julho 30, 2026

O trabalho também pede escuta

Há anos tenho estado profundamente conectada ao desenvolvimento de competências socioemocionais. Inteligência emocional, liderança, carreira, cultura organizacional. Têm sido centenas de aulas, palestras, mentorias, processos de coaching e conversas com pessoas dos mais diversos contextos.

Continuo acreditando que a inteligência emocional é uma das competências mais importantes do nosso tempo. Mas, mais recentemente, uma inquietação começou a ocupar um espaço cada vez maior nas minhas conversas: percebi que quase ninguém mais chega nos eventos e palestras falando de produtividade ou de eficiência de time. Mesmo nos briefings para nossos programas de desenvolvimento, o que tem aparecido são queixas sobre desmotivação, conflitos entre equipes, “desengajamento”, sobrecarga, endividamento e confusão mental.

Durante os encontros, sejam on-line ou presenciais, as pessoas param imediatamente tudo se eu convidar para darmos uma “respirada”. Até meus óleos essenciais são acionados a qualquer momento, e líderes de centenas de pessoas pedem para fotografar os aromas que uso. Porque estão exaustos. Porque o corpo dói, os ombros pesam. Sentem-se tão cheios de cobranças, internas e das organizações, que confessam uma grande dificuldade de se concentrar. E se precisarmos falar sobre as causas de conflitos ou dificuldades cotidianas? Me respondem em no máximo vinte minutos, mesmo em grupos de vinte e cinco pessoas. Coisa que há alguns anos levaríamos uma hora e meia pelo menos discutindo.

Percebo uma enorme exaustão coletiva em sermos produtivos, racionais, organizados. “Essa viagem é realmente necessária?” é algo que dizíamos entre risos quando alguém sugeria uma tarefa meio tosca tempos atrás. Agora existe apenas um silêncio. E a vontade de atacar sozinho(a) a lista de tarefas, o caminhão de mensagens sem resposta, assim que possível.

De um lado, nunca falamos tanto sobre saúde mental. Nunca produzimos tantos dados sobre pessoas ou tivemos tantas ferramentas para acompanhar desempenho, clima, engajamento e bem-estar. Por que então essa sensação de que algo importante está nos escapando, e que não há slide bonito ou efeito de som que diminua a sensação de esgotamento emocional que abate as pessoas no mundo do trabalho? E será que existe algo que possamos fazer, facilitando o desenvolvimento humano em organizações? É nessa direção que segue este artigo.

Quem está escutando?

Comecei a suspeitar de que nosso problema talvez não seja apenas falta de saúde mental, nem excesso de trabalho. Tampouco dificuldade de diálogo, como por vezes equipes de RH me encomendam, pedindo soluções para as pessoas se comunicarem melhor. Afinal, o que não faltam são canais de comunicação: WhatsApp, Teams, Zoom, reuniões gravadas, e-mails feitos por robôs nos lembrando o que conversamos… e contando. Por absurdo que pareça, por tão abundante que seja essa troca de informações e ideias, penso que estamos vivendo uma enorme escassez de escuta.

Não estou falando só de escuta do outro, mas também da equipe, como consciência coletiva. Da organização, que está confusa em manter planos estratégicos que não duram nem semanas, que dirá um ano inteiro. Do contexto social, da relação com as notícias, da percepção que se tem da vida, nesse mundo em que as IAs estão absurdamente mais rápidas e espertas que nós. Acima de tudo, escuta de nós mesmos, como pessoas com trajetórias, aspirações, desejos e frustrações próprias.

Ainda tem outra coisa que está me incomodando bastante: esse esforço contínuo por crescimento profissional, que vem exatamente na esteira de nossas inseguranças de atualização e aprendizagem. Como isso está cansativo! As redes profissionais se transformaram em um enorme palco de conselhos, performance, “prova social”, opinião com ajuda de IA. Todos ensinam, alguns iluminados evoluem e trocam dicas encontradas nas redes. Parece que estamos num vagão de metrô lotado, nos acotovelando uns aos outros. Não sobra tempo para duvidar, aprender, discordar, perguntar, aprofundar, silenciar.

Antes que me chamem de amarga (e talvez tenha uma certa acidez nisso tudo, reconheço), li um artigo da Psychology Today, escrito por Carolyn Karoll, que me faria abraçar a autora se a encontrasse na rua. Carolyn descreve o custo psicológico de uma cultura obcecada por desenvolvimento contínuo. Um mundo em que crescer deixa de ser um desejo saudável e passa a ser uma condição para finalmente nos sentirmos suficientes. O problema é que essa corrida nunca termina: há sempre mais um curso, mais um hábito, mais uma certificação, mais uma competência para desenvolver. Até o descanso passa a ser avaliado como investimento em performance.

Parando o mundo, agora com IA

O equivalente ao “para o mundo que eu quero descer” agora é possível, com ajuda dos chats e aplicativos de aconselhamento. E não adianta torcer o nariz para essa ajuda. Ela veio porque atende a uma enorme necessidade das pessoas, por mais riscos que venham junto. Também no universo do trabalho.

As pesquisas são aparentemente contraditórias. Mas talvez não sejam. Uma pesquisa recente da Universidade de Manchester mostra que pessoas conseguem receber suporte emocional de sistemas de IA com qualidade comparável, e em alguns contextos até superior, à de interações humanas. Isso acontece porque essas conversas oferecem disponibilidade, acolhimento e ausência de julgamento. Entendo que disponibilidade, dada nossa urgência e pressa em tudo, é talvez o mais importante desses fatores. Ainda assim, que triste encontrarmos acolhimento emocional a partir da troca com organismos que não sentem, não é mesmo?

Por outro lado, um estudo de pesquisadores de Stanford encontrou um risco importante: quando buscamos conselhos interpessoais, os modelos tendem a concordar conosco em excesso. Eles validam nossas percepções, mesmo quando estamos errados, reforçando nossas certezas em vez de ampliar nossa capacidade de enxergar o outro. Os participantes passaram a sentir menos necessidade de pedir desculpas e mais convicção de que estavam certos. E discussões com essa mesma preocupação vêm aparecendo em diferentes redes sociais, corroborando esse risco de amplificação de pensamentos destrutivos, não construtivos ou simplesmente narcisistas. Porque Narciso acha feio tudo que não é espelho. E as IAs percebem rapidamente isso e são treinadas para entregar respostas que recebam nossa melhor avaliação no final.

Ok, então talvez seja hora de largar a caneta, de interromper nossos prompts de comando. Talvez o maior desafio das organizações não seja descobrir o resultado das eleições ou o tamanho de um fenômeno climático, tampouco as inovações tecnológicas. Penso que precisamos de uma pausa para repensar a experiência humana no trabalho. Afinal, é em torno dele que passamos a maior parte da vida! É o trabalho que representa nosso “fazer” no mundo, nossa expressão e criatividade. É nele que construímos vínculos, fortalecemos identidade pessoal, compartilhamos valores e ampliamos competências, encontrando sentido para atribuir à nossa existência.

Nossa humanidade está cheia de dúvidas, apesar de tantas respostas fáceis. Teremos lugar para escutar a voz de nossas incertezas? Dessa vez não ouso terminar com respostas.

Chegando ao final desse papo, gosto desse espaço em branco de não saber para onde estamos indo. Tudo bem suportar essa enorme dúvida, quem sabe até um certo desconforto com o futuro. E pode ficar mais fácil se tivermos um bom ouvido, se trocarmos um bom dedo de prosa com alguém disposto a ouvir ou que valha a pena escutar, tendo às mãos uma xícara de chá. Se isso não for possível, que possamos ao menos encontrar tempo para escutar os próprios pensamentos.

Depois da tempestade, vem a bonança. O melhor de nossa travessia, a parte mais bonita de nossa humanidade compartilhada, pode estar só começando.

Este artigo foi originalmente publicado no LinkedIn por Alessandra Gonzaga, Ph.D., cofundadora da Conexão IE.

Leia o artigo original: https://www.linkedin.com/pulse/o-trabalho-tamb%C3%A9m-pede-escuta-alessandra-gonzaga-ph-d–gwwrf/ Continue a jornada: conheça a Academia IE e o podcast Travessia da Escuta.

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