setembro 23, 2026

Visão, ilusão ou alucinação?

Fui convidada pela minha filha a construir meu Vision Board. Achei o exercício fascinante, mas estranhamente não conseguia me animar com a busca de imagens ou metas. Em minha tela mental só havia uma palavra, acompanhada de uma melodia não muito usual, que parecia resumir toda sorte de intenções para o período que se abria: extravasa. Ou seja: eu quero ser feliz e mais nada.

Alucinações musicais à parte, esse momento me fez lembrar algo que costumamos comentar em treinamentos de IE, geralmente sobre sentimentos após ciclos de planejamento estratégico nas empresas: “Você está falando de uma visão, de uma ilusão ou de uma alucinação?”

A pergunta costuma surgir para trazer reflexão a objetivos genéricos como “ser referência no setor”, “ampliar a margem de contribuição para 30%”, “ter um ganho de produtividade de 20% com uso da IA”, etc. Porque as pessoas sabem que são objetivos vazios ou porque muitas vezes recebem objetivos a buscar sem ter a menor ideia da viabilidade disso acontecer ou de como podem contribuir com a estratégia desenhada.

Afinal, se as pessoas já estão viesadas durante uma análise de cenários e filtram apenas o que querem ou desejam que aconteça, imagine o tamanho da licença poética quando elas são convidadas a construírem uma visão de futuro para a empresa. Mesmo os líderes mais pragmáticos nessa hora são sujeitos a algum tipo de delírio. Faz parte.

Para nós, facilitadores de conversas corporativas, é relativamente fácil navegar nessas “intrigas palacianas”, outro termo que usamos em nossas rodas de análise, com tom de leveza. Porque somos externos ao campo relacional, portanto de certa forma imunizados de contágio emocional e menos suscetíveis à influência da hierarquia organizacional ou aos medos terríveis que ela promove.

Objetivos genéricos podem apontar um norte financeiro ou de status, mas dizem pouco sobre o sentido real do que se busca construir e da real capacidade das pessoas ou do planejamento para como chegar lá. São direcionamentos vazios, que não apontam o tipo de competência comportamental necessária para isso. Coisa que, aí sim, seria nosso trabalho cultivar e desenvolver.

Durante muito tempo essa situação da visão, ilusão ou alucinação foi apenas uma piada dos bastidores do poder, no meio de algum serviço de DHO. Mas em algum momento senti que algo mudou. E o que era brincadeira começa a ficar sério.

I have a dream!

Hoje não são só as pessoas: já é fato conhecido que as ferramentas de IA também alucinam. Não poderia deixar de ser, pois se elas se alimentam da inteligência humana, que é falha e possui racionalidade limitada que já vem de fábrica, os algoritmos apenas aceleram o processo de produção de vieses, falácias e mentiras.

Pense em todos os absurdos e incongruências que você já escutou em reuniões de trabalho ou nas conversas em rodas de amigos ou colegas e imagine um algoritmo capaz de coletar os trechos dessas conversas e elaborar um resumo brilhante, com um “efeito moldura” linguístico fantástico. Esse é o canto da sereia da IA: parágrafos gramaticalmente corretos, estruturados de forma exemplar, e ainda com o estilo de linguagem que você seleciona. É muito apelo junto!

As IAs generativas produzem textos convincentes, imagens impecáveis, vídeos virais, e até explicações sofisticadas sobre economia, política e comportamento humano que, muitas vezes, não se sustentam na realidade. A própria noção do que é “real” entrou em debate. E não apenas no campo tecnológico.

Sinais dos tempos

Em ciclos recentes, vemos fenômenos curiosos e preocupantes no comportamento coletivo: recordes de endividamento impulsionados por jogos de aposta; uso massivo de IA para produzir artigos e conteúdos digitais; chatbots sendo acionados para conversas emocionalmente difíceis; processos seletivos mediados por máquinas que avaliam currículos editados artificialmente para outros sistemas automatizados; empreendedores caçando curtidas ao invés de faturamento; e jovens sem experiência escolhendo carreiras de influenciadores digitais, geralmente com uma pitada de neurociência, para aumentar o alcance de suas ideias e conteúdos, copiados de algum curso de como influenciar pessoas. Ufa. E contando.

Nada disso acontece por acaso. A busca por uma luz no final do túnel ou uma solução mágica é inerente ao ser humano que se encontra no modo sobrevivência. E ela tende a se intensificar em períodos de exaustão, transição e fechamento de ciclos. Ou seja, quando as promessas de sucesso rápido já não sustentam, quando o desempenho cansa, quando a comparação esgota.

Aí lembramos de outra característica que os seres humanos desenvolvem na medida em que amadurecem, o movimento para sair do caos e encontrar norte na vida: a busca por sentido. É nesse contexto que me lembrei do livro A Segunda Montanha, de David Brooks, uma leitura especialmente potente para momentos de virada e reflexão pessoal.

O vale antes da segunda montanha

Brooks descreve a vida como a escalada de uma primeira montanha: formação, carreira, reconhecimento, estabilidade financeira, conquistas visíveis. Paralelamente, buscamos algum nível de satisfação pessoal, com família, amigos, casa, momentos de celebração. Até que, quase sempre, somos levados a um vale: uma demissão, uma perda importante, um colapso financeiro, o sentimento de obsolescência diante das transformações tecnológicas, uma crise de identidade silenciosa.

É desconfortável estar no vale. Inclusive é ali que as ilusões costumam nos seduzir. É onde podemos amargar a vida, desistir de tentar. Paradoxalmente, é também ali que surge a possibilidade de uma segunda montanha, não mais orientada por status ou performance, mas por verdade, compromisso e contribuição. Uma montanha que não apaga as cicatrizes da jornada anterior, mas as integra. Que nos leva à melhor versão de nós mesmos, não apesar do que vivemos, mas por causa do que atravessamos.

Para vislumbrar e juntar os recursos para iniciarmos a escalada para a segunda montanha, temos que resistir às ilusões e alucinações que são a todo momento bombardeadas sobre nós, e aqui está o perigo de realizar seu planejamento de vida conversando apenas com a IA generativa. Ela não vai te fazer contrapontos. Não existe o prompt mágico que traz honestidade e clareza de propósito. Esse é um esforço de cada um de nós.

A IA não te conhece, não tem acesso a sua história de vida, e você, que a alimenta, está viesado demais pelo que possa ter ocorrido na queda da primeira montanha. É como aquela reunião de planejamento estratégico em que ninguém teve a coragem de contrapor a ideia mirabolante do dono do negócio ou do principal executivo, com medo de ser visto como resistente, retrógrado, descompromissado com o crescimento da empresa e com o sucesso do negócio.

Não adianta só autoconhecimento

Sei que parece contraditório, afinal sempre digo em nossas formações pela Conexão IE que todo processo de desenvolvimento começa com o autoconhecimento. Só que ele não é autossuficiente.

O que está nos adoecendo como sociedade é justamente o espírito de “quero ser livre para ser eu mesmo” em detrimento de todo o entorno. Não à toa, os maiores influenciadores digitais costumam ser as pessoas que pretensamente ensinam a ficar tão rico que não seja mais preciso trabalhar. Prometem uma vida de piscinas com borda infinita, em drinks ao pôr do sol. Porém a melhor definição de riqueza é justamente escolher novamente o que se faz enquanto se tem uma quantia absurda em conta. É a liberdade moral de fazer as mesmas escolhas, por princípio. Não por dinheiro ou status social.

Por isso que no livro Conectados, eu e Marcelo do Carmo Rodrigues, MSc e MA, acrescentamos às dimensões de IE de autoconhecimento, equilíbrio emocional e conexões humanas a dimensão de trabalho com significado. Porque precisamos de algo que nos incentive a prosseguir que seja além da primeira montanha. Um objetivo individual e coletivo. Uma busca de liberdade, que se ancore na responsabilidade pelo outro. A busca pelo topo precisa de um significado pessoal e comunal. Para que estejamos cercados de pessoas por quem e com quem valha a pena viver. Conexões que nos alimentem o espírito. E nos tragam felicidade.

Este artigo foi originalmente publicado no LinkedIn por Alessandra Gonzaga, Ph.D., cofundadora da Conexão IE.

Leia o artigo original: https://www.linkedin.com/pulse/vis%25C3%25A3o-ilus%25C3%25A3o-ou-alucina%25C3%25A7%25C3%25A3o-alessandra-gonzaga-ph-d–g1jef/?trackingId=NG48WLa0SaitQZaEd5ZDkg%3D%3D Continue a jornada: conheça a Academia IE e o livro Conectados: Competências Socioemocionais na Era do Caos.

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