janeiro 12, 2022
Um tempo para cativar
Em nossas andanças para produção de aulas sobre inteligência emocional, participei certa vez de um programa de entrevistas. Em dado momento, me foi feita a pergunta: “professora, o que caracteriza os relacionamentos saudáveis?”
Pensei nos relacionamentos como um todo, que incluem nossos amigos, conhecidos e pessoas de todo tipo de convívio e, por algum estranho motivo que só professores entendem (nos surgem as analogias mentais mais estranhas diante da provocação das pessoas!), o que me recordei para responder foi de uma passagem muito bonita de O Pequeno Príncipe, a obra eterna de Saint-Exupéry que nos ensina a celebrar a vida e suas relações:
“— A gente só conhece bem as coisas que cativou — disse a raposa. — Os homens não têm mais tempo de conhecer coisa alguma. Compram tudo já pronto nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me!
— O que é preciso fazer? — perguntou o pequeno príncipe.
— É preciso ser paciente — respondeu a raposa. — Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. E te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, cada dia, te sentarás um pouco mais perto…
No dia seguinte, o príncipe voltou.
— Teria sido melhor se voltasses à mesma hora — disse a raposa. — Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz! Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar meu coração… É preciso que haja um ritual.”
Vejo pelo menos três habilidades socioemocionais celebradas na receita da nobre raposa para amizades verdadeiras: a paciência, a abertura ao mundo não verbal e o cultivo de emoções positivas. Vale sentar ao lado delas por um tempo para ouvir o que têm a nos dizer.
A paciência traz o benefício da clareza mental e da paz interior, a coragem de desacelerar e seguir na contramão de nossa busca frenética por novas reações e likes. Ela vem para contrapor o imediatismo de um tempo ansioso por feedbacks positivos ou negativos, pede um pouco mais de estrada na rotina veloz de interações curtas. Paciência é um vento de calma no meio do congestionamento de mentes. Faz todo sentido que seja a base para iniciarmos qualquer relacionamento. Porque para criarmos vínculos é preciso tempo, e para apreciar o tempo é preciso paciência.
A linguagem verbal traz mesmo mal-entendidos, e faz todo sentido que a raposa peça por movimentos mais honestos, que trazem as vontades do corpo e os interesses do coração. No mundo não verbal repousam nossos desejos, intenções e percepções que não conseguem se confinar em palavras. E assim é que os bons amigos são aqueles com quem compartilhamos silêncios, em alegre contemplação da vida e de nossas tarefas cotidianas. Que maravilha os relacionamentos que não nos solicitam posições, opiniões ou discursos, aqueles que se bastam de nossa companhia.
Por último, a minha preferida: a sugestão de apreciar lentamente a chegada do amigo. De já sermos felizes “desde as três horas, se sabemos que ele chega às quatro”. Acrescentaria eu que os bons amigos são apreciados antes de chegarem, sim, e que deixam ainda uma impressão calorosa no peito mesmo muito tempo após sua partida. Nos transmitem alegria, gratidão e vontade de viver, pelo simples fato de compartilharem conosco sua existência.
Se pudesse resumir, diria que a raposa sabe muito bem como fazer amigos, o que nos inspira especialmente no trabalho que fazemos na Conexão IE, promovendo #maisIEnomundo, atuando em escolas, instituições de ensino superior e organizações. Nossa gratidão vai para todos os amigos da Conexão IE, pela oportunidade de termos tantos relacionamentos saudáveis para nos inspirar.
Este artigo foi originalmente publicado no LinkedIn por Alessandra Gonzaga, Ph.D., cofundadora da Conexão IE.
Leia o artigo original:https://www.linkedin.com/pulse/um-tempo-para-cativar-alessandra-gonzaga-ph-d-/ Continue a jornada: conheça a Academia IE e o livro Conectados: Competências Socioemocionais na Era do Caos.
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