maio 15, 2026
De advogado a desembargador: a trajetória de João Paulo Lucena e a arte de decidir em colegiado
Uma escolha por exclusão que virou destino
Lucena conta que escolheu direito ainda sem certeza sobre a carreira, em parte por influência dos pais (mãe servidora da Justiça do Trabalho e pai advogado trabalhista) e em parte por eliminação. Curiosamente, quando criança, declarou publicamente à mesa de almoço que nunca estudaria direito, e que se estudasse, jamais trabalharia na Justiça do Trabalho. Décadas depois, soma 37 anos de atuação exatamente nessa área, primeiro como advogado, depois como magistrado.
Da estabilidade pública ao risco do escritório internacional
Um momento de virada na carreira foi a decisão de deixar um cargo estável na Fundação Banrisul, onde atuou por 17 anos, para assumir a área trabalhista de um escritório internacional recém-instalado em Porto Alegre. Lucena descreve essa escolha como angustiante, especialmente por ter filhos pequenos na época, mas também como um movimento necessário para sair de uma rotina previsível. No novo escritório, atuou nos chamados “Rainmakers”, equipe acionada para os casos mais complexos e sem solução aparente.
Advogado e juiz: duas formas opostas de pensar
Um dos pontos centrais da conversa é a diferença entre atuar como advogado e como magistrado. Como advogado, a atuação é de parte: defender um interesse com convicção e compromisso total com a causa do cliente. Como juiz, a exigência é justamente o oposto: abandonar convicções prévias e analisar as narrativas de ambos os lados antes de formar uma posição imparcial (não neutra, já que, segundo Lucena, neutralidade absoluta não existe).
O quinto constitucional: um caminho diferente até o tribunal
Lucena explica o funcionamento do ingresso pelo quinto constitucional, mecanismo pelo qual 20% das vagas nos tribunais são preenchidas por advogados e membros do Ministério Público, e não apenas por concurso de carreira. O processo envolve etapas na OAB, no próprio tribunal e na Presidência da República, exigindo em média 20 anos de atuação profissional antes do ingresso. Para ele, esse mecanismo funciona como uma forma de oxigenar o judiciário com experiências externas à magistratura de carreira.
Decidir em colegiado exige humildade intelectual
Diferente da imagem popular de um juiz decidindo sozinho, Lucena descreve sua rotina em turmas de três, sessões de dezessete e o tribunal pleno com quarenta e oito magistrados. Ele destaca que atuar em colegiado exige humildade intelectual: aceitar que uma posição defendida com convicção pode ser derrotada por maioria, e seguir a relação profissional com os colegas normalmente após o julgamento, já que o debate, segundo ele, fortalece a instituição em vez de fragilizá-la.
Além da toga: gestão, ouvidoria e segurança institucional
A conversa também aborda funções menos visíveis exercidas por magistrados além do julgamento em si: gestão orçamentária, tecnologia da informação, gestão de pessoas e segurança institucional. Lucena já ocupou a direção da Escola Judicial e atualmente é ouvidor regional do TRT-4 e coordenador do comitê de segurança institucional, cargos escolhidos por eleição interna entre os próprios magistrados.
Fotografia como forma de desligar
Diante da rotina de disponibilidade constante (mais de 1.700 processos julgados por ano, muitos envolvendo situações extremas como mortes e acidentes de trabalho), Lucena destaca a importância de práticas que permitam desligar da rotina profissional para evitar o adoecimento e o burnout, comuns em profissões de exposição extrema. Seu canal de desconexão é a fotografia: um projeto pessoal de registro do gaúcho do Pampa, capturando ofícios tradicionais (tosquia com tesoura, construção de cercas de pedra, uso do cavalo) que considera ameaçados pela tecnologia.
O conselho para diferentes gerações
Ao encerrar, Lucena separa seu conselho por perfil: para a geração mais jovem, entrando agora no mercado, destaca a importância da sensibilidade emocional e da capacidade de comunicação presencial, habilidades cada vez mais buscadas justamente pela escassez percebida no mercado. Para profissionais mais maduros insatisfeitos com a carreira atual, sua mensagem é que nunca é tarde para mudar, com disciplina, dedicação e, sobretudo, gosto genuíno pelo que se faz.
Perguntas frequentes
Quem é João Paulo Lucena? É desembargador do Tribunal Regional do Trabalho da 4ª Região (TRT4), com 37 anos de atuação na Justiça do Trabalho, tendo ingressado na magistratura pelo quinto constitucional após 24 anos como advogado.
O que é o ingresso pelo quinto constitucional? É o mecanismo pelo qual 20% das vagas em tribunais brasileiros são preenchidas por advogados e membros do Ministério Público, e não apenas por concurso de carreira da magistratura.
Qual a principal diferença entre atuar como advogado e como juiz, segundo o episódio? O advogado defende um interesse específico com convicção; o juiz precisa abandonar posições prévias e julgar de forma imparcial, considerando as narrativas de ambos os lados.
Onde assistir ao episódio completo? No canal da Conexão IE no YouTube, na série de podcast Carreiras IE.
Este artigo foi produzido a partir do episódio Carreiras IE, apresentado por Camila Defaveri.
Assista ao episódio completo: https://www.youtube.com/watch?v=HCCajHJ-iWQ&t=612s Continue a jornada: conheça a Academia IE e o livro Conectados: Competências Socioemocionais na Era do Caos.
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