março 10, 2026
Racionalidade em fuga: a crise é geral
O espírito do tempo parece adoecido. E um dos sintomas mais visíveis aparece no bolso.
Basta abrir qualquer portal de notícias ou percorrer alguns minutos pelas redes para perceber isso. Somos invadidos por guerra, escândalos de corrupção, falências financeiras, endividamento crescente das pessoas, das empresas e do país.
No Brasil, uma parcela muito significativa das famílias possui algum tipo de dívida, e a inadimplência continua avançando. Ao mesmo tempo, milhões de empresas convivem com atrasos de pagamento, crédito caro e margens pressionadas.
É uma epidemia de mal-estar social que está se tornando uma crise psicológica de grandes proporções. Estamos todos adoecendo: pessoas físicas, jurídicas e nação.
E o antídoto provavelmente não está no mais novo MBA sobre neurociência, comportamento ou riscos psicossociais.
A grande fuga contemporânea
Você já se deu conta da avalanche de estímulos tentando nos afastar da realidade?
Para as pessoas, surgem convites permanentes ao consumo, como novos itens para casa, novos gadgets, experiências, apelos estéticos, sexuais, relacionamentos instantâneos. Ao lado disso, aparecem promessas de bem-estar imediato: dicas de nutrição, mundo fitness e suas rotinas de exercícios milagrosos, coaches de sucesso, mindfulness ou posts de espiritualidade instantânea.
Tem os humoristas e seus públicos cativos de diferentes espectros políticos vendendo alívio cômico às mazelas da vida e, é claro, os atalhos para ganhar dinheiro fácil, como apostas, jogos, convites para ser mentor ou palestrante, e os gurus financeiros de internet. Uma verdadeira miscelânea de fugas.
Quando olhamos para as organizações, o padrão é surpreendentemente semelhante. Empresas também vivem sua própria corrida por soluções mágicas. Máquinas de vendas, IA em todas as suas manifestações, automação de processos, imersões com gurus de liderança e uma miríade de metodologias revolucionárias que prometem transformar prejuízo em resultados.
Isso está deixando muita gente cansada. Em alguns casos, enojada. Porque no meio desse turbilhão de promessas existe uma realidade muito mais simples: nós estamos ignorando a base do problema.
O que realmente importa?
Existe uma frase famosa da política americana: “É a economia, estúpido.”
A expressão foi cunhada por James Carville na campanha de Bill Clinton, em 1992. A mensagem era simples: quando a vida financeira das pessoas está em crise, todo o resto se torna secundário.
Mas a angústia de encarar a situação financeira de frente é muito grande. Quando a felicidade não está disponível, tendemos a buscar três caminhos emocionais alternativos.
O primeiro é a nostalgia, agradecendo o passado e recordando tempos melhores. O segundo é a esperança, apostando que o futuro trará redenção. O terceiro é o prazer imediato, buscando alívio rápido para a ansiedade presente.
Mas antes de buscar realização, propósito ou transcendência, precisamos de estabilidade.
A base da pirâmide e a linha de baixo nos resultados
Abraham Maslow já havia observado algo essencial há mais de meio século. Na base das necessidades humanas está a segurança. Isso vale para pessoas e para empresas.
Sem estabilidade financeira, a mente vive em estado de alerta permanente. Sem sustentabilidade econômica, as organizações passam a tomar decisões defensivas.
Hoje vemos colaboradores chegando ao trabalho carregando uma pressão silenciosa: dívidas pessoais, crédito consignado acumulado, contas que não fecham no final do mês. Temos encontrado situações em que profissionais já estão no nono ou décimo empréstimo consignado. E não são casos isolados.
Alguns chegam a cogitar algo ainda mais preocupante: pedir demissão, ou torcer para serem demitidos, apenas para usar a indenização da rescisão como um respiro financeiro. Isso pode gerar um alívio momentâneo, mas não resolve o problema, porque sem educação financeira o ciclo simplesmente se repete.
A mesma lógica aparece dentro das empresas: decisões impulsivas, processos mal definidos, retrabalho, desperdícios invisíveis. Tudo isso possui um custo econômico real, mas nem sempre é analisado com lente financeira.
A coragem de olhar para o problema
Na psicologia, duas abordagens falam algo muito semelhante. Marsha Linehan, na Terapia Comportamental Dialética (DBT), defende uma ideia simples: o primeiro passo para mudar qualquer realidade é olhar para ela de frente.
Albert Ellis, criador da Terapia Racional Emotiva Comportamental, dizia algo parecido: precisamos aprender a pensar fora do turbilhão emocional que nos captura.
Ou seja: parar de fugir e começar a compreender. Parar de procurar fugas e atalhos e reconstruir a base da racionalidade.
Por que educação financeira nas organizações?
Quando falamos em educação financeira, muitas pessoas pensam imediatamente em investimentos ou mercado financeiro. Mas a questão é muito maior e envolve, antes de tudo, educação para decisões sobre consumo, gestão, investimentos e risco, ou seja, uma visão macro do contexto de negócios.
Colaboradores, lideranças e gestores de negócio enfrentam dilemas financeiros diferentes. Colaboradores precisam desenvolver autonomia sobre seu dinheiro. Líderes precisam compreender o custo real das decisões que tomam diariamente. E gestores precisam dominar as ferramentas econômicas que sustentam o crescimento do negócio.
Quando isso acontece, os efeitos aparecem: menos estresse financeiro, melhores decisões, menos desperdício, mais disciplina operacional e mais consciência econômica nas lideranças.
Disso tudo, o que se tira é que talvez tenha chegado a hora de falarmos mais abertamente sobre dinheiro dentro das organizações. Não como promessa de riqueza rápida, como querem fazer crer os influencers e gurus digitais, mas como ferramenta de lucidez. Esse é o único jeito de garantir que decisões financeiras conscientes sejam tomadas todos os dias por pessoas, líderes e gestores.
Decisões ruins custam caro. Mas decisões financeiras ruins custam muito mais.
Este artigo foi originalmente publicado no LinkedIn por Marcelo do Carmo Rodrigues, MSc e MA, cofundador da Conexão IE.
Leia o artigo original: https://www.linkedin.com/pulse/racionalidade-em-fuga-crise-%C3%A9-geral-do-carmo-rodrigues-msc-e-ma-uimef/ Continue a jornada: conheça a MACRO e os programas de educação financeira e economia comportamental da Conexão IE.
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