janeiro 21, 2025
Precisamos reaprender a ensinar o básico
Tive um verdadeiro choque ao perceber que competências como leitura, escrita e matemática, que sempre considerei habilidades básicas adquiridas na educação formal, passaram a figurar como necessidades críticas para as organizações. Essa constatação veio de uma edição recente do relatório “The Future of Jobs”, que, pela primeira vez, incluiu essas competências fundamentais entre as mais demandadas pelo mercado. Mas por que essas habilidades básicas estão ressurgindo como desafios no ambiente corporativo? O que aconteceu ao longo das últimas décadas para que jovens profissionais cheguem ao mercado sem o domínio adequado dessas competências essenciais?
Essa realidade levanta uma reflexão urgente para empresas e profissionais de RH: será que as dificuldades enfrentadas na seleção e retenção de talentos entre os jovens adultos não refletem, em grande parte, lacunas deixadas pelo sistema educacional? Este artigo explora essa questão e apresenta hipóteses sobre as causas dessa nova demanda, bem como estratégias para que as organizações enfrentem esse desafio de forma eficaz.
Future of Jobs
O Fórum Econômico Mundial (World Economic Forum, WEF) é uma organização internacional que reúne líderes empresariais, políticos, acadêmicos e outros influentes para discutir questões econômicas globais. Desde 2016, o WEF publica o relatório “The Future of Jobs”, que analisa as tendências do mercado de trabalho e as habilidades demandadas pelas organizações.
Há vários anos utilizo essa fonte nas aulas que ministro em cadeiras de economia na universidade, e também nas minhas atividades de instrutoria nas empresas, em que desenhamos jornadas de desenvolvimento com base nas competências mais demandadas em cada setor da economia.
Uma constante observada em várias edições desse relatório é a ênfase nos pensamentos crítico, analítico e sistêmico como competências essenciais para o futuro do trabalho. Essas competências sempre aparecem em primeiro lugar no ranking, e nada mais adequado a um mundo em que tarefas básicas são cada vez mais substituídas por sistemas de tecnologia da informação, e o foco dos analistas, gestores e tomadores de decisão passa a ser lidar com cenários e problemas complexos ainda não solucionados de forma adequada por tais sistemas, quem sabe num futuro próximo com a ampliação da inteligência artificial.
Nos últimos anos, tivemos diversas turmas de formação em diferentes organizações em que trabalhamos o desenvolvimento do pensamento crítico, analítico e sistêmico na tomada de decisão. O pensamento crítico envolve a capacidade de avaliar informações de forma objetiva, questionar suposições e considerar diferentes perspectivas antes de tomar decisões. Já o pensamento analítico refere-se à habilidade de decompor problemas complexos em partes menores para entendê-los e resolvê-los de maneira eficaz. O pensamento sistêmico trata de abarcar todos os fatores e elementos que precisam ser considerados pelos dois anteriores. Essas competências são fundamentais em áreas como planejamento estratégico, desenvolvimento de produtos e inovação, onde a análise cuidadosa e a avaliação crítica são cruciais para o sucesso organizacional.
Em edições mais recentes do relatório do WEF, essas competências permanecem em lugar de destaque no ranking, sendo o pensamento analítico mais uma vez o primeiro colocado. No entanto, uma dessas edições trouxe uma novidade: a inclusão de competências básicas como leitura, escrita e matemática entre as habilidades necessárias para os próximos anos, o que nunca havia ocorrido em edições anteriores. Competências básicas sempre saíram da lista, sendo substituídas por competências associadas às soft skills, tecnologia ou situações complexas.
Essa inclusão levanta questões sobre as razões pelas quais habilidades fundamentais, geralmente adquiridas na educação básica, estão se tornando lacunas no mercado de trabalho, especialmente entre as novas gerações. Trago aqui algumas hipóteses para o ressurgimento dessas competências básicas na lista do WEF, principalmente considerando a realidade brasileira.
Deficiências no sistema educacional
Avaliações internacionais, como o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), indicam que o Brasil apresenta desempenho abaixo da média em leitura e matemática, com uma parcela muito significativa dos estudantes de 15 anos não alcançando o nível básico de proficiência em matemática, bem acima da média dos países da OCDE.
Esses resultados refletem lacunas significativas na formação educacional básica, impactando diretamente as habilidades dos jovens que ingressam no mercado de trabalho. Lembro-me de décadas atrás, quando, para evitar a evasão escolar, foi adotada a estratégia de não reprovação dos alunos nos primeiros anos do ensino primário (como chamávamos na época), mesmo que não tivessem aprendido a dominar a leitura e as operações básicas. Tratava-se do modelo dos ciclos básicos de alfabetização, que estabeleceram um continuum entre as antigas séries iniciais do ensino fundamental.
Acompanhei de perto o sofrimento e a frustração dos professores na época, pois minha mãe era da rede estadual de ensino e tinha que promover alunos com deficiências de aprendizado que iriam impactar, depois de um tempo, na capacidade de aprendizado durante todo o ensino fundamental e médio. Essa dificuldade já é percebida, nos dias de hoje, até mesmo nos níveis de pós-graduação, onde futuros pesquisadores apresentam, em sua maioria, dificuldades extremas em interpretação de artigos científicos e na aplicação de métodos quantitativos de pesquisa.
Impacto da pandemia de Covid-19
A pandemia afetou gravemente a continuidade e a qualidade do ensino, exacerbando desigualdades existentes. Muitos estudantes enfrentaram dificuldades com o ensino remoto devido à falta de acesso à tecnologia e ambientes inadequados para o aprendizado, resultando em defasagens educacionais que afetam competências básicas. Em um dos últimos anos como professor de uma cadeira de microeconomia na graduação, me deparei com uma turma de primeiro ano em que mais da metade dos alunos não sabia interpretar gráficos ou resolver sistemas de equações de primeiro e segundo grau, necessários para aplicação de modelos econômicos básicos como equilíbrio entre oferta e demanda. Motivo: simplesmente não tiveram disciplina de matemática nos dois últimos anos do ensino médio, pois a escola que frequentavam não dispunha de meios adequados para o ensino de matemática no ambiente virtual. Ainda assim, os alunos receberam o certificado de conclusão do ensino médio e foram admitidos na universidade.
O mercado da tecnologia da informação
Com a crescente demanda por habilidades tecnológicas e digitais, pode ter havido uma forte atração de pessoas com essas proficiências para carreiras de TI, o que levou à escassez da oferta para outras áreas. O leitor pode estranhar leitura e redação associadas à TI, mas temos que lembrar que os programas e códigos mais estruturados são como frases complexas, com comandos (verbos), objetos, variáveis… analisar um código se assemelha à análise sintática que praticávamos nas aulas de gramática.
Desconexão entre educação e mercado de trabalho
A evolução dos métodos pedagógicos, incluindo a integração de tecnologias educacionais, pode não ter sido acompanhada por uma adaptação eficaz dos currículos para garantir a proficiência em habilidades básicas. A falta de formação adequada (ou interesse e motivação) para educadores nesse contexto também pode ter contribuído para lacunas no aprendizado. Além disso, a falta de alinhamento entre o que é ensinado nas escolas e as exigências reais do mercado de trabalho pode resultar em profissionais que não dominam competências básicas necessárias para desempenhar funções de maneira eficaz. Essa desconexão evidencia a necessidade de uma colaboração mais estreita entre instituições educacionais e empregadores.
Impacto para as organizações e estratégias de RH
A deficiência em competências básicas entre os novos profissionais representa um desafio significativo para as organizações, afetando a produtividade e a eficiência. No contexto brasileiro, onde os resultados educacionais estão aquém das médias internacionais, as empresas enfrentam dificuldades adicionais na formação de uma força de trabalho qualificada. Para mitigar esses desafios, as áreas de Recursos Humanos podem adotar as seguintes estratégias:
Programas de treinamento e desenvolvimento: implementar programas internos focados no fortalecimento de habilidades básicas, garantindo que os funcionários desenvolvam as competências necessárias para suas funções. Iniciativas como acompanhar cursos supletivos em ambiente corporativo, com lideranças atuando como tutoras, já mostraram valor no passado, contribuindo também para construir laços entre funcionários e chefia, melhorando o clima de trabalho e fortalecendo a cultura organizacional.
Parcerias com instituições educacionais: colaborar com escolas e universidades para alinhar currículos às necessidades do mercado de trabalho, contribuindo para a formação de profissionais mais preparados.
Programas de mentoria na base da hierarquia organizacional: estabelecer iniciativas de mentoria onde funcionários experientes auxiliem novos colaboradores no desenvolvimento de habilidades essenciais, promovendo uma cultura de aprendizado contínuo.
Investimento em educação continuada: oferecer oportunidades de educação continuada e capacitação, incentivando os funcionários a aprimorar constantemente suas habilidades básicas e técnicas.
Abordar as lacunas em competências básicas é crucial para que as organizações mantenham sua competitividade e capacidade de inovação em um mercado de trabalho em constante evolução. Cada vez mais, as organizações vão ter que reforçar seu papel de complementação da formação dos novos entrantes no mercado de trabalho, indo além do que costumavam fazer.
Este artigo foi originalmente publicado no LinkedIn por Marcelo do Carmo Rodrigues, MSc e MA, cofundador da Conexão IE.
Leia o artigo original: https://www.linkedin.com/pulse/precisamos-reaprender-ensinar-o-b%C3%A1sico-do-carmo-rodrigues-msc-r8hnf/ Continue a jornada: conheça a Academia IE.
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