setembro 23, 2026
Travessia da Escuta: por que as empresas precisam atualizar a forma de ouvir as pessoas
NR-1 e o risco dos diagnósticos confortáveis
Marcelo abre o episódio com uma provocação: com a atualização da NR-1, que colocou os riscos psicossociais na pauta de gestão das empresas, não é raro ouvir organizações dizendo que fizeram sua pesquisa e está tudo tranquilo. Para os dois, o alerta é claro: uma pesquisa é tão boa quanto as perguntas que decide fazer. Com as perguntas erradas, a empresa tenta gerenciar uma coisa enquanto o trem passa descarrilhado ao lado.
O que é a Travessia da Escuta
A Travessia da Escuta é uma iniciativa para promover a escuta psicológica no contexto do trabalho, conduzida por psicólogos em formação. O projeto nasce de um convênio entre a Conexão IE, um coletivo empresarial que reúne mais de 500 empresas e a Escola de Saúde da Atitus, o que garante lastro acadêmico, contexto profissional e sigilo. Alessandra destaca a diferença em relação às pesquisas internas: muitas se dizem sigilosas, mas basta cruzar área e idade para identificar quem respondeu. Na Travessia, a escuta é aberta e abrange a percepção sobre o trabalho, o bem-estar emocional e mental, o nível de prontidão, a qualidade das relações profissionais e os limites entre vida pessoal e profissional.
A vida é uma só
Inspirada em um artigo publicado na revista Você S/A, Alessandra defende que chegou a hora de aproximar os mundos pessoal e profissional. Do ponto de vista clínico, separar faz sentido, mas a vida é uma composição das duas coisas. Marcelo lembra que o trabalho híbrido acelerou essa mistura: se antes a vida ia para a empresa, agora a empresa chegou em casa, e essa fronteira desapareceu também nas aspirações e nos projetos das pessoas.
Modelos de bem-estar que precisam de atualização
Em sua pesquisa sobre felicidade no trabalho, Marcelo percebeu que muitos modelos que embasam pesquisas de clima, satisfação e bem-estar vêm das décadas de 1960 e 1970. Eles não estão errados, mas o mundo mudou: famílias ficaram menores, sonhos e carreiras se transformaram e os desafios tecnológicos são outros. Por isso, a dupla defende começar por uma escuta qualitativa antes de qualquer análise quantitativa. O resultado da Travessia será um retrato sigiloso do que precisa ser endereçado para melhorar a saúde mental nas organizações, aproximando a psicologia organizacional de parâmetros atuais.
Imediatismo, validação e bajulação
Uma das hipóteses do projeto é que a aceleração do nosso tempo, em que qualquer resposta chega em segundos, tem dificultado a negociação com o tempo real das coisas, inclusive o da carreira. Na velocidade da mente, um único dia pensando que a vida está miserável parece muito longo. Marcelo conta que quer entender melhor os mecanismos de enfrentamento e de regulação emocional que as pessoas usam hoje, especialmente em uma geração que cresceu muito validada, com pouco espaço para feedback, e que agora encontra em ferramentas de IA uma tendência técnica conhecida como bajulação.
O que as novas gerações estão nos ensinando
Alessandra faz o contraponto: essa geração está ensinando que a gente suportava coisas que não se deve suportar. Ela lembra que foram os adultos que, durante a pandemia, afastaram esses jovens do convívio justamente nos anos mais importantes de socialização. E observa que eles chegam ao trabalho em busca de propósito e sem o preconceito com os mais velhos que marcou outras gerações. Marcelo complementa com a imagem de um pêndulo, que saiu de um extremo e ainda precisa encontrar o meio-termo entre aspirações e qualidade de vida. A dupla ainda relembra a canção “Há Tempos”, da Legião Urbana, para falar de jovens que adoecem pela falta de acolhimento e pela cobrança de uma performance contínua.
Escutar é chegar vazio
Para definir escuta, Alessandra volta aos tempos de jornalista, quando escrevia semanalmente uma página inteira sobre a história de uma pessoa. Ela chegava a cada entrevista partindo do princípio de que não sabia nada sobre o entrevistado. É assim que a escuta deve começar: sem enquadrar o outro em rótulos. Quando alguém percebe que está sendo escutado, passa a organizar os próprios conteúdos. Por isso, a escuta proposta é sem pauta, sem nota e sem a pressa de oferecer uma solução.
Protocolos de escuta para um mundo sem fronteiras
Para Marcelo, a maior contribuição do projeto, que terá Alessandra como braço técnico, será atualizar os protocolos de escuta para um mundo híbrido, transgeracional e sobrecarregado de informações, demandas e dívidas. Isso inclui novas perspectivas de carreira: Alessandra conta que atende clientes com mais de 60 anos desenhando sua próxima carreira. Mais do que se preparar para a aposentadoria, as pessoas hoje se preparam para o que farão enquanto a mente estiver ativa.
A IA como espelho dos nossos vieses
Alessandra, que usa IA no dia a dia, descreve essas ferramentas como grandes espelhos: são tão boas quanto aquilo que projetamos nelas. Quem busca bajulação encontra bajulação; quem tem bom repertório obtém resultados incríveis, mas ainda precisa da troca com outro ser humano. A dupla recorre ao livro Ruído, de Daniel Kahneman, e ao conceito de sombra da psicologia analítica para explicar o risco: não conseguimos enxergar nossos próprios vieses, mas vemos com facilidade os dos outros. Terceirizar a escuta para uma IA pode apenas reforçar esses vieses.
Escuta qualificada ilumina sombras
A escuta ativa e qualificada é capaz de perguntar por quê, pedir que a pessoa explique melhor e lançar luz sobre comportamentos que ela não consegue ver. Nesse ponto, aproxima-se da psicoterapia, e há quem chame esse campo em crescimento de clínica do trabalho. A intenção não é catalogar a pessoa, e sim permitir que ela, ao trazer sua bagunça para a troca, saia com caixinhas que ela mesma organizou.
Próximos passos da Travessia
O primeiro ciclo do projeto terá três meses, e a dupla combinou voltar ao tema no Arena IE para compartilhar os aprendizados. Enquanto isso, a Travessia da Escuta também ganhou um podcast próprio, disponível apenas no Spotify, que percorre as competências socioemocionais do livro Conectados.
Perguntas frequentes
O que é a Travessia da Escuta?
Uma iniciativa da Conexão IE de escuta psicológica no contexto do trabalho, conduzida por psicólogos em formação, em convênio com um coletivo empresarial e com a Escola de Saúde da Atitus, com lastro acadêmico e sigilo.
Por que pesquisas internas podem não captar os riscos psicossociais?
Porque uma pesquisa é tão boa quanto as perguntas que faz. Muitos modelos de clima e bem-estar têm décadas, e cruzamentos de dados como área e idade podem comprometer o sigilo e inibir respostas sinceras.
Qual a diferença entre uma escuta qualificada e conversar com uma IA?
A IA tende a espelhar e reforçar os vieses de quem conversa com ela. A escuta qualificada questiona, pede aprofundamento e ajuda a pessoa a enxergar o que sozinha não consegue ver.
Onde acompanhar a Travessia da Escuta?
No perfil do projeto no Instagram e no podcast Travessia da Escuta, disponível no Spotify.
Onde assistir ao episódio completo?
No canal da Conexão IE no YouTube, dentro da série de podcast Arena IE.
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Este artigo foi produzido a partir do episódio do Arena IE apresentado por Marcelo do Carmo Rodrigues e Alessandra Gonzaga.
Assista ao episódio completo: ▶ Assista ao episódio completo no YouTube
Travessia da Escuta: ouça o podcast no Spotify https://open.spotify.com/show/033YynA3k6d16XxOQgIm8O
Continue a jornada: conheça a Academia IE e o livro Conectados: Competências Socioemocionais na Era do Caos.