenvolvimento, clima, cultura, folha de pagamento, comunicação interna e benefícios. Thamis buscou cursos, mas conta que aprendeu mesmo na prática, dizendo sim para cada oportunidade, de votações sindicais a projetos de descrição de cargos no chão de fábrica. Como atendia as unidades do exterior, também precisou entender a fundo o negócio e a cultura de cada operação. O que sempre a moveu foi o contato com pessoas, motivo pelo qual escolheu a Psicologia, e uma habilidade que refinou com a experiência: ler os ambientes nas entrelinhas e enxergar o que está por trás do que é dito.
O business partner como parceiro da liderança
Antes da pandemia, Thamis passou a atuar como business partner, em um momento em que as empresas começavam a separar a execução dos processos de RH de uma área dedicada a apoiar a liderança e o negócio. Na prática, isso significa ajudar líderes, muitas vezes especialistas técnicos, a se desenvolverem como gestores: dar feedback, fazer escolhas difíceis e conduzir conversas delicadas. Para ela, esse papel não é exclusivo de grandes empresas. Em organizações pequenas e médias, pode ser exercido junto com outros processos e com baixo investimento, desde que se escolha qual problema resolver primeiro e se coloque as pessoas no centro.
O que a pandemia ensinou sobre liderar
Alessandra identifica três movimentos trazidos pela pandemia: o trabalho totalmente online, depois o modelo híbrido e, agora, a busca por usar o online onde ele reduz custos e o presencial onde ele fortalece a convivência. Para Thamis, o primeiro desafio foi aprender a liderar equipes remotas, e a resposta veio com uma lição essencial: o cuidado com as pessoas. Uma agenda de meia hora apenas para perguntar como cada um e suas famílias estavam fazia as pessoas sentirem que alguém olhava por elas. Alessandra lamenta que, hoje, pareça que perdemos essa licença para ser gente.
Aprendizagem para além da sala de aula
Thamis conta que aprende todos os dias com as duas filhas. A mais velha, de nove anos, reformulou por conta própria uma frase conhecida de super-herói: grandes problemas vêm com grandes responsabilidades, porque sempre que um é resolvido, logo aparece outro. Foi também por causa da filha que Thamis conheceu o Roblox e descobriu que escolas usam o jogo para desenvolver competências como visão estratégica. Para ela, a pandemia mostrou que a aprendizagem acontece de muitas formas, de mentorias e podcasts a imersões e conversas de café, e que cada formato precisa fazer sentido para a organização.
O erro de encaixar o novo no modelo antigo
As duas concordam que um dos maiores equívocos do trabalho remoto foi transportar o presencial para o online sem adaptação, enchendo agendas com reuniões em sequência, sem pausa sequer para beber água ou ir ao banheiro. Na busca por produtividade e por mais ferramentas para entregar cada vez mais, chegou-se à loucura atual. Para Thamis, o presencial ganha valor justamente por ajudar a reduzir esse ritmo, mas não existe receita de bolo em um sistema tão complexo.
Conselho para quem quer seguir no RH
Para quem está entrando em RH ou psicologia organizacional, Thamis recomenda aprender além das quatro paredes do RH: entender de negócio, finanças e resultados, e saber falar de resultados por meio das pessoas. Ela lembra que ainda são poucas as empresas com uma cadeira de RH no comitê executivo, e que esse espaço é conquistado por quem domina a linguagem do negócio. Alessandra acrescenta a importância de trazer também o olhar quantitativo, algo que percebeu ao dar aulas de estatística para estudantes de Psicologia. Thamis reforça que o mundo é híbrido: não é 100% máquina nem 100% humano. O caminho é aproveitar o melhor das ferramentas e potencializar competências humanas como pensamento crítico, colaboração e inteligência emocional, essenciais para criar ambientes psicologicamente saudáveis.
Integrar, e não apenas equilibrar, vida e trabalho
Para Thamis, não existe um botão que separe a pessoa do trabalho. Por isso, as escolhas precisam fazer sentido. Quando lhe ofereceram um cargo de gestão pela primeira vez, ela recusou, porque não enxergava ali uma forma de integrar sua vida e seus valores. Aceitou mais tarde, quando o gestor mostrou que ela já exercia o papel, com uma condição: se o cargo confrontasse seus valores, ela sairia. Ao voltar da primeira licença-maternidade, recebeu a proposta de um projeto de inovação e disse não, com medo de não conseguir se dedicar. O gestor respondeu que ela poderia tentar e, se não desse certo, voltar à posição anterior. Alessandra destaca o contraste com o chamado child penalty, a penalização profissional que muitas mulheres sofrem após a maternidade.
Promoção, gravidez e pandemia
Em fevereiro de 2020, Thamis foi promovida a gerente e, no dia seguinte, descobriu que estava grávida da segunda filha. Mesmo sem ninguém cobrar, sentiu culpa e chegou a oferecer abrir mão da promoção, mas recebeu apenas parabéns. Um mês depois veio a pandemia, e, por fazer parte do grupo de risco, ela passou a trabalhar 100% remotamente como gerente de pessoas e cultura, com o apoio da liderança.
Um diagnóstico e o cuidado que fez a diferença
Em 2021, menos de um mês após voltar da segunda licença-maternidade, Thamis recebeu o diagnóstico de câncer de mama. A filha mais nova tinha sete meses e ainda era amamentada. Prática, seu primeiro pensamento foi que tinha duas filhas para criar. A liderança da empresa foi clara: a energia dela deveria ir para a recuperação e para as filhas, e todos estariam esperando por ela. Thamis considera esse um dos momentos mais bonitos de integração entre vida e trabalho. Para ela, algumas ausências não significam falta de comprometimento, e sim a chance de a pessoa voltar mais inteira e mais engajada. Entregar resultados não é incompatível com uma liderança humanizada. Pelo contrário: quando a empresa desperta o melhor das pessoas, os resultados são melhores e mais sustentáveis.
Cinco anos depois, uma boa notícia
No dia da gravação, Thamis compartilhou que, depois de cinco anos, pode dizer oficialmente que está curada. Em sua mensagem final, ela lembra que, independentemente de cargo ou posição, a meta de cada dia deve ser encontrar aquilo que faz sentido e traz felicidade, o propósito que faz valer a pena acordar todas as manhãs. E completa: quando buscamos a felicidade, ela também acaba nos encontrando.
Perguntas frequentes
Quem é Thamis Zeni?
Psicóloga com MBA em gestão estratégica de pessoas e executiva de pessoas e cultura, com experiência em operações nacionais e globais, transformação organizacional, desenvolvimento de lideranças, cultura, governança e inovação.
O que faz um business partner de RH?
Atua como parceiro da liderança e do negócio, ajudando gestores a desenvolver suas equipes, dar feedback, fazer escolhas difíceis e conduzir conversas delicadas para alcançar os objetivos da organização.
Pequenas e médias empresas podem ter um RH estratégico?
Sim. Segundo Thamis, é possível com baixo investimento, integrando esse papel a outros processos e priorizando os problemas que trarão mais resultado.
O que significa integrar vida pessoal e trabalho?
É reconhecer que não existe separação entre a pessoa e o profissional, e construir escolhas e ambientes que respeitem essa realidade. Para Thamis, tratar as pessoas com humanidade, respeito e cuidado gera mais engajamento e melhores resultados.
Onde acompanhar os próximos episódios do Carreiras IE?
No canal da Conexão IE no YouTube, dentro da série de podcast Arena IE.
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Este artigo foi produzido a partir do episódio do quadro Carreiras IE, apresentado por Alessandra Gonzaga, com a participação de Thamis Zeni.
Assista ao episódio completo: ▶ Assista ao episódio completo no YouTube
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