dezembro 22, 2021

O significado do Natal

Não, esse não é mais um artigo para contar a lenda do Papai Noel ou para falar sobre o significado religioso do Natal. Também não vamos falar sobre os antigos rituais pagãos de trocas de presentes antes da chegada do inverno. Porque sim, isso acontecia no hemisfério norte, onde neva. Aqui no Brasil estamos no verão, e os “papais noéis” de shopping e rua sofrem com suas barbas e roupas quentes! E também nós, ao circularmos entre as ruas e estabelecimentos. Em resumo, esse artigo não é sobre a data comemorativa do Natal, é sobre as emoções que a atmosfera natalina provoca em nós e o significado disso tudo.

Uma emoção é composta de vários elementos. Elas passam por nossa consciência tão rápido que, por vezes, não percebemos. Existem pelo menos três elementos em cada emoção: o tipo de pensamento associado a ela, a resposta fisiológica que ela gera, e o comportamento que obtemos a partir dela.

Vamos tomar por exemplo as compras de Natal para analisar os diferentes componentes emocionais. Vamos supor que Amanda, nossa personagem, deixa sua busca por presentes para a última semana, porque estava ocupada demais finalizando as coisas no trabalho, visando aproveitar ao máximo o recesso das festas. Ela chega na grande rua popular de sua cidade e vivencia, sem perceber, um mix de emoções: frustração, culpa, excitação com o Natal, amor pelos familiares a cada compra, raiva dos que se acotovelam para acessar lojas, angústia em relação à lista de tarefas para poder receber pessoas em casa.

Perdida em seus pensamentos e movendo-se até a fila do caixa, Amanda leva um esbarrão. Fica por um lapso de segundo confusa se foi sua culpa ou não e, antes de pedir desculpa, vê a pessoa seguir irritada em direção à saída da loja. Isso lhe faz prestar atenção ao que está acontecendo, retirando seu foco da lista mental de pessoas e atividades que lhe aguardam até o Natal. Em uma luz de inteligência emocional, ela consegue se dar conta de seu sentimento e de muitos a seu redor: “estou irritada, outras pessoas também estão”. Percebe ainda que a irritação é alimentada pelo calor que está sentindo, nenhuma loja tem ar-condicionado, apenas ocasionalmente um ventilador, e pela respiração abafada. Todo esse estado emocional gera um comportamento apressado e desfocado.

Já tendo pago seu presente, Amanda aguarda agora na fila do pacote. Nesse momento, elabora um pensamento sobre sua emoção: “essa irritação é do acúmulo de gente, da pressa. Vai passar, preciso me acalmar e aproveitar a compra. Não vou perguntar para a moça se vai demorar, já sou a próxima. Vai dar tempo, ainda tem tempo”. Ela lembra das aulas sobre regulação emocional e aproveita para fechar brevemente os olhos, respirando fundo e expirando devagar pela boca, acessando assim a parte fisiológica das emoções. Já de volta para casa, ela olha para alguns enfeites de Natal na frente de uma loja e pensa: “Não preciso de mais enfeites, agora só o presente de tia Ana e vou embora”. Ela o encontra em uma última loja e dessa vez percebe-se bem mais calma. Na fila do embrulho, percebe-se também menos irritada, mais paciente e até compassiva com a moça das embalagens, que limpa o suor da testa antes de desejar um “Feliz Natal” e lhe entregar o pacote, ao que Amanda responde com muita alegria: “Feliz Natal a você também, tudo de bom a você e sua família”.

Esse episódio das compras é marcado pela trajetória de diferentes emoções, das quais se resumem os estados emocionais de excitação, irritação, paciência, compaixão e alegria, presentes no pensamento, biologia e comportamento de Amanda. No entanto, esse pequeno exemplo hipotético ainda não acessa uma quarta dimensão das emoções: o significado. Nessa dimensão mora o “porquê” de cada estado emocional vivido por nossa personagem. Esse motivo justifica tudo que ela possa ter passado e a forma como lidou com uma situação estressante.

De acordo com o psicólogo Robert Leahy, todos os sentimentos estão vinculados a algum significado em nossas vidas:

“Se você se sente solitário, isso provavelmente significa que a conexão humana é importante para você. Se sente raiva, isso provavelmente significa que ser tratado com respeito é importante para você. Sentir amor significa que outra pessoa é especial para você. (…) Nós humanos temos uma capacidade tão grande para sentimentos porque atribuímos significado a muitas coisas.”

O que fez Amanda sair para as compras foi o amor e cuidado com seus amigos e familiares, convidados da ceia de Natal. Também esse zelo acabou abrindo uma série de tarefas mentais que a levaram à dispersão e ao esbarrão na loja. Mais tarde, quando se percebeu irritada, Amanda lembrou-se da importância de cultivarmos emoções positivas e sermos sociáveis, afinal “todos estamos no mesmo barco”. Foi quando ela parou e respirou fundo. Por último, vendo o esforço da atendente, Amanda colocou-se em seu lugar e retribuiu o desejo de Feliz Natal com alegria e gratidão, acessando sua empatia compassiva.

Todos nós, em um momento de maior ativação emocional, no pico da irritação ou frustração, podemos elencar um pensamento para lembrar o sentido de nossos humores: o amor a amigos e entes queridos, a preocupação em torno de fazer as coisas bem-feitas, a empatia com outros seres humanos e suas famílias. Perceber por que nossas emoções estão presentes ajuda a elevar nossas ações para um sentido maior, que a tudo abranda e orienta.

Nesses momentos emocionantes que antecedem o Natal, vale a pena prestar atenção à sequência: perceber seu sentimento, dar-se conta de seus efeitos físicos e das ações e expressões que provocam, e, por último, considerar a razão de seus sentimentos. Presencie-se. Como dizia Blaise Pascal: “o coração tem motivos que a razão desconhece”. Que possamos vivenciar nossas festas com inteligência emocional e presença, presenteando-nos com a voz de nosso coração.

Este artigo foi originalmente publicado no LinkedIn por Alessandra Gonzaga, Ph.D., cofundadora da Conexão IE.

Leia o artigo original: https://www.linkedin.com/pulse/o-significado-do-natal-alessandra-gonzaga-ph-d-/ Continue a jornada: conheça a Academia IE e o livro Conectados: Competências Socioemocionais na Era do Caos.

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